Uma noite política

Imbicto leitor,

Não sei se já andaste pela Política… Se não andaste, já ouviste muita coisa, com toda a certeza… E se não ouviste, faço-te uma caracterização daquilo que costuma acontecer, por exemplo, num Conselho Nacional de um partido qualquer – ou num Comité Central de outro partido não menos qualquer. Da esquerda à direita, dos libertários aos marxistas-leninistas, é tudo igual; só escapa o que de lá sai, como união aparente de interesses e de discussão inimaginável, acusação grave, ou ataque pessoal e amiguista.

Então é assim… Há partidos em que se instala um “yes man(ismo)” confrangedor. Seja pelo sucesso tremendo das políticas, ou pela aceitação unânime dos pares na falta de alternativa que vão ao beija-mão no final, perpetuam-se líderes, ideias e pastos.

Um Conselho Nacional é uma espécie de reunião geral das tropas e que se faz, geralmente, entre uma e três vezes ao ano. São remetidas a discussão algumas moções (documentos estratégicos por sectores, ou por estratégia geral) e debate-se o estado das coisas – a nível interno e a nível externo. É aí que se faz o barómetro da popularidade e do quão quentes estão as costas do líder e da sua trupe. Não raras vezes, aparece um insurgente que ousa criticar, com resposta pronta – nunca por parte do líder, mas dos paus-mandados. O líder só intervém quando a coisa começa a ficar feia e quando começa a perder apoio. E, geralmente, o poder argumentativo de quem já vai rodado na coisa e de quem tem a confiança suficiente para divergir do assunto com desculpas, ou com manobras de distracção é um sucesso – seja porque a mesa pede para terminar por não haver mais tempo gasto em banalidades sem resposta ao essencial; seja porque por qualquer coisa que se siga venha, logo, logo, abafadinha com uma salva de palmas um tanto ou quanto exagerada para o brilhantismo (ou falta dele) da resposta. E é assim… Desculpas, distracções e, pior, líderes que se refugiam no estatuto e no queixo levantado de cada gesto e palavra; intocável.

Quem fala nos Conselhos Nacionais pode também falar de uma iniciativa autárquica qualquer, em Câmaras cujo poder de um grupinho se perpetua, não raras vezes, desde os anos oitenta, ou desde o 25 de Abril. Naquelas autarquias em que, para fazer número e dizer-se que há muita Cultura e participação num evento medíocre qualquer de aculturação saloia de pseudo-intelectualidade, “avisa-se” os funcionários de vários departamentos para lá estarem e não faltarem – quase a trabalhar em horas-extra, sendo a hora-extra, quiçá, a continuidade no emprego. Enfim… O poder público tem disto, até porque fica mal mandar ir só os gajos que trabalham na biblioteca, nas águas, ou nos resíduos; convém sempre “chamar à atenção” os gajos das associações que, religiosa e anualmente, recebem o financiamento da mediocridade que fazem, com fundos europeus de pseudo-cultura e de papéis cujo interesse público cultural obriga a recompensas que não o são, de verdade, bem para aquilo, mas cujo poderzinho dá sempre para umas cruzinhas nuns boletins de voto no momento oportuno…

Voltando aos Conselhos Nacionais, reuniões dos partidos, verifica-se fenómenos interessantes. Quando a coisa começa a ficar preta e quando os paus-mandados se informam de que há insatisfação nas bases, a estratégia tem de começar a mudar. Os mais corajosos e contestatários da política do líder chegam-se à frente e sondam potenciais tropas em concelhias cujo poder seja grande e, no cenário ideal, o número de concelhias que protestam já começa a ser considerável que passa a ser o momento de “falar” com elementos das distritais – a começar pelos vogais que têm sempre o sonho de chegar a presidente de qualquer coisa – nem que seja a vice… Paus-mandados dissimulados, portanto.

Depois de espalhado o charme por parte dos insurgentes que protestam a política e o unanimismo instalados, o líder começa a ficar em alerta. E se o Conselho Nacional anterior já teve um “ambiente esquisito”, neste começa a haver convidados a mais e, como há muito não se via, delegados (representantes de uma concelhia, distrital, ou nacional) a aparecerem e a preencherem as vagas de representação que praticamente nunca haviam preenchido, eleitos que foram em actos eleitorais que ninguém “estranho” supervisiona e onde uma acta remetida aos órgãos superiores chega. Curiosamente, é este o momento em que alguém externo/ “estranho” se lembra de vir fiscalizar as eleições. Até ali, tudo em piloto-automático.

O descontrolo passa a ser preocupante, com a ideia de que estava tudo bem e de que ninguém teria a coragem de fazer o que quer que fosse.

Chega o dia de mais um Conselho Nacional e coisas curiosas começam a acontecer… Passa a haver grupinhos encostados aos cantos sempre com um deles a botar um olho de lado para a sala e outro para a porta de entrada; começa a haver demasiada burocracia na mesa, nomeadamente na recepção ao registo dos delegados, de forma a prolongar a sua entrada nos momentos de votação; começa a haver momentos de votação anteriores à ordem de trabalhos devido a pedidos à mesa e tudo isto para não falar da merda de sítio pequenino onde não cabe ninguém e que foram arranjar para organizar a coisa, geralmente no cu do mundo, numa aldeola qualquer com a desculpa da implantação local, de difícil acesso, e onde o GPS dá sempre erro, perdendo-se uma boa parte de votantes no meio do nada.

O Conselho Nacional continua, a encher e a encher, até ao momento em que havia metade da gente a ocupar a sala toda, com a outra metade a querer entrar e a não conseguir, sem poder votar com as credenciais no ar. As votações vão-se fazendo, tudo muito depressa, deixando a sessão de esclarecimento para o fim, depois da votação e com respostas na ponta da língua a desviar o assunto, ou a prometer algo que não é mais do que o mesmo.

No final, uma porrada aqui e ali porque a sala já estava cheia antes do início dos trabalhos. Cheia de paus-mandados e de “gente de confiança” reconhecida por alguns e desconhecida do grande público e daquele que não é mais do que simpatizante e que lá não está e ninguém conhece, a partir de uma TV qualquer onde só passam os resumos, porque para transmitir estas coisas é só quando há Congressos (momento de eleição dos órgãos)…

A Política é um mundo fascinante. A natureza do Homem está ali, perpetuando a velha e reconhecida capacidade de sobrevivência, da tribo e do mais forte que controla mais paus-mandados a quem foram distribuídos poderzinhos reles. E no dia em que o líder começa a ficar incomodado e aflito, começa também o surreal e esquecem-se algumas regras básicas de algo que se fez de um grupo com o pretexto do bem comum e sem que ninguém entenda, afinal, para onde vão as subvenções pornográficas que o estado lhes paga por mês, porque falta sempre algum e, pior, nem há assim tanta pompa, ou circunstância.

A Política é a vida e, francamente, por mais fascinante que seja, é aqui que percebemos que o Homem e os seguidores, por muito gloriosos que tenham sido nos seus feitos, são iguais aos outros; comportam-se como os outros e seguem-se pela mesma máxima dos outros: a da sobrevivência de quem quer perpetuar, de qualquer forma, o imperpetuável, ignorando, anacronicamente, a evolução dos tempos e das necessidades dos seus pares que não o deixam de ser, por muito que aquele homem os guie numa causa comum.

Perdoem-me esta pausa, mas hoje apeteceu-me falar de Política – esse reflexo da vida e de todas as coisas em que o Homem se mete. Hoje não me apetece falar do FC Porto. Afinal de contas, está tudo bem; está tudo normal; está tudo na mesma…

Imbicto abraço

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7 thoughts on “Uma noite política

  1. A tua caraterização do que se passa no meio político é perfeita. Andei por lá anos suficientes para ver isso tudo.
    E já agora qq semelhança com a AG de ontem é pura coincidência não? 😉

    Grande abraço!

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  2. Imbicto poema,
    Quando se aborda um tema deste tipo torna-se necessário fundamentar o porquê de tal atitude…
    Hoje resolveste injectar o pessoal com a denúncia do teu cepticismo da política…!
    Não sei se será este o caso, mas… É evidente que quando se quer mudar alguma coisa temos que começar por nos rodearmos de apoiantes, ou seja, de pessoas que comunguem dos nossos credos…
    Um exemplo: Bruno de Carvalho para chegar à liderança no SCP teve de primeiro arregimentar tropas nas claques do clube, com discursos populistas para a seguir se impor às eventuais vozes discordantes e assim paulatinamente conseguiu aceder ao poder, ganhando as eleições para a presidência do clube.

    Abraço
    Armando Monteiro
    http://www.dragaoatentoiii.wordpress.com

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    1. Imbicto Armando,

      O texto revela o meu cepticismo. Um cepticismo exacerbado de atitudes e circunstâncias que chegam a alguns limites intoleráveis. Felizmente, o limite intolerável ainda não chegou a este ponto, se quiser estabelecer esse paralelismo com os clubes. Porém, a alternativa não tem de ser gerada, necessariamente, pelas bases descontentes, mas por quem tenha a notoriedade e a prova social dada para que nele se deposite um segundo caminho.
      Recordo, ainda assim, que o texto retrata a Política no contexto partidário. Qualquer paralelismo que se possa estabelecer é apenas suscitado pela circunstância, ou pelo reconhecimento de qualquer outra semelhança eventual.
      Fica fundamentado, até porque, por esta altura, há pelos menos dois partidos em época de debate e de eleição interna…

      Imbicto abraço

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  3. A democracia tem destas coisas caro Invicto. Vencem as maiorias por muito que os que achem que têm notoriedade e prova social fiquem ressabiados. Mau era que as maiorias não respeitassem as minorias, desarmando assim, qualquer tentativa de escândalo que esses notáveis planeavam pelos seus paus mandados. Felizmente o líder do F. C. do Porto continua a ser um baluarte da democracia.

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