Não é só uma camisola | Parte II

Imbicto leitor,

Depois de um artigo inicial que procurava abordar uma temática mais conceptual e gráfica, gostaria de prosseguir a análise com alguns tópicos sobre o contexto histórico e sobre o uso de alguns elementos presentes nos equipamentos, nos últimos anos. Será ainda importante perceber o contributo que as marcas deram, no sentido de tornar os elementos constitutivos em mais, ou menos, exclusivos. E, já agora, uma surpresa que guardei, mais para o fundo

Um terceiro artigo surgirá. Não sei se amanhã, ou em tempo mais pertinente, até porque gostaria de fazer uma proposta.

Para os interessados que ainda não leram a primeira parte, lançada ontem, deixo aqui o link.

Bom, comecemos!


Uma perspectiva histórica

Não sou o maior dos entendidos acerca dos equipamentos do FC Porto, confesso! Mas já vivi alguns anos – que o meu nick não deixa desmentir (ou não?) – e já fui lendo umas coisinhas aqui e ali. E é a propósito disse que gostaria de contextualizar, de certa forma, o novo equipamento nas referências do passado. Não se trata, portanto, de uma simples apresentação em slideshow, mas antes de uma tentativa de compreender o momento de formulação de um elemento fundamental da nossa cultura: a imbicta camisola do FC Porto.

Iniciamos esta pequena ronda no ano de 1922. E por que razão 1922? Simples, porque para além de ser o ano em que o FC Porto ganhou o seu primeiro Campeonato de Portugal, precisamente a 18 de Junho, foi o dia em que vimos surgir aquele belo pedaço de tecido raiado na vertical  a “uma só cor: o azul-e-branco”, cuja média de 80 euros por peça leva muitos a cometerem loucuras mais ou menos lícitas…

fc porto 1922

É claro que a expressão será a de alguma curiosidade, nomeadamente em relação às hipotéticas inspirações nas roupas de noite masculinas e que, aparentemente, serviram de motivo para o traje do guardião. Mas a verdade é que está ali, em meu entender, a base da camisola do presente ano.

Costumo dividir o design das camisolas em três grupos: as melancólico-tradicionais, claramente o exemplo da presente, inspirada em 1922 e em 2011; as cíclicas, como são exemplo os equipamentos de 1934, 2003 e 2013 e que dão sempre início a um novo ciclo; a mítica, como é exemplo a esmagadora maioria dos trajes e que tem como expoente máximo os anos de 1940 (de longe, o meu favorito), 1987, 2004. De todas estas há variantes que não podem, necessariamente, ser consideradas como base, a exemplo, o caso de 2005, ou 2011, anos em que ganhámos troféus internacionais.

O exemplo de 1922 é essencial, portanto. Parece-me existir uma influência clara em inúmeros aspectos. E como é difícil, em meu entender, considerar existir uma só camisola base, com um padrão base, é importante que não nos deixemos levar por um certo preconceito que tem origem nos modelos que mais vimos, durante a nossa vida, ou nos desenhos criativos dos anos em que ganhámos as maiores competições. E aqui, o lugar da tal camisola “mítica” é um pouco subjectivo, até porque a história de um clube como o FC Porto, com mais de 120 anos, não se pode resumir a pedaços da mesma, num todo que foi construído e que não surgiu do nada.

Defendo, portanto, que haja uma rotatividade natural na concepção dos modelos, como forma de limpeza da superstição consciente e como, claro, veículo de inovação, experimentação e negócio. Aqui, nesta última, qualquer um de nós se sentiria defraudado se a lógica fosse um pouco a do livro escolar: mudar pormenores, deslocalizar elementos e mudar de marca.

Continuando com as influências do equipamento para 2015/2016, depois de 1922, recordo-me dos anos de 2000/2001 e 2011/2012.

fc porto 2000 2001

fc porto 2011 2012

Curiosamente, exceptuando o ano de 1922, foi sempre uma desgraça. Em 2001 levámos com o Octávio Big Machado Laden e foi o que foi… E em 2011/2012, apesar do título (26º) e da regularidade, começou aquele que, para mim, é o ciclo mais estranho de que me lembro, inserido numa certa bipolaridade de um adepto que talvez desse tudo para voltar àquele tempo, em que se começou a desligar da equipa no pós-Villas-Boas. Tudo isto, aliado a declarações infelizes de jogadores e a limpezas de balneário naturais em ambientes onde o comodismo e a barriga cheia não deixam mais espaço para a ambição…

Aqui, tempo para um destaque pessoal. A tal surpresa: a camisola de 2001 que ganhei num concurso nacional, completamente autografada, onde tinha de fazer um relato de um jogo do FC Porto. Fácil, p´tanto. Ah! E ainda tive o enorme privilégio de conhecer o gigante Domingos Paciência, com o qual falei por uns breves momentos.

fcp3

fcp 2

fcp 1

Deixo à vossa consideração a pertinência de pesquisarem sobre as supra referidas camisolas, até porque queria dar uma certa coerência ao post, naquilo que é o seu objectivo: abordar, unicamente, as influências do futuro equipamento.


A polémica das cores

É famosa uma declaração prestada pelo respeitoso Augusto Inácio, dos seus tempos de FC Porto, quando, em memória de Pedroto, lembrou um episódio em que um jogador foi para o treino com botas vermelhas e não lhe foi permitida a entrada… Isto a propósito da cor dos números.

Para muitos, é ultrajante utilizar o vermelho nas costas. Mas a verdade é que, para quem insiste em ser supersticioso e em preferir o equipamento tradicional, também deveria ser supersticioso ao ponto de achar que o dourado e o azul dos números nos dá pouca sorte e que o vermelho é a cor que mais está conotada com a glória portista.

fcp 87

fcp 2003 fcp 2004

Sabendo que corro o risco de ser corrido ao insulto por isto, a verdade é esta! Mas não se trata apenas de superstlção, ou de sugestão, como diriam os psicólogos. Trata-se, de facto, de uma composição cromática feliz, contrastante e, porque não, provocatória!? Deixo o espaço dos comentários para a vossa opinião…


Um problema de marca?

Cada marca tem uma metodologia e é unânime que, desde a segunda metade dos anos 70, em que se estabeleceu a parceria com as Adidas até ao belíssimo equipamento comemorativo de 2013, houve um ou outro caso de falhanço redundante, mais ou menos alegórico, de onde, para além dos modelos das Adidas e da Nike (desde 2000), há a inultrapassável etapa Kappa (97/00) que, italianamente, durante três anos, deu-nos a conhecer as mais inusitadas camisolas de que me lembro, num arrojo estilístico característico mais do atletismo do que de um clube relativamente conservador, como é o FC Porto.

fcp kappa

Quem não se lembra disto? A verdade é que existe um amor/ódio em relação a este exemplar alaranjado onde o Real Madrid foi, claramente, beber inspiração para os novos equipamentos, mais numa lógica asiática do que, propriamente, mística…

Mas é daqui que percebemos a importância do laranja no conceito. Laranja esse presente nos novos equipamentos, em pormenor rematado na manga, a exemplo daquilo que se fez em 2010/2011, como se pode ver, comparativamente, abaixo.

falcao laranja

nb porto logos 2

Mas a questão da marca não se fica por aqui e pelos únicos e lendários equipamentos sui generis, como é o caso inverso ao da capa, o da Nike, em 2001, que não obedecendo aos cânones, criou uma das mais belas peças até hoje vestidas pelos nossos pupilos:

fcp 2001

A questão da marca tem também que ver com exclusividade. Quem gosta de ver o seu manto sagrado ser envergado por outra equipa muito menos mística, ainda para mais no preciso ano mágico da efeméride? Isso é imperdoável! Eis o exemplo:

herta 2013

Concluo dizendo que é por isso mesmo que o equipamento apresentado para o próximo ano é cheio de importância. Nota-se que foi pensado e que tenta reflectir um novo ciclo, de forma nostálgica mas, ao mesmo tempo tradicional, aliando elementos do passado com um desenho fiel, mas mais arrojado. Esta parceria, bastante exclusiva e dificilmente imitável, tem tudo para dar certo, para lá do óbvio cenário financeiro das contrapartidas.

equipamento1516610x340px

Gostaria de ter falado nos colarinhos, mas o tempo e a vossa paciência não merecem mais uso exaustivo.

Imbicto abraço!


P.S.1.: Por último, gostaria de agradecer a atenção e a disponibilidade em virem ler as parvoíces deste que vos e para vós escreve. O dia de ontem foi o mais preenchido de sempre, desde que inaugurei este espaço – curiosamente, fez ontem quatro meses, tendo eu feito muito mais anos do que os meses do blogue -. não havendo, portanto, melhor prenda do que essa. O contributo que espaços como o Porto Universal, o Porta 19 e o Novo Tomo têm dado, tem sido essencial para o crescimento do Imbicto Poema, numa certeza que a solidariedade entre bluegosféricos não deixa desmentir. O meu obrigado por isso, esperando continuar a ir de encontro às vossas tremendas exigências – isto é, se vêm cá para ler, ou simplesmente porque não têm mais nada que fazer (ehehe).

P.S.2.: As imagens, quando clicadas, remetem para a respectiva fonte, daí a ausência exaustiva das referências.

Anúncios

4 thoughts on “Não é só uma camisola | Parte II

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s