Traumatizados – As verdadeiras razões I

Imbicto leitor,

Bom, é complicado. Esta situação é o mote perfeito para mais um filme motivacional americano típico dos anos noventa: uma equipa de rastos, com um passado glorioso, mas que não consegue regressar à sua “condição natural” de mais forte.

Resta saber de onde vem tudo isto. Certo é que não terei tempo para contar até um para que todos digam em quase uníssono: LOPETEGUI!!! Receio bem que seja mais do que isso…

A equipa começou ansiosa. Muito ansiosa, contra o “Marêtmo”. Ontem, foi, provavelmente, um dos poucos jogos em que a ansiedade fez sentido. O grande problema é que há dois anos, praticamente, que, independentemente do jogador, a equipa não está bem. Não se sente confortável – especialmente em casa.

Estamos todos de acordo: Lopetegui contribuiu – e muito – para deixar esta equipa com um sentimento de orfandade, de tão vincada que era a forma de jogar e de recear errar. Porém, a memória não pode ser (essa sim) órfã e olvidar uma sequência recente – em especial um certo jogo catártico com o Braga, em casa, ainda com Fonseca. Portanto, sejamos honestos e justos, pois há motivações outras que não prendem a exclusividade da culpa.

Não vou entrar muito pelo jogo. Uma vez mais, deixo esse espaço crítico para quem percebe mais de bola do que eu. Prefiro, por isso, entrar por caminhos mais apertados e sacudir a poeira que se amontoa sobre o Brasão Sagrado do nosso Porto. Pretendo perceber e discutir o que fez com que o FC Porto chegasse a este ponto, ensaiando um verdadeiro ponto de ruptura.

Deste modo, proponho que iniciemos uma sequência de reflexões divididas em dois artigos. Comecemos, assim, pela origem:

Sequências

A sequência é uma razão primária que tem contribuído para a desgraça das prestações do FC Porto dos últimos anos. Esta sequência é a das transições de momentos, nomeadamente de treinadores com formas de jogo diferenciadas e que desenvolvem a consciência de um novo normal na equipa e no adepto, fazendo-os pensar nos piores cenários, mesmo quando as coisas parecem estar a correr bem.

Desde Vítor Pereira que a equipa anda a jogar mal e porcamente – nomeadamente após a eliminação em Málaga, onde se percebeu que o conjunto estava refém de João Moutinho (mas também, havia assim tantas alternativas em todos os sectores no banco?). Estávamos a sair de um período histórico em que conquistámos a Europa e, se treinador e jogadores tivessem ficado, não sei, não, se poderíamos ter ambicionado uma final na Champions (o jogo da Supertaça com o Barça que o diga…). A partir daquele momento, foi sempre a descer. E esta sequência despoleta as mais básicas reacções por parte do ser humano – seja ele jogador; seja ele adepto. Lá veio uma limpeza de balneário e um recomeço, em 2011-2012; um recomeço com cheiro a continuidade, desculpável pela ausência de algumas peças fundamentais com uma pica natural para abandonarem o clube, de tão importantes que (alguns) achavam que eram e que os fazia demonstrarem essa mesma determinação das mais variadas formas (certo, sr. Álvaro Pereira e Fucile?).

No ano desportivo 2012-2013, ganhámos o campeonato num segundo miraculoso à custa de uma recuperação pontual extraordinária e da tosquice de uma equipa cujo orientador fez com que estivesse habituada a falhar nos piores momentos, onde a queda exibicional chega com estrondo pelos idos de Fevereiro.

Esse ano de 2013 acabou em beleza, mas encerrando na sombra evidências claras, nomeadamente em relação à soberba que fez com que PdC se multiplicasse em entrevistas ao chamar a si todas as virtudes, fazendo do treinador um apêndice. Pior,depois de circular o boato de que, depois de levar uma nega de Jesus, foi à última da hora tentar renovar com um homem profundamente injustiçado no cargo, que estava sem perder há praticamente dois anos, para o campeonato.

Depois de tudo isto, veio Fonseca no momento errado da sua vida, mas que tinha de aproveitar esta oportunidade, tendo deixado a imagem subvertida do treinador de qualidade que, de facto, é. Nunca foi particularmente bem visto por cá e, convenhamos, a teimosia do histórico duplo-pivô levou os adeptos ao limite das suas forças. Depois de três tentativas, lá se foi embora com exibições sofríveis, com uma equipa não tão má quanto dizem e que deixou para trás a miséria pontal na Europa do futebol de forma quase antitética à deste ano e que, mesmo com poucos pontos, quase que dava para passar. Na Liga Europa fomos humilhados pelo campeão Sevilha, porém, chegou a haver momentos interessantes de garra nos jogos mais importantes – sem me esquecer da forma como jogámos contra o Atlético, ou como o “Polvo” definiu o seu passaporte para outras aventuras no jogo contra o Zenit, com menos um, mas cujo resultado foi o que foi – foi também aqui que se percebeu o erro que era colocar um empata à beira do Fernando, pois em inferioridade, o Porto jogou melhor do que se tivesse um emplastro a rondar a sua zona; foi ainda aqui que se percebeu que Herrera não é o arquétipo do gajo com a cabeça no sítio de forma constante (tal como se viu ontem).

Fonseca colocou as palminhas no bolso e foi à vida. Entretanto, já com ar de superioridade, Lopetegui supervisionava Castro que teve um grande momento de futebol contra os “encarnados”, naquela sequência interessante de desmarcações e de diagonais nas costas dos avançados – e que até deu para André Gomes se vingar do treinador da formação, posteriormente. Poderia ter sido histórico – não fosse a tosquice e o desacerto na hora de rematar.

E por último, Lopetegui. Já todos sabem e não choverei no molhado. A equipa esteve infeliz e falhou nos piores momentos, sem nunca esquecer a forma como o campeonato nos foi tirado, no ano passado, e que continua a semear silêncios graves que deixam suspeitar algum rabo preso de alguém… Nesta última fase, a equipa passou a jogar mal e porcamente com os passes para o lado e para trás dos quais não se liberta, somando esta característica curiosa à autêntica sangria do mercado de transferências cujo culpado não é Lopetegui, por muito que queiram sacudir células mortas do ombro.

Todas estas equipas tiveram a sua identidade vincada pelas piores razões e a verdade é que se criou uma cultura de fatalismo sequencial pela sedimentação, tal como se havia criado uma cultura de vitória iniciada quarenta anos antes. E se nuns, a sorte dá para encobrir as exibições, porque naturalmente a coisa dá-se; na outra é precisamente o contrário: faças o que fizeres, não vai acontecer. Tudo porque a cabeça tem muita força.

Esta é a sequência complexa que tem feito com que o insucesso seja constante e quase inultrapassável, como se de uma inevitabilidade se tratasse. A equipa joga mal há anos e só a sorte, o acaso e uma ou outra boa exibição é que têm salvo a fé dos portistas mais descontentes.

Hoje, a tentativa é de ultrapassar uma habituação estanha a lugares que não consideramos serem o nosso e a exibições que não prestigiam o clube e que semeiam um certo sentimento de ingratidão para com o clube e o adepto e que leva este último a reagir mal e da pior forma possível, no pior momento possível.

Momentos anímicos

Quer queiramos, quer não queiramos, há uma evidência: a equipa teve momentos em que poderia ter feito mais. Bem mais. E não o fez porque não quis, claramente, aproveitando, em certa medida, o embalo das culpas ao treinador – Famalicão e Kiev em casa são, infelizmente, demonstração grave.

Exemplo disso é a queda vertiginosa na condição física dos jogadores que não tem resposta única na sequência de partidas do último mês. Não nos esqueçamos de que, mais do que indivíduos que representam o intangível, estamos perante homens cuja profissão é dar o máximo, independentemente de fazerem disto um mau momento – que é. E recebem bem. Muito, mas muito bem.

Acreditar que esta equipa está de rastos porque ama o clube é romântico de mais (salvo honrosas excepções). Houve, isso sim, um aproveitamento inconsciente e preguiçoso da situação para deixar andar e para reafirmar que, falhado o objectivo da montra europeia, é tempo de fazer tempo até Junho…

A psique é, sem dúvida, condição essencial para o desempenho, mas não pode ser única. Antes de mais, estamos a falar de profissionais. E se um profissional não se deixa abater por vir durante um, dois, três anos e saber que é uma questão de tempo até sair, desapegadamente, do clube, então esqueçamos essa dedicação para lá da prestação de serviços que alguns não cumprem.

Poderão pensar que estou a ser injusto, mas, francamente, não tenho mais paciência. É o momento de acordar a equipa e de aceitar que, ontem, contra o Marítimo, foi um dos poucos jogos em que se justificou a insegurança e a incerteza. Ontem, sim, houve legitimidade para estar perdido em campo e duvidoso das capacidades.

Continua…

 

 

 

 

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3 thoughts on “Traumatizados – As verdadeiras razões I

  1. Meu Imbicto amigo,

    Não há como não concordam com 90% da tua prosa.

    Pergunto-te só se tens a certeza dessa nega de Jesus e digo-te que vi reacção em jogadores que não esperava ver, como Corona e Brahimi.

    A identidade é uma coisa importante. Já ficava feliz se Peseiro a soubesse restaurar.

    Abraço Azul e Branco,

    Jorge Vassalo | Porto Universal

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    1. Imbicto Jorge,

      Não, não tenho a certeza. São boatos que correm por corredores que se dizem bem informados. Portanto, vale o que vale.
      Em relação a Brahimi e a Corona, não poderia estar mais de acordo contigo. Têm surpreendido e tentado o que a sua posição não mais permite para uma equipa que tem estado bastante descontraída em alguns momentos. Ontem foi interessante. Houve atitude que não foi acompanhada pela confusão natural da mutação de processos.

      Imbicto abraço!

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  2. Concordo consigo e, até lhe digo mais, não é desde AVB que jogamos mal; já nos últimos jogos da era AVB também jogamos mal… Mas havia ali jogadores tão bons que o mal às vezes era mascarado, para além dos jogadores gostarem do treinador e confiarem nele …
    Desde que começou aquela ideia peregrina de jogar à la Barça que nos estendemos… Não haverá uma segunda equipe como o Barça. É dos Xavis e Iniestas e Messis aquele jogo. De resto, sem esses protagonistas, como modelo, é uma grande seca de jogo !
    Fomos, como sempre, parolos, a querer ir na onda do que estava “in” , quando se sabe bem que o “trend” é sempre uma ratoeira, uma tirania da moda…

    Espero que o Peseiro, cujo modelo me agrada mais, consiga levar este conjunto de jogadores o mais longe possível, para que lhe seja dada oportunidade para o ano de montar uma equipe que jogue bem.

    Quanto a nós, adeptos, acho que ansiamos demais pelo salvador da pátria, quando deveríamos, como bem diz, suspirar por jogar bem… ano sim, ano sim…

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