Peseiro e a circunstância (uma vez mais)

Imbicto leitor,

O blogue Porto Universal publicou, ontem, um artigo da autoria do Z, cuja leitura recomendo, independentemente da minha discordância com o mesmo. Faz pensar, é plausível em alguns aspectos e estimula a discussão.

Em resposta e como não consigo publicar coisa alguma nas plataformas Blogger – por tudo o que tente -, faço do meu espaço o veículo de resposta e de reflexão relativa a Peseiro e àquilo que se passou nesta eliminatória da Liga Europa, na qual nunca deixei de ter esperanças realísticas de passar.


 

Sem delongas, aqui fica:

Imbicto Z,

Antes de mais, a minha saudação e o meu agrado pelo texto completo e bem escrito. É uma opinião que, tal como a minha, tem o seu valor concordante, ou discordante. Da minha parte, bastante discordante…

Começo por concordar, nomeadamente quanto à vergonha das derrotas contra adversários de dimensão menor, por muita história que encerrem. Retirando isso, é importante não confundir a árvore com a floresta.
Quem critica, neste momento, neste jogo, Peseiro – como foi o meu caso – não o está a fazer pelo todo. Com isto quero dizer que nesta eliminatória, Peseiro agravou as culpas da SAD e transportou para si parte da responsabilidade, ao não colocar em cena o melhor onze, mesmo tendo em conta o que fazem nos treinos e que não vemos, ou Os Belenenses. Digo-o porque aquelas escolhas transportaram uma mentalidade e uma mensagem subliminar pouco condizente com o seu discurso – do qual nem sequer tenho sido crítico. Pior, parte desses jogadores foram a jogo e o facto de não terem jogado um chavo como substitutos não pode ser desculpa, até porque sabemos que a mentalidade egoica de alguns deles fá-los marimbar-se quando se sentem secundarizados e retirados do seu “lugar natural” no onze; pior ainda quando perdem estas oportunidades para mostrar o coiro no “Blue Light Dtc”.
Pensar em gerir a equipa por estar perdido é mau. Muito mau. Tudo para gerir esforços contra o clube católico? Não faço ideia e recuso-a, a ser verdade, porque a nossa História faz-se dessa mesma oposição e recusa, sem que imitemos os comportamentos não menos católicos de Jesus. Há, acima de tudo, um nome e um estatuto que foi beliscado lá fora e nada fizemos em termos concretos, para lá do esforço sério e honesto (ou “honradinho” dentro do possível, à antiga portuguesa, porque não) dos que estiveram em campo em ambas as mãos. É que nõs não temos a imprensa a limpar cuzinhos e a fazer de um qualquer orgânico castanho matéria para fazer nascer flores.
Mas a culpa não é de Peseiro, obviamente, a montante. Dá a impressão de haver estratégia em cima do joelho e a favor de interesses que não entendo muito bem quais são, pouco em prol da questão desportiva, de forma visível. O problema vem de cima e já nada me tira da cabeça, depois de tanto os ter defendido e esperado, que isto só lá vai mudando o paradigma, que se acalma com uma intervenção esporádica, à beira do momento da (re)escolha.
Não houve reforços numa equipa que perdeu gente jeitosa no mercado de Inverno, em momento de transição e, pior, mandando embora os poucos que havia em determinadas posições, sem que os ganhos de transferência cheguem para comprar igual ou melhor – alguém há-de explicar-me para quem são as vantagens desta estratégia de compra-e-venda milionária sem ver um tusto. Temos números 10 brilhantes emprestados e queixamo-nos sempre de não os ter aqui; temos excelentes promessas de laterais emprestadas e queixamo-nos, uma vez mais, de não os ter aqui; queixamo-nos de não haver portismo, mas o portismo, de promessa, ou de crença, também anda por aí, emprestado, vendido, ou procrastinado, com a memória das coisas recentes, olvidando anos e actos. Fizeram as vontades todas a Lopetegui, que nem acho mau treinador, tendo sido vítima circunstancial da pastelice, do silêncio, do resguardo e do comodismo directivo. Porém, estas vontades não encaixaram na estratégia nem na teimosia “do basco”. Pior ainda, é perceber que há filhos e enteados – não sei se tem que ver com a influência dos agentes, com a origem (francamente mal gerida e capitalizada como influência e montra da palhaçada que tem havido no futebol nacional), ou com a desconsideração de outra ordem – pois esvaziaram a equipa, mandaram Quaresma embora numa história muito mal contada da qual já ninguém se lembra e perderam influência negocial para captar novas promessas, com toda esta desgraça competitiva cuja imagem internacional belisca as pretensões de nomes mais ou menos interessante e que, por culpa da nova mentalidade de entreposto auto-destrutiva e da falta dos telefonemas mágicos “do basco”, já em nada resulta. Agora, ninguém quer meter aqui a pata e só por isso, Peseiro mereceria a maior das considerações.

O problema é profundo. Aos poucos, os sinais multiplicam-se.
Urge limpar. A começar por cima e a acabar na merda de adeptos que temos, que, francamente, não compreendo (os que tanto assobiam e tudo criticam sem dar tempo ao tempo) – e talvez este período desgraçado tenha essa como uma das grandes vantagens – a de abrir-lhes as portinhas que noutros clubes são de bar americano.
O que está aqui em questão não é, nunca foi, nem nunca será Peseiro, mas antes um momento em que, no meio de tantas culpas que não eram suas, “quis” deixar-se levar na maré sem querer. Peseiro tem feito milagres e nunca, mas nunca lhe poderão dizer que o que de mau se possa passar é seu. Porém, nesta eliminatória, tinha peças. E se não fosse para fazer mais, que fosse para imaginar que tal seria possível – nas nossas cabeças e nas cabeças dos jogadores (até das cabeças dos jogadores do Dortmund).
Resumindo que já vou longo: a SAD despediu o treinador, contratou, sem admitir, uma solução de recurso jeitosa, mas insuficiente (como sempre se deixou claro por entre os apoiantes de Peseiro, como eu, por muito que critiquem a lógica da escolha); mandou embora os jogadores com maior craveira que só resolvem brilhar na Europa para se mostrarem. Com isto, passaram a Peseiro a imagem de que o próprio é um recurso e que já desistiram da época ao não se reforçarem, ainda por cima, com o mercado aberto e já com um novo homem do leme. Por sua vez, Peseiro passou aos jogadores, nesta eliminatória (apenas, mas o bastante), que só o “comezinho” interessa e que tudo estava perdido. Os jogadores fizeram o que puderam – os que jogaram – mas deixaram no adepto a imagem de que nem treinador, nem equipa, nem SAD, são suficientes para este clube.

Concluindo, a circunstância parece, cada vez mais, sobrepor-se à nossa história. Mas a circunstância é feita de episódios; alguém os cria…

Imbicto abraço!

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6 thoughts on “Peseiro e a circunstância (uma vez mais)

  1. @ imBicto

    exactamente o que sinto. ainda.
    quase 48h depois, continuo a ressacar. e a dormir mal. sinto a minha alma pesada porque fiquei, tal como tu, com a sensação má de que não foi feito tudo que estava ao nosso alcance, e apesar de todas as contingências.
    não há como enganar o que sinto: defraudado com um ignóbil abandono. não somos assim, pá! não somos. e obviamente que, nesta eliminatória e neste jogo em concreto, Peseiro tem culpas próprias, pelas razões que apontaste.
    confiemos. só nos resta isso mesmo: confiar e apoiar.

    abr@ço forte
    Miguel | Tomo III

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    1. Imbicto LAeB,

      É sempre difícil comentar opiniões opostas, especialmente em momentos destes e, pior, podendo ferir susceptibilidades. Mas uma vez que o Z não foi cáustico ao ponto de fazer rupturas claras, ou até insultuosas como muitos fazem, vale a pena opinar sobre evidências sobre as quais poderíamos ter várias interpretações e merece o debate. Pode ainda ter um outro problema, o artigo, que é o facto de ser extenso mas não ser conclusivo (na minha perspectiva).

      Tentei (tal como no teu blogue) comentar. Uma vez mais, continuo a não conseguir – primeiro por causa do excesso de caracteres e depois por erro. Eu e o Blogger, definitivamente, não somos amigos. Ainda bem que estou em WordPress. 😉

      Imbicto abraço!

      Gostar

  2. Já sabes que sou simplificador e resumo as respostas no mais curto possível. Mais a mais porque, certamente, o Z te irá responder assim que tenha tempo, mas deixa-me fazer, por favor, um sublinhado:

    Goste-se ou não, estamos em pré-época.

    Nota-se, e nota-se bem, na adaptação aos treinos, na transição de filosofias, na insuficiência e inadaptabilidade das soluções ao estilo de jogo.

    Sabes que não discordo de ti em relação à (falta de) política de contratações e gerência de plantel por parte da SAD. Mas essa paciência é tudo o que se precisa. E chegar ao fim com um título, ou quiçá dois, será mesmo… um milagre.

    E é tudo o que se pode sonhar com. Eu sei, e tu sabes, que passar o Dortmund, neste contexto, era altamente improvável.

    Hoje, o MLP escreveu um artigo de análise comparativa da qualidade dos jogadores do plantel. Temos um dos piores dos últimos anos! Mas isso não tem nada a ver com o Peseiro! Tentem-me convencer que o Peseiro pediu algum destes reforços, a ver se eu acredito!

    Está tudo errado? Está! Faça-se ver nas urnas! Eu sei como vou votar! Mas ninguém se chega à frente!…

    Abraço

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    1. @ Jorge

      desculpa, mas estás a inverter a ordem de razões para o jogo de Quinta-feira. não são os putativos candidatos, a proto-Oposição à actual Direcção do Clube (sejam eles quais forem…), que escalaram um 11 que revelou muito bem ao que (não) se ia. foi José Peseiro – o qual sabia bem da tarefa hercúlea para o que sobra desta época.
      não lhe pedia que golear se o Dortmund; mas, sinceramente não contava que desistisse ainda o apito para o início da partida não tinha sido soprado. com isto é que não posso pactuar. e isto já não é estar em “pré-época”, meu caro. transmitiu a mensagem errada. pelo menos, no meu entendimento…

      assim sendo, não há volta a dar: amanhã tem que vencer o jogo para, mais do que me calar (e aos que criticam a sua opção resignada de desistir de lutar), demonstrar que aquelas opções foram as mais acertadas. vou ficar attorcer pelo seu sucesso, que será o meu/nosso. mas este incómodo, esse ninguém mo tira.

      abr@ço forte
      Miguel | Tomo III

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