Os estádios de Taveira – o curioso caso da Luz e de Aveiro

Imbicto leitor,

O artigo não tem nada que ver com o Taveira. Ou tem… Quer dizer, está relacionado, embora as pessoas que por ele pesquisem e que cá venham ter para ler isto, talvez não encontrem o que estavam à procura – especialmente de ver…

Este artigo pretende fazer um apanhado geral sobre as obras arquitectónicas do Euro 2004, da sua utilidade e da sua autoria, campo no qual Tomás Taveira desempenha um papel cimeiro. Hoje é, portanto, um dia diferente, aqui no espaço, porque misturar coisas menos evidentes com o futebol também é bom.

Tomás Taveira é uma referência incontornável da Arquitectura Portuguesa que, por sua vez, é uma referência incontornável da Arquitectura universal – nomeadamente do Pós-Modernismo e das experimentações de Siza, em inspiração na reinvenção do Modernismo nórdico e do centro da Europa, de inícios do século.

Ao contrário de Siza – portuense (concepção lata de quem nasceu fora do Porto, mas que nele se dilui), “vermelho” (política e desportivamente) que até publica rascunhos e esquissos em cartas de casas do seu clube (“Expor on Display”) -, Taveira explora linguagens mais alegóricas e coloridas. Aliás, foi José Augusto França, o próprio, que chegou a colocar estes dois vultos como de destaque inultrapassável da Arquitectura nacional do último século, na sua obra acerca da “História da Arte em Portugal – Modernismo”.

Apesar de não ser ninguém para contestar isso, desconheço se essa referência é, de facto, nacional, ou macrocéfala, tendo em conta o impacto que Taveira teve em Lisboa – nomeadamente no projecto das Amoreiras e da “Zona J”, desconhecendo eu – que até estou à vontade com a área – a justificação cabal para tal destaque referencial nacional, mesmo tendo em conta o seu estilo único, revolucionário e diferenciado, sem discutir gostos, em que, do outro lado, estaria um Viana de Lima, ou um José Carlos Loureiro – vultos claramente desvalorizados na sua genialidade, novidade, ou precocidade (re)inventiva, talvez por terem nascido no sítio errado ao qual a internacionalização apenas agora começa a forçar à valorização.

A verdade é que gosto de Taveira, mesmo que a primeira vez que tenha ouvido falar nele, quando era puto, tenha sido por razões alheias à Arquitectura… Aprecio a sua obra como ruptura e como entendimento diferenciado dos contextos, sem que o isente de críticas naquilo que concerne ao gosto e à compreensão do lugar – ou não fosse uma das minhas alma mater obrigar-me a isso… Tem mérito, trouxe algo de novo, experimental, mas pouco efectivo, na minha modesta e discutível opinião. Gosto, porque o homem, simplesmente, “está a cagar” para o que vocês pensam, numa atitude que de suplantável só terá mesmo Troufa Real como sumidade. É pragmático q.b. e vai directo ao assunto, embora a sua criatividade nos atire erradamente para outros campos, numa espécie de relação proporcional que gosto de exemplificar, na brincadeira, como esta: Bocage está para Camões assim como Taveira está para Gehry.

luz taveira

Não sei se é do vosso conhecimento, mas coube a Taveira levar a cabo alguns dos mais icónicos projectos do Euro 2004, quase como uma espécie de Rogério Azevedo do séc. XXI, naquilo que concerne às obras públicas do Euro, tão queridas dos arquitectos, mas sem a componente ditatorial e monótona. Neste domínio, os estádios de: Alvalade, de Aveiro, de Leiria e até o da Luz, num projecto desconhecido, gerido como sempre e que merece ser lido aqui, nesta entrevista curta e espectacular, onde chega a colocar em causa a força do seu benfiquismo pouquíssimo dogmático.


Afinal, o que é que aconteceu aos estádios de Taveira?

O da Luz (infelizmente) não chegou a fazer jus ao nome, naquilo que teria sido o ambiente perfeito para celebrar o título com Villas-Boas, às escuras e molhadinho.

O de Leiria, nunca mais ninguém ouviu falar dele, a não ser como equipamento multi-usos.

O de Alvalade, toda a gente fala nele, devido às comparações inevitáveis com a azulejaria de quarto-de-banho e com a reminiscência do fosso do coliseu romano, num projecto que nem era para ter sido aquele, se tivesse sido por vontade do próprio.

O de Aveiro, para além do de Alvalade, tem sido, claramente, o que melhor uso tem tido. Lá, jogam todos. É o estádio de todos, numa democracia enternecedora que recebe os clubes mais pequenos que passam tantas dificuldadezinhas e que precisam dos preciosos tostões para sobreviver – sejam eles parte sua da receita, ou cedências caridosas e exemplares de certos clubes que não precisam de dinheiro para nada, mesmo tendo o passivo que têm, noutros exemplos de estádios emprestados para além deste.


Mas afinal, qual é o problema?

Bom, há clubes que só jogam com quem lhes interessa, em Aveiro. E se a desculpa fosse a dificuldade financeira, a receita proveniente, ou a doação caridosa, há notícias que desmentem isso mesmo:

tondela e slb

Resumindo, não se entende este novo papel de “utilidade” dos “elefantes brancos” surgidos da megalomania estatal do betão que artificializa índices de desenvolvimento, de crescimento e de empregabilidade e que ajudou a colocar-nos nesta situação difícil, mesmo tentando mascarar as coisas – nem que seja pela ilusão óptica habilidosa sugerida pelas cadeiras multicolor dos estádios referidos, enganando o olhar com o número real de adeptos, agravado ainda mais pela excelente acústica do espaço. Porém, o arquitecto não tem nada que ver com isso, pois é a sua profissão. Se alguém não gosta de fazer contas, não será, com toda a certeza, o ego do autor da obra, ou o seu interesse negocial da profissão a fazê-lo – como se viu em muitos outros casos de outros autores, como os equipamentos da Expo, ou da Parque Escolar.

Isto serve como ponte para o real problema, que se interliga na justificação da imprestabilidade de uso do imobiliário gerador de promiscuidades e despesa a jusante e que, por sua vez, leva à exploração de interesses e a clientelismo.

Não se entende a escolha de determinados clubes, obrigando outros a dirigirem-se ao seu reduto, onde a lógica competitiva da igualdade de meios está colocada em causa pelos próprios regulamentos, bem utilizados pelos clubes pequenos, da maneira que consideram ser a mais conveniente.

Curiosamente, a possibilidade de receber o FC Porto em casa é a mais querida pelo clube de Tondela. Podendo utilizar Aveiro como recurso a receita de um jogo onde, com toda a certeza, milhares de adeptos portistas superariam esses tais 9000 “espetadores” (como agora se diz), devido à proximidade relativa entre Porto e Aveiro, o clube com dificuldades logísticas faz finca-pé em receber-nos por lá.

Mais curioso ainda, é perceber a atitude do Arouca… Depois de “dar uma prenda aos emigrantes” no jogo contra o mais-maior-bom clube português-e-arredores, segundo as estatísticas de 2001 avançadas por um indivíduo (ou “indevido” – como as pessoas chiques de “Lesbôa” gostam de “dezer”) que comenta coisas, agora prefere ver-nos a jogar em sua pequena casa, onde, supostamente, até se falava em penhoras de receitas de bilheteira

No meio disto tudo, só é pena que o estádio não tenha ajudado o clube da terra: o Beira-Mar, em graves dificuldades financeiras e perante um Plano Especial de Recuperação que levou, inclusivamente, os adeptos extraordinários do histórico clube a recuperarem um espaço que nunca lhes deveria ter sido “retirado” como casa.

Se por um lado é perfeitamente justificável o recurso a espaços com utilidade questionável e com custos de manutenção insustentáveis típicos de atitudes de “Zé-Tuga” que compra Ferraris para dizer que tem, mas que não consegue pagar, nem empréstimo, nem imposto, nem manutenção, nem “gota”; por outro lado, é injustificável que regulamentos desportivos permitam tais distinções gritantes de acesso e de competitividade. Tudo vale para justificar o facilitismo da “outra senhora” – seja por não poder alinhar com os habituais titulares, seja porque o campo está impraticável no momento do início do jogo, mas praticável pouco depois, seja porque o estádio está em obras só para alguns… Enfim… Pura dualidade criterial à qual estamos habituados, mas da qual ninguém de direito reclama como ajustável.

E assim, chegamos ao final desta reflexão bipolar. Felizmente, Taveira não tem nada que ver com isto; mas que é irónico, é. Não por causa do próprio, mas porque a trapalhada anda sempre concentrada no mesmo sítio, sendo a vida e obra do arquitecto uma alegoria circunstancial de um país incompreensível e que funciona, sempre e alegadamente, cinematograficamente falando, pela “porta dos fundos” para chegar a qualquer lado. E no final, tudo cai no esquecimento…

Imbicto abraço!

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6 thoughts on “Os estádios de Taveira – o curioso caso da Luz e de Aveiro

    1. Imbicto Miguel,

      Estás a referir-te à forma como a Rê-tê-pê anda a mostrar um vídeo “exclusivo” de um cidadão que, por mero acaso, estava naquele momento no voo do inimigo?
      Porra… e o Madureira todo certinho a prestar esclarecimentos…

      Imbicto abraço!

      P.S.: Viste o “Voz do Cidadão” desta semana? Devias…

      Liked by 1 person

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