Aniki Bóbó

Aniki bébé/ aniki bóbó/ passarinho tótó/ berimbau/ cavaquinho/ salomão/ sacristão/ tu és polícia tu és ladrão

Imbicto leitor,

Hoje acordei de uma forma estranha. Aliás, quase todos os dias acordo de forma estranha.,, E não! Não falo da ainda mais estranha perspectiva que tenho sempre que abro os olhos. Cada dia, estou num lado diferente do rectângulo branco, a olhar para sítios diferentes.

Aquilo a que me refiro, é à musiquinha… Sabem, aquela musiquinha irritante que não nos larga e que chega em crescendo até nos convencer a levantar… Mas esta musiquinha não era irritante como as outras. Era um som quase de periquito, ténue, produzido por Jaime Silva Filho para o irrepetível Aniki Bóbó, de Manoel de Oliveira, em 1942. Era aquele som que está no limite entre o irritante e o genial.

Já vi a obra-prima do recém falecido cineasta umas cinco ou seis vezes. A última foi por altura da morte dele. Para ser sincero, já nem me lembrava bem de algumas passagens. Lembrava-me, sim, do impacto que sempre teve em mim e da história.

Para quem não viu, aconselho. Nem que seja para mandar à merda os pseudo-intelectualóides que populam o meio, cheios de tiquezinhos, tendências e amiguinhos dos quais dizem sempre bem e que só reconhecem mérito quando fica mesmo mal fazer o contrário, de tanto botabaixismo que se empregna na veia – um pouco na lógica futebolística, p´tanto… E aconselho porque é um filme que me faz lembrar a conjuntura futebolística nacional deste ano.

A trama relata as aventuras e desventuras dos meninos da Ribeira, que já todos vimos em versão iphone. Ainda os há, mas actualizados, com o devido estrago da mudança social e temporal. Tudo gira à volta da Teresinha, aquela miúda da rua, ou do bairro, que todos querem, mas à qual apenas dois tipos de puto têm o privilégio de aceder, ou de ter hipótese: ou o rufia, ou o giro. Entre ambos, há sempre uma característica comum: o poder da fama. E o poder da fama vem de um historial, de um conjunto de atitudes que posiciona o puto num lugar de destaque.

Esse poder aparece com dois tipos essenciais de circunstância: a natural e a forjada. No giro, vem de uma propensão natural para dar nas vistas. De uma bênção genética qualquer, de um ADN que é a soma de factores hereditários vincados e incomuns. Já no mauzão, a coisa dá-se diferentemente… Nada é natural. Tudo é coercivo. Tudo é manipulado para atingir um objectivo: estar a par do giro, por incapacidade natural, ou por hipótese em aceder àquilo a que apenas o giro tem acesso privilegiado.

E esta lenga-lenga toda porque me parece haver uma estranha, mas óbvia coincidência aproximada com a realidade – porque a vida é isso mesmo: uma soma de circunstâncias comuns que levam a um mesmo resultado.

O Carlinhos, o giro, queria a Teresinha. Pensava numa forma hábil de chamar a sua atenção com pequenos gestos e olhares. Já o Eduardo era um abrutalhado que quase exigia a presença da menina. Passeava junto ao Douro até ela se fartar por alguma estupidez que dissera, tentando-a impedir de ir embora com uma cara sempre enjoada e com o pronto uso da força, sempre que necessário.

A tensão entre Carlitos e Eduardo era constante, até ao dia em que, numa brincadeira parva, o mauzão tropeça e dá um tralho à patrão da escarpa e vem parar cá abaixo. Carlitos tinha de estar ali perto… Acusaram-no, afastaram-no, isolaram-no, como se não bastasse já o facto de todos os outros miúdos andarem com o mauzão, por conveniência e medo.

Sinceramente, acho que chegámos um pouco a este ponto… Não contarei o resto, porque não sei se “já viram este filme”, ou se acham que o final será diferente.

O FC Porto é um pouco o Carlitos. O Eduardo, já todos sabem quem é, numa ânsia de poder e de raiva constante, artificializando o carácter e a personalidade vincada do primeiro em cada palavra, em cada sobeja, em cada pau-mandado  e em cada escolha de quem será o polícia, ou o ladrão…

Imbicto abraço

Imagem de capa: Aniki Bóbó

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