Oport´unidade

Imbicto leitor,

Bom, nem sei muito bem como (re)começar a escrever. Já nem sei quanto tempo lá vai desde que escrevi pela última vez. A verdade é que, numa mistura improvável de desilusão e de falta de tempo – falta de tempo, mesmo, e não aquela “falta de tempo” de um certo amigo que todos temos e que encontramos, invariavelmente, numa rede social enquanto nos rejeita favores, ou encontros – devido a questões profissionais, lá fui adiando o gosto de dizer algo para as largas dezenas de milhar que por aqui passaram e debateram, no último ano e cuja efeméride olvidei com propósito. Confesso-vos: uma certa entrevista de Pinto da Costa deixou-me melindrado, ofendido e, quiçá, revoltado – aquele tipo de revolta cuja incredulidade te deixa sem reacção. E aí, mais vale deixar o tempo sarar a coisa para não sair disparate…

Muita coisa tem acontecido desde o meu último post… O presidente deu várias entrevistas a dizer mal da Bluegosfera e a defender-se mais a si do que a filha-da-putice alheia – veja-se o mais recente exemplo de “Faro” amnésico que não seguiu a prontidão das respostas a ataques directos ou subentendidos ao líder e seus companheiros de causa directiva, ou da arbitragem do nosso último jogo de andebol, cujo apitador revelou convicções desportivamente públicas bem concretas, em 2010; Lopetegui só deu uma entrevista a um canal português com entrevistadores que são correspondentes em países onde insistem em falar um idioma híbrido de cacete gramatical castelhano  “catadupal” que desconheço, mas cujas respostas, mesmo sem legenda, funcionaram melhor do que meia palavra; o Renato Saches deixou de vender capas como dantes, sendo prontamente substituído por um novo Hércules da bola – o “cara” que tirou a “oportunidádji” ao José Sá; Fernando Santos disse o óbvio sobre Gonçalo Paciência, cujo reparo havia já, desde o (pouco) académico empréstimo, sido feito por este blogue; colegas de luta – “p´tanto” – deixaram – “p´tanto” – de escrever, mesmo sendo a “luta” – “p´tanto” – causa nobre ao nosso presi-“p´tanto”-dente…

Enfim… Uma desgraça; mais derrotas; mais silêncio que se rompe quando a figura de alguém da direcção é afectada, tendo o Dragões Diário transformado o seu objecto reflexivo numa espécie de fiscal das finanças em contra-ataque cor-de-rosa aos correios manhosos desta vida. É algo que destaco e saúdo, mas cuja pertinência só descredibiliza a utilidade do órgão “oficialoso” que, um dia, teve tudo para dar certo…

Quero apenas deixar duas palavras: uma ao presidente Pinto da Costa e outra a Lopetegui…

O meu desejo é que tudo corra pelo melhor e que, finalmente, consigamos dar a volta ao texto. Pinto da Costa é, não nos esqueçamos, o responsável pela visão que hoje temos do FC Porto. Foi ele, juntamente com a filosofia de Pedroto que permitiu embalar o clube numa causa que jamais poderá ser esquecida: a da luta contra os interesses e contra a macrocefalia de um país pseudo-evoluído – tendo em conta o contexto geográfico e histórico em que nos inserimos. Acredito plenamente que Pinto da Costa, daquilo que lhe cabe a si mesmo fazer, consegue dar a volta. Mas há um problema; aliás, há muitos… O presidente já não está inserido numa máquina da qual é líder absoluto e de decisão independente. Embora ainda não seja uma “rainha de Inglaterra” (parabéns, minha srª!), não representa a força directiva do antigamente. A constituição da SAD e a evolução natural do futebol com a sua componente económico-financeira determinou a mudança de paradigma que, quer queiramos, quer não, tenhamos mais, ou menos confiança em Pinto da Costa, lhe escapa, invariavelmente. Mais do que fazer recair as responsabilidades todas na figura do presidente do FCP, que hoje é mais semelhante à figura institucional e constitucional de Marcelo do que, propriamente, à de Hollande (tosse, tosse), ou do Prémio-N´Obama (tosse), devemos compreender contextos. Pinto da Costa até pode fazer um esforço, mas já não está exclusivamente nas suas mãos fazer acontecer. A teia está montada e nada consegue, neste momento, fazê-la desaparecer sem que vínculos contratuais terminem. Não vale a pena continuar a falar de comissões e das incoerências nas entrevistas de PdC. Vale, sim, a pena, entender o poder do presidente e discernir, como portistas de crença, raça, mas também realistas, que tudo está interligado e de que nada vale fazermos fé se não compreendermos que o mundo mudou e que o próprio discurso regionalista de PdC está desgastado (não materialmente, mas no contexto formal). PdC merece crítica, obviamente, mas nunca sem entendermos, antes, o legado que deixa e a tentativa que, tenho a certeza, fará de retomar um caminho descarrilado e cujo sucesso não depende apenas dele, mas de uma soma feliz de circunstâncias. Sejamos, pois, realistas e nunca, mas nunca, ingratos, independentemente do discurso e de alguns argumentos absurdos do presidente em entrevistas, cujo teor é mais político e de defesa da sua imagem de marca, do que, propriamente, de real convicção. Por muito discordante que tenha sido, declaro o meu apoio renovado, não pelo que tem sido mal feito, mas por uma nova etapa que requer, novamente tempo – não muito – para entender o que daqui sairá em meses – seja na constituição das equipas (técnica e desportiva do futebol), seja na forma como se defende o clube, saindo do eco.

E depois Lopetegui… Ontem, o “basco” falou. Falou um pouco por todo o lado. E falou bem e com razão. Lamento que o tempo esteja a dar-me, a mim e a alguns outros “bluegosféricos”, razão. Os números estão aí para quem queira ler com olhos sérios e imparciais e, obviamente, Lopetegui defendeu-se com isso, ignorando, propositadamente, uma culpa cuja gravidade é manifestamente “cagativa” no contexto “assobiativo” e isolado das palavras e do peito que sempre deu por uma casa: a do Portismo, num desgaste de inevitável desfecho cuja causa fora mais catártica do que propriamente autónoma. Não faço ideia se os assobios eram por ser “basco”, ou por ser alto e espadaúdo… Só sei que foi embora e ontem foi elegante, com o seu toque justo e devidamente seu de provocação à autêntica aniquilação de carácter provocada pelas palavras do presidente, no embalo do “jornalixo” que sempre o adorou e dos assobiadores que, com toda a certeza, faziam parte dos 21% – de apoio, claro… E tenho pena. Lopetegui merecia mais do que isto. Merecia, nem que fosse pelas circunstâncias em que ficou em segundo lugar no ano passado, falando sozinho a defender um clube contra tudo e contra todos e ainda por cima, depois de construir e reconstruir duas equipas do quase nada titular. Continuem a dizer mal dele, enquanto os números respondem pelo silêncio que, de forma elegante, não ecoou. Obviamente, que prossiga a sua causa como trabalhador cujo contrato está assinado e cujas cláusulas devem ser cumpridas, não negociadas e exigidas. Depois de tudo o que se passou, parece-me o mínimo, mesmo que tenha de levar com a negritude vocabular e respectiva influência de um dos presidentes mais respeitados da história do futebol mundial.

Acho que é tudo. Renovo a minha confiança na recentemente reeleita administração, com as minhas reservas e cepticismo, mas cujo apoio, hoje, é mais necessário que nunca; mais por apelo à união do que, necessariamente, crédito – a não ser o passado cuja água já não move moinho. E só assim conseguiremos voltar a ser uma referência – sem que essa referência seja coisa mesma, inevitavelmente… E aqui estarei, sempre, para o mea culpa, porque ao contrário de muitos, acredito que a verdade das coisas vale mais do que o amor próprio.

Imbicto abraço!

P.S.: Foi preciso uma aparição do “basco” para fazer capa destacada nas “Bolhas-Rascas” desta mediocridade rectangular e umbilical. E ainda por cima para dizer algo que Lopetegui nunca disse: que “tinha pena do presidente”. Disse, sim, para quem leu, viu e ouviu com órgãos sem deficiência que que dava pena que o FCP tivesse chagado a esta situação, após uma pergunta sobre PdC. Mais do mesmo, à espera do eco dos acéfalos e dos jornalixeiros que de tanto que se informam para comentar, não sabem distinguir Adrián de Campaña… Por isso tudo: “Ide-vos” todos foder!

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15 thoughts on “Oport´unidade

  1. Caro Imbicto,

    Gosto muito de o ler, e é com muita alegria que o vejo de volta; mas tenho que discordar de quando diz que Lopetegui “falou bem e com razão”. Como é que esse senhor pode puxar dos galões e vangloriar-se de que foi com ele e só por causa dele que se atingiu um recorde de vendas? Óliver e Casemiro foram empréstimos; Alex Sandro, Danilo e Jackson já eram peças fundamentais na equipa e cobiçados pela Europa fora antes de JL vir para o Porto. Esqueceu-se também JL, ou então foi lapso/omissão da entrevistadora, da forma como conduziu o balneário e como queimou certos jogadores (por exemplo, Fabiano e Reyes, após a derrota em Munique). Naturalmente que não sabemos e porventura nunca saberemos a verdade acerca da sua saída do Porto e de que lado está a razão. Mas tenho para mim que é um bocado, no mínimo, desonesto, puxar de números que, tendo feito parte deles, não foram da sua exclusividade. Dizer que Rúben Neves era desconhecido do plantel é também ser-se desonesto. Sim, teve a coragem de o pôr a jogar, isso reconheço-lhe, mas dizer que era um desconhecido é ir demasiado longe.

    Um bem haja e continue a escrever!

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    1. Imbicto JD,

      Antes de mais, o meu obrigado pelo reconhecimento. É sempre um prazer poder contar com opiniões que podem ser discordantes. Só assim chegaremos a uma conclusão ou, pelo menos, a aprofundar as questões fundamentais.
      Devo dar-lhe razão naquilo que diz. A minha análise parte de um pressuposto de defesa na linha do argumentário que PdC utilizou. É uma entrevista com tempo limitado, o que, quer queiramos, quer não – e até por uma questão de compreensão da mensagem – segue a lógica da generalização. Factualmente, as vendas estão indirectamente associadas ao seu período como treinador do FC Porto. Pode não ter tido responsabilidade plena, mas valorizou activos, nomeadamente activos que se sabiam de valor, mas que com Fonseca, por exemplo – e alguns até com VP – não renderam o que com Lopetegui renderam.
      Relativamente aos activos, Óliver foi emprestado, mas deu um contributo motivado pela vinda que sem o treinador não seria possível; mais ainda, Casemiro, mesmo emprestado, ainda rendeu uns “trocos” ao clube e, pelos vistos, a indivíduos que sabemos. Os restantes foram na sua hora, pois sairiam de qualquer forma – talvez sem o quociente de valorização possível através da filosofia de jogo implementada pelo treinador.
      De facto, o capítulo relativo a R. Neves foi infeliz, mas, tal como aponto acima, respondeu na mesma moeda a PdC e isso parece-me legítimo, pois uma discussão aprofundada só mesmo com tempo e com as partes presentes.Parte da responsabilidade é sua, mesmo que não nos possamos esquecer daquilo que motivou a subida de Neves à equipa A, nomeadamente as lesões de colegas e a necessidade de levar alguém da posição para a Holanda, em estágio.
      A gestão de plantel, nomeadamente no pós-Munique ou nos confrontos com os grandes portugueses também mereceria reparos. No entanto, a entrevista resultou mais como defesa do bom nome e contra-ataque ideológico do que, propriamente, como barómetro da verdade. E nesse contexto, resultou e mantenho que Lopetegui esteve bem.

      Imbicto abraço!

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  2. Ena, bem-(re)vindo. Por um momento, cheguei a temer que a culpa fosse minha – maldita modéstia! Eu explico: é que você deu-se por “desaparecido” logo que passou a figurar no roteiro de vinhos e petiscos de determinada Tasca 🙂 Já bem me bastou ter despedido JL 🙂

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  3. Caro Imbicto Poema!

    Claro que subscrevo o seu texto, mas…
    1 – Atendendo aos fiascos das três últimas épocas, é evidente que Pinto da Costa está a servir-se do seu prestígio granjeado ao longo da sua notável carreira para suportar a contestação que já começa a fazer-se sentir.
    A minha posição é de expectativa… Vamos ver, mas começo a desconfiar que o Grande Timoneiro perdeu força, já não consegue ser tão acutilante, incisivo como antes… Um dia Ivic disse de do bibota, “Gomes es finito”! Oxalá que não se passe o mesmo com Pinto da Costa…
    Pois já Fernando Riera dizia: “quem vive do passado vive equivocado”
    O problema do FC Porto é não aparecer uma ou mais personalidades carismáticas e com bagagem de alternativa a Pinto da Costa. E dos que procuram aparecer, ou antigas glórias do Clube, casos de Vítor Baía (que não foi capaz de gerir a própria fortuna) e António Oliveira (tem o dinheiro que ganhou no futebol e pouco mais), não têm bagagem suficiente para serem alternativa credível e construtiva ao actual presidente. Qualquer administrador de blogue portista tem mais bagagem intelectual e discurso mais convincente do que qualquer um destes dois. Das antigas glórias do Clube o que me parece mais sensato e ponderado é o Fernando Gomes Bibota d’ouro, não é por acaso que exerce um cargo no Clube.
    2 – Relativamente a Lopetegui, ele que se deixe de conversa fiada, a estratégia dele falhou rotundamente. Ponto. A começar nos futebolistas que chegaram por empréstimo, não consistindo numa base segura e duradoura, só podia fracassar. O FC Porto até pode ter uma política de vender todos os anos um ou dois jogadores, mas desde que consiga manter um núcleo duro de futebolistas que sejam a base (alicerces) da equipa de futebol. Tendo em conta alguns desaires mais significativos da equipa, como o jogo com o Bayern na Alemanha, Lopetegui também falhou no capítulo técnico/táctico. Tudo o que ele agora diz, é conversa fiada (da treta). Lopetegui estava a criar um ambiente insuportável, e no Dragão, uma grande percentagem dos sócios do Clube já não podiam com ele, entenda-se, com o seu sistema de jogo.
    3 – José Peseiro, dadas as suas características e estilo, também não me parece ter capacidade para governar o barco…
    Atendendo ao espectacular êxito que tem tido na Grécia, o meu preferido actualmente é o Marco Silva, um técnico já com grande projecção, que está na crista da onda, e que ainda vai dar mais nas vistas…
    Em alternativa, há um técnico que eu acho que também vai ter uma carreira muito promissora, assim ele se decida a assumir o comando técnico duma equipa, e que é o adjunto de José Mourinho, o Rui Faria de quem Mourinho já teceu grandes elogios.
    Há ainda o Leonardo Jardim que está a treinar o Mónaco, mas este na minha opinião, pouco melhor é do que Peseiro…

    Abraço

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    1. Imbicto amigo,

      Uma análise interessante e certeira. Apesar de uma ou outra discordância, corresponde ao meu ponto de vista.
      De tudo o que disse e saltando, para já, a questão técnica, retirei algo curioso: a alternativa.

      Dito isto, as alternativas – que as há -, não se efectivam porque não querem, ou porque não podem?

      Imbicto abraço!

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