Desabafo de um portista órfão

Imbicto leitor,

Já lá vão uns bons dias desde que te escrevi pela última vez. Desde então, perdemos duas vezes enquanto havia espíritos contentados com a medição nacional de quem vendia a maior pilinha, ao tentarem perceber se o prepúcio conta, ou não, para a medida – coisa que, para o Sporting conta, definitivamente…

Depois de ter despachado uns quantos cocózinhos com este primeiro parágrafo, vou falar de coisas sérias.

Hoje perdemos. Uma vez mais. Perdemos. E estou tão estranho que nem me sinto.

Hoje, pela primeira vez desde que me recordo de ser portista, senti a sensação horrível dos pequenos depois de levarem com o primeiro golo.

Começámos bem. Houve atitude, rotação, motivação. Houve aquilo que me acostumei a ver desde sempre. Impor jogo, encostar e abafar. Rematar e fazer jogadas que numa questão de tempo lá encontrariam a bola beijada na parte interior da rede. E pronto. Foi isto o ser portista de hoje.

Não me encerro aqui no artigo, mas na convicção. Hoje, esqueci-me de como era acreditar. Depois de tanto, de tanto te dar de mim, Lope, deixei-me ir na onda do bota-abaixismo, sem to fazer por mim. Simplesmente, deixei-me levar, conscientemente e cansado pela corrente. Uma corrente mais forte do que as minhas convicções de defender o modo de jogar e orientar teu e dos teus. Hoje dei-lhes razão sem hesitar. Depois daquele primeiro golo de uma falta marcada que não o era bem, em mais um erro defensivo que não entendo convicto de que não se marcam corpos em movimento com os olhos.

Estou tão, mas tão triste, meu Porto… Não me sinto porque alguém me tirou de ti. De te acreditar. A ti, Porto, como um todo: desde quem em ti manda sem mandar no que mais importa, passando por quem te oriente e por ti joga vezes onze, à vez; terminando no adepto que, bipolar, assobia por tudo, por nada e por tudo, outra vez. Mais ainda por aquele que te vê ler Quintero a achar que Brahimi vai render um bom dinheiro e nada de estranho já se passa – como se o meu clube, esse intangível que move paixão colocasse a puta da emoção à venda.

Estou cansado, sabes? Vi-te afundar na incapacidade antes que te fosses efectivamente… Revi. Sei lá. Já nem sei. Mas vi até ao fim no acto de teimosia autofágica do querer sem poder, mas querer ver para crer que estava mesmo certo em não creditar que te reerguerias como dantes.

Feri-me com Jesus a cantar sereia. Defender quem supostamente vilipendiara com um fel que mata a sede dos moribundos crucificados que não têm o seu nome, mas que sofrem o seu calvário, bem mais inocentes do que a sentença que lhe passam. E Lopetegui trocou hoje, assim, de nome no acto quase final.

Estou profundamente magoado. Mais do que uma derrota, sinto-me a perder o meu clube; o meu e o que fez de mim parte do que sou na convicção de ser do Porto. E quem é causa não é um treinador, um jogador, mas um todo. Uma autodestruição do tudo e do nada de quem tudo quer e que tudo perderá, naturalmente, porque o povinho sabe muito disto e o adágio é dele.

Acordar não é mais tarefa da equipa, ou do treinador. Acordar é acto exigível nosso de limparmos nós aquilo que tem sido o encosto gostoso de uma cadeira de sonho bem macia – de História, de glória e agora de notinhas (verdes, como nos filmes). Culpar sem as amarras dos panos que cobrem os olhos e sem o o feito da imitação de quem ridiculamente acena com lenços que nem lenços são – mas papel higiénico – enquanto se ri, como se tivesse uma piada do caralho fazer isso depois de perdermos com o “Marétmo” e depois de ver na VIP guardanapos bem mais sujos e sorridentes.

Amanhã é outro dia. Segue. Com ele, o tempo, seguimos. Já desatinados – todos nós. A acusarmos porque tem de haver culpados, sem entendermos que pensar também é importante; pensar, fazer contas, ler entrelinhas e olhar para todos para lá do treinador e dos jogadores.

Estou profundamente triste. Sem chama. Tal como hoje esteve o meu Porto.

O ciclo está em mudança. Tornou-se um clube num casino. Tornou-se o adepto cego de amor em jogador cego de glória e do ego aparente. E assim, viveram felizes para sempre…

No final sobra nada, a não ser quem o destino escolheu para reerguer das cinzas a consequência dos sete pecados capitais. Órfãos, mas sobreviventes.

 

Somos Porto

 

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7 thoughts on “Desabafo de um portista órfão

    1. Imbicto Rui,

      Não estou certo nem seguro de que se possa ou deva, de forma exclusiva, imputar culpas a uma só pessoa, quando a própria não é auto-designada “à la Napoleão” e quando foi essa mesma face e esse peito que se mostraram em defesa pelo todo, enquanto os outros, verdadeiros (co)responsáveis, se refugiavam na sombra dos silêncios.

      É justo criticar Lopetegui por escolhas, pela pressão que não aguenta, pela tarimba que não tem e pela teimosia que não admite culpa. Porém, fazer sair, ou fazer entrar alguém não é sua responsabilidade.

      Resumindo e respeitando o que pensa, Imbicto Rui, acredito que Lopetegui errou, mas errou muito mais quando o comum dos mortais teria desistido bem antes do segundo insulto.

      Imbicto abraço!

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  1. Meu caro Imbicto

    Partilho obviamente da decepção e do cansaço de me sentir impotente para lutar contra a força da correnteza que nos parece arrastar inexorável para o precipício.

    E sim, também me deu a volta à tripa constatar os sorrisos de quem vaiava e acenava com lenços, como se de uma divertida brincadeira se tratasse.

    Mas, sejamos Porto, nós os dois. Desistir, nunca. Perder o nosso clube, nunca. Precisamente porque o clube é nosso! Só nosso, dos portistas. Por muitas tempestades que venhamos a enfrentar, nunca deixaremos de ser do Porto. E mesmo que naufraguemos uma e outra vez, haveremos sempre de saber nadar até uma qualquer terra firme e a partir dela, reconstruiremos tudo de novo. E quem nos suceder nesta Terra.

    O Porto é nosso, para cuidar. Não nos é permitido abdicar. Jamais.

    Abraço portista

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  2. Olá Imbicto poema!

    Que texto tão rebuscado para simplesmente dizer que infelizmente o clássico de Alvalade foi uma enorme desilusão para todos nós portistas.

    Estou quase a perder as esperanças, embora ainda esteja na fase das dúvidas…!
    O que me irrita é após todos estes meses passados de treinos e de jogos Lopetegui ainda não ter conseguido formar uma equipa, um conjunto com automatismos, que jogue duns para os outros de olhos fechados…!!!

    Abraço portista,
    Armando Monteiro

    PS – O JJ é um mafioso que conhece bem o futebol português e sabe mentalizar os seus pupilos para pela surra baixarem o pau, ou seja, disfarçadamente, dar pancada, intimidar, sempre a tentar enganar os árbitros…!
    E aos avançados do FC Porto que foram muito tenros, falta-lhes matreirice suficiente para arrostar com as dificuldades impostas pelos contrários…!

    O meu post:
    O clássico de Alvalade
    Ao intervalo: SCP 1 FC Porto 0
    Um erro de marcação dos dois centrais do FC Porto ao Slimani possibilitou a marcação do primeiro golo sportinguista.
    A equipa portista precisa urgentemente de dois centrais de qualidade. O meio campo azul e branco também não tem conseguido superar o meio campo leonino…!
    Resultado Final: Sporting 2 FC Porto 0
    É desanimador, mas tenho de reconhecer que em Alvalade, aos dragões faltou: chama/raça de campeões, ritmo competitivo, entrosamento/entreajuda e disponibilidade física para contrariar este Sporting de Jorge Jesus que revelou: muita força, grande atitude/raça, mais conjunto/melhor entrosamento e aqui e ali também ajudados por Hugo Miguel, o qual permitiu excessiva dureza aos defesas leoninos contra os avançados portistas e reprimiu/intimidou com vários cartões amarelos os defensores azuis e brancos…! Foi de certo modo: caseiro portanto…!
    Quanto aos dois técnicos em confronto: infelizmente não me custa nada admitir que Jorge Jesus é melhor treinador de campo do que Lopetegui, ao qual faltou engenho/ estratégia para conseguir derrotar o rival…!
    E na minha opinião, com Paulo Fonseca e agora Lopetegui; esta é a segunda aposta de Pinto da Costa que sai gorada.
    Será que os associados do FC Porto vão ter que dar razão aos jornalistas desportivos lisboetas relativamente ao fim de ciclo do Presidente do FC Porto…?!

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    1. Imbicto Armando,

      O texto é rebuscado porque é reflexo de um sentimento; do intangível e da complexidade de circunstâncias onde a culpa que é de tantos se quer sobre um e apenas um.

      Como diz e bem na sua resposta, há culpados para lá das decisões tácticas.

      Imbicto abraço e obrigado pelo comentário!

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