Não é só uma camisola | Parte I

Imbicto leitor,

Resolvi escrever apenas hoje sobre os novos equipamentos por três razões essenciais: tempo, pertinência e reacção.

Quis perceber qual seria a reacção dos adeptos portistas ao novo equipamento para 2015/2016. Quis entender o que se descobre, para lá da natural subjectividade apreciativa – e que bom que o Homem assim é – ao comentar a intensidade da cor, o número de linhas verticais, a disposição das mesmas, os pormenores e as cores que finalizam o pedaço de manto formado.

Como sempre, há quem adore e há quem odeie. Há quem faça “meh” e há quem ache ´apenas´ porreira. A verdade é que o pedaço de tecido é mais do que uma peça de alfaiataria. É um uniforme, um fato de trabalho, de gala e de divinização. É um ´graal´ que muitos relegam em condição de portista para fazerem negócio do autógrafo, ou do suor badalhoco, acumulado em camisolas anteriores – problema complexo, agora, com a nova tecnologia da NB que carecerá de testes de ADN para fazer justificar as centenas de euros que se pede por uma suposta camisola de jogo… Mas isso é outra história…

A verdade é que, em grande parte, a problemática gráfica e conceptual esgota-se numa semana. Daqui a uns dias já ninguém se lembra da discussão e já todos se conformaram. É a vida, ou simplesmente é a tendência do ser humano em entreter-se com estas coisas, na falta de melhor, por esta altura – a não ser que estivéssemos a jogar com a mítica Kappa adragonada

kappa laranja

Ontem foram, finalmente, revelados os equipamentos. Constata-se que há “Snowdens” em todas as multinacionais (mais certinho do que os rumores de jogadeiros) e que havia já uma versão bastante aproximada a circular há mais de um mês, como possível solução gráfica. E sempre fiquei optimista. Gosto, portanto, da solução encontrada. É nostálgica… se é que me entendem…

FC Porto leak

“Leak” do equipamento, já a circular há algum tempo


Dividirei a minha apreciação em três partes, já que dou uma importância tremenda a este momento. É necessário “ler” o que nos é apresentado e depois contextualizar. Hoje, ficamos pela concepção gráfica.

Bom, vamos por partes…


Padrão

Uma lista de baixo a cima atravessa o centro, larga, intensa, equilibrada, sendo aproximadamente um terço do espaço ocupado na frente. Isto confere uma certa verticalidade ao corpo. Cria uma noção de equilíbrio que as tradicionais duas listas não conseguem dar. E dirás: OK, mas há listas brancas e listas azuis. E eu te direi: OK, mas tu só reparas no azul. A base da percepção relega a cor branca, ou qualquer outra cor neutra à condição de fundo, destacando assim qualquer outra cor que se lhe adicione.

nb frente

As mangas fazem prevalecer o branco em remate azul, largo, igual ao restante, numa uniformidade que poderá ser considerada um pouco aborrecida. Demasiadamente homogénea, talvez. Aqui, talvez tivesse optado pelo preto, fazendo lembrar o equipamento de 2012/2013, que funciona numa lógica de inversão de cores sobre um padrão aproximado, ainda que agravando o espaço central. Mesmo assim, entende-se que os designers tenham pretendido dar continuidade sintética ao motivo, pois se as mangas estiverem perfeitamente estendidas, temos um ritmo de continuidade das listas azuis.

nb tras

As listas laterais dobram o corpo e permitem um contraste interessante e arrojado de pequenas listas horizontais que rematam o último terço do equipamento até à zona posterior, Pormenor muito interessante. Arriscado, mas creio que bem conseguido.

nb tras 2

As mangas rematam-se com uma discreta linha laranja, fazendo lembrar a gloriosa época de Vilas Boas e remetendo para o fogo, símbolo conotado com o dragão. Aqui quebra-se com uma aparente monotonia. A simplicidade e contenção com que se aplica é a necessária.

nb porto logos 2

A gola acaba num remate negro, já comum em grande parte das nossas camisolas, agravando ligeiramente os contrastes e dando intensidade à compreensão do esquema geral. Este princípio é invertido no equipamento do guarda-redes, onde o azul se inverte com o preto, na cor e na aplicação.

equipamento1516610x340px


Cor

É ainda difícil comentar a intensidade cromática do azul. Parece ser a adequada, mas as fotografias enganam, especialmente na aplicação do contraste. Espero que o azul não seja demasiadamente aberto como nos tempos da Kappa, ou ganhará uma conotação vulgar e pouco nobre.

Uma coisa é certa: o pormenor do qual muitos gostavam – e que eu odiava – de adicionar linhas fininhas às faixas azuis do corpo da camisola desapareceram. Não me incomodava a existência das mesmas, mas antes a falta de coerência e continuidade no restante azul. Sempre achei estranho, perdoem-me!

warrior fc porto

O laranja é um recurso sempre interessante. A analogia é clara e histórica e parece-me ser a cor indicada para fazer os ajustes contrastantes, evitando assim uma certa monotonia gráfica. É também um pormenor do qual as crianças sempre gostam, o que é sempre bom em termos de captação e venda.


Símbolo e logótipo

Começarei pelo logótipo. Funciona como uma espécie de assinatura numa tela. O posicionamento e a forma como o mesmo foi concebido não é, ou não pode ser acaso. E assim como um artista trabalha a sua assinatura de forma a ser única e não corromper o que interessa, também as marcas devem ter essa preocupação. E exemplo disso é o de Picasso, ou mais exaustivamente de Frank Lloyd Wright, sempre que fazia uma composição gráfica e queria situar a assinatura no local ideal, fazendo estudos, inclusivamente, para tal efeito.

Não sou grande entusiasta do logo da New Balance… Mas não é tão mau quanto o da Warrior. Pelo menos o que estava bordado no anterior equipamento. Estava a mais. Corrompia a compreensão do conjunto, na minha opinião.

Passo a explicar: as formas ideais são as rectilíneas ou as circulares. Em alternativa, a minimalista, como é exemplo na Nike o ´V´de Vitória – a deusa, não a coisa (tosse)… Mas isso também é relativo… Tudo depende do conjunto.

Uma vez que estamos a falar de um padrão rectilíneo e regular, a solução ideal é qualquer uma das supra referidas. Diferente seria se estivéssemos perante uma camisola lisa, onde o logótipo não tem, necessariamente, de obedecer a grandes imposições que não sejam as do bom senso e do bom gosto (naquilo que é a percepção geral do termo).

nb porto logos 3

Para lá de tudo isso, reparamos que o ´N´ e o ´B´ são constantes, em itálico, o que se enquadra relativamente bem no conjunto. No ano passado, para além de – e perdoem-me o que vou dizer – achar que o ´W´da Warrior parecia um grafismo de fato-de-treino da feira, era irregular. o que destruía o entendimento da regularidade do todo. Distraía. Ainda que o contraste seja essencial, uma coisa é contraste, outra coisa é incoerência. E essa coerência teria sido conseguida com uma solução muito simples e que, curiosamente, fora utilizada no Olival, nos painéis publicitários junto ao campo. O elemento circular à volta do logo contém essa dispersão gráfica e encontra  correspondência com o elemento circular da bola que temos no símbolo, junto ao coração. Tudo isto porque, para além dessa correspondência, é sabido nos meios que trabalham e estudam estas coisas, que o circulo permite ter uma dupla função: chamar a atenção para um elemento colocando-o em destaque (mas anulado com a prevalência dada pelo brasão abençoado sobre a bola, também ela redonda e maior, retirando-lhe relevância) e fazer dispersar o olhar em volta, integrando-o no resto.

warrior fcp

Logo utilizado no Olival e que deveria ter sido usado nas camisolas anteriores, na minha opinião


E agora, o mais importante: o símbolo do FC Porto.

Todo o desenho da camisola do ano anterior era relativamente bem conseguido, no geral, e respeitador da tradição. Mas havia falta de atenção ao pormenor. Havia uma certa precariedade na aplicação dos elementos de ornamentação: o símbolo, o logo da marca e o lettering.

A solução encontrada quanto ao símbolo do FC Porto era pobre. Era “velha”. Era uma adaptação que não entendi se foi propositada, por algum tipo de direito de autor relacionado com outra marca e que rompeu com as soluções belíssimas de modernidade aplicadas nos anos anteriores. A cor escurecida, as proporções… Parecia o emblema dos anos 70 e 80, um pouco estranho visto aos olhos de hoje, mas irremediável à tecnologia e arte de então.

nb porto logos

Este ano voltamos ao emblema dos últimos anos, onde a bola ganha uma noção de tridimensionalidade com a dispersão da cor ao fundo inferior direito. As cores são mais subtis e os elementos estão mais proporcionais uns aos outros.

Saúdo, por isso, a solução (re)tomada!


Lettering

Termino esta análise de hoje com o lettering. Para os menos conhecedores deste vocabulário, trata-se do tipo de letra aplicado aos nomes dos jogadores e aos números.

camisola 2014

Na época anterior, era a coisa que mais abominava. Tratava-se de um tipo de letra estranhíssimo, muito grave e imposto. Falo, claro, das camisolas de pré-época e da Liga dos Campeões, já que a solução dada pela Liga nacional é muito feliz, na minha opinião.

Esperemos que, a haver nova diferenciação entre o lettering das competições – sempre de dar destaque pela exclusividade – que seja encontrada uma solução mais moderna, fluída e menos impactante. E termino, provocando e gerando discussão: mais impactante e com números preferencialmente de cor vermelha.

Imbicto abraço!

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8 thoughts on “Não é só uma camisola | Parte I

    1. Imbicto Jorge,

      Sim, falo do original. Parecia-me muito estranho e descontextualizado. Tive um autêntico choque quando o vi num primeiro jogo durante a pré-época, na digressão inglesa. Tive esperança de que fosse só provisório, mas não era…

      Sim, o da liga não é de nossa responsabilidade, mas acho-o aceitável. Bastante, até. E também estou de acordo com a uniformização do lettering para as provas que compete à Liga organizar.

      Veremos como será o lettering original deste ano. Como será e que cor terá…

      Imbicto abraço!

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    1. Imbicto Miguel,

      Tens tempo e espaço para ainda esmiuçar a coisa. Mas despacha-te! Ainda há mas dois sobre o assunto! 😛

      Agora mais a sério, esta é a beleza do ser humano: ter opinião própria. E mesmo sendo semelhante à de outro, há sempre espaço para outro tipo de pormenores que me escaparam e que me escaparão, com a mais “certa das certezas” – principalmente vindo do teu mui nobre e Imbicto https://novotomo.wordpress.com/

      Quanto aos números e palavras… Sim, o regulamento já tem isso previsto. Felizmente, obrigam-nos a andar com “fonts” engraçadas. Caso contrário, estaríamos bem tramados – tomando como exemplo a alternativa da época passada.

      Imbicto e agradecido abraço!

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