Rescaldo – Isto está a ficar complicado…

Imbicto amigo,

Existem dois tipos de dimensões na apreciação básica de um jogo e de um clube: o facto e emoção. No FC Porto existe um terceiro que reconheço em poucos: a exigência.

Facto: ganhámos; apreciação emocional: começo a ficar preocupado; exigência: não jogámos nadinha, nadinha. E é aqui, na exigência, que tem, necessariamente, de residir o ponto reflexivo do portista, sem derrubar a factualidade, ou o que lhe corre na veia (salvo seja…).

Aliado a tudo isto, começa a ser uma certa “benfiquização” de há poucos anos a esta parte, nomeadamente no recurso a desculpas absurdas e pouco verificáveis na realidade, sempre que a coisa corre mal. E a única coisa que ainda me vai dando conta de que há portistas, é essa tal exigência de, mesmo ganhando, estar completamente estoirado do juízo devido à exibição e, pior, a uma “instauração” da soneira – vinda já de outros técnicos; essa apatia indescritível que poderia, ontem, ter dado factuais motivos para o desespero e, pior, para uma insustentável convivência entre a equipa, os adeptos e o treinador, num processo de auto-destruição longo até, muito provavelmente, Maio (a não ser que passássemos a vida a perder e a empatar até Janeiro).

Este artigo não vai, sequer, entrar muito no jogo. Não vale a pena. Todos viram o que aconteceu nesta espécie de “lado B” competitivo, onde coisas realmente graves podem estar a acontecer sem que saibamos.

Em primeiro lugar, a mudança constante de posição dos jogadores. Trocas a todo o tempo, mas sem estruturação táctica, andando o modelo em oscilação permanente entre 4-4-2, 4-5-1 e 4-3-3. Substituições em timings estranhos, em todos os sectores da equipa; mudanças de posicionamento de jogadores que passam do meio-campo para a defesa (Danilo), ou do meio-campo para a frente (André); falta de risco, falta de compensações à perda de bola [e tantas que foram, ´né, sr. capitão(?)]. E remates? Nadinha.

Tudo isto seria muito bonito porque Lopetegui acha que somos um Barcelona em potência. Porém, está a esquecer-se de algo básico: nem temos os seus artistas, nem os nossos artistas cá estão quase desde sempre, no entendimento perfeito das variações de jogo, nessa rotatividade que parece querer voltar e apostar na incerteza e na falta de ritmo. Ah! E os do Barça levam o campeonato a sério, independentemente do grau de dificuldade, pois sem os lugares de cima não há Champions, no ano seguinte e, consequentemente, aquilo a que chamo de “Champions Light District“. Mais ainda, insistindo numa estranha forma de jogar que nem percebi bem se era de jogo interior, ou exterior, porque sempre que a equipa chegava à entrada da grande-área adversária, nada sucedia dali para a frente.

Importa também observar que os jogadores que tantos portistas gostam de criticar quando jogam mal, foram, uma vez mais essenciais na reacção: Tello e Casillas. Ontem, depois de André André, foram os únicos a remediar a porcaria – mesmo quando o jornalista da SIC N que resumiu o jogo tivesse subentendido que a grande-penalidade não foi convertida por tosquice do executante. Tello, por exemplo, não merece tantas críticas quando ficou tanto tempo no banco, no início do campeonato e quando foi encostado, sempre que fez asneira; assim como foi chamado à titularidade, praticamente sempre que justificou no jogo anterior – não sabendo eu o que fazem nos treinos.

Há ainda casos especiais em lados diferentes da barricada: Bueno e Àbombakar. O primeiro, a gritar desesperadamente por mais oportunidade; o segundo, a gritar silenciosamente por uma pausa, porque o homem é especial e não está animicamente bem. Já agora, para nem convocar o André Silva, mais vale nem sequer reservá-lo e impedi-lo de jogar pelos B, onde Ruíz, obviamente, aproveita cada espreitadela para mostrar o que ali está.

Gostaria ainda de abordar a situação de Maximiliano, que parece estar em curva descendente. Parece cansado, saturado, desatento, mas sempre esforçado. Algo se passa com o uruguaio, curiosamente, desde a sua paragem e das bocas que andou a mandar à sua antiga entidade patronal.

Com esta, vem uma situação MUITO mais grave: a de Herrera. E não digo isto, sequer, pela desgraça inqualificável do jogo de ontem e pela teimosia em mantê-lo tanto tempo em campo. Tem, sim, que ver com o uso da braçadeira. Não aceito isso. Não aceito essa vulgarização daquele símbolo. Não aceito que se dê por decreto temporal. Não aceito que se dê a um jogador que, como qualquer pessoa boa da cabeça calcularia, não iria representar o seu peso – muito menos vindo de um período de hibernação que fez dele, talvez, o pior elemento em campo, com um número incontável de passes falhados, de recepções toscas, de marcações deficientes, etc. E, neste caso, não estou a culpar Herrera. O mexicano não pode ser culpabilizado por ser mandado para as “feras” da competitividade quando não joga regularmente há muito tempo. Fez o que pôde. Mal, mas fez o que a capacidade e a circunstância própria lhe permitiram…

Depois, Lopetegui.

O treinador está claramente a perder o foco. Está nervoso, descontrolado e pouco esclarecido. TILT total. É aqui que se percebe que não tem experiência de equipa grande e de pressão. Acusa-a e transporta-a aos seus pupilos. Já disse isso por várias vezes, neste espaço, pois creio que a forma como comanda a equipa desde o banco é extremamente descontrolada e confusa – nomeadamente quando estamos em desvantagem. E depois, mais uma conferência de imprensa para esquecer… Relegou quem quis, quando quis e como bem quis. Esvaziou a criatividade e tentou implementar a lógica da máquina de peças.

Repito: não retiro uma vírgula que seja àquilo que sempre disse dele, mas a verdade é uma: Lopetegui não está a conseguir segurar o barco e suspeito que a equipa não esteja com ele. Ontem, não foi só treinador; foi entrega. Não fosse o rasgo de genialidade da futura venda do FC Porto (sim, porque agora deixámos de ser um clube desportivo para passarmos a ser um entreposto onde o “carro” liga só para não ficar sem bateria, ou para criar folgas da humidade); não fosse o “santinho” entrar em acção e estaríamos, neste momento, em gritaria semelhante à de Lopetegui, com esperas no Dragão, com tarjas e com os taciturnos no próximo jogo, adornados ao assobio. E é este o limite, entre uma bola quase certa de entrar que um grande guarda-redes amparou e o miligrama de cortisona suficiente para manter a respiração activa.

Por último, a arbitragem. E é aqui que voltamos ao início – a essa “benfiquização”. Já li muita coisa e não concordo com praticamente nada. O sr. Mota é um árbitro medíocre. Toda a gente sabe disso, nomeadamente os adeptos do FC Porto. Ontem, ele e a sua equipa técnica estiveram um desastre em duas coisas essenciais: nos foras-de-jogo e nas faltas sucessivas por marcar a favor do FC Porto – eventualmente, à expulsão de Lopetegui.

Não concordo em relação à crítica aos cartões, nem à grande-penalidade. Maicon fez lembrar as paragens cerebrais de Jorge Costa, com a desculpa da falta de ritmo. É penálti. Decisão acertada. E depois os cartões aos centrais, Indi e Marcano. O último entra com o braço e o primeiro entra com os pitons ao pé de apoio do adversário (e ainda bem, porque isso safou o Maxi de poder ter levado vermelho, logo a seguir, a avaliar pelo critério esquizofrénico). Há ainda uma situação de suposto atraso do jogador adversário, no quarto-de-hora inicial que me pareceu deliberado, mas que, após ver várias repetições, me deu a convicção de ter sido apenas tosquice (má recepção sem intencionalidade).

Há também um lance de mão junto à entrada da área do adversário que não é assinalada e a expulsão estranha de Lopetegui. Ponto um: não estou certo de que Lopetegui estivesse, de facto, a falar com o jogador. Se ele o diz, acredito, mas não nos esqueçamos de que o treinador do FC Porto deveria ter sido advertido pela forma ridícula com que, minutos antes se dirigiu ao árbitro quase em confronto directo e em gritaria, devido ao tal lance de suposto atraso. Não é por haver Jesus a fazer o mesmo que é regra. Não é razoável que o treinador dê aquele exemplo e se coloque na mão do árbitro, ao confrontá-lo loucamente, por muita razão que tenha. Isso é tarefa da direcção e fora do campo. Mas prefere ficar tudo caladinho, até nas sessões de discussão e de respostas aos associados, vendo no Porto Canal o local de desculpabilização total ao falarem insistentemente na arbitragem (que ontem foi o menos dos nossos problemas, sinceramente), ou então atirar ao lado, como na reacção de hoje, olvidando a forma de estar em campo completamente desapegada.

Um lance, um momento, duas escolhas ( a do guarda-redes e a do jogador). Foi esta a fronteira entre o abismo e a sobrevivência da suportabilidade – não da sobrevivência do treinador, pois isso são outras contas do rosário…

O meu pressentimento quase que se confirmava, uma vez mais. Ainda bem… Salvou-se o hóquei…

Não querem que vos lembre, finalmente, que jogámos contra o Tondela em campo neutro. Sim, o Tondela. Com todo o respeito que os adeptos merecem, não me obriguem a recorrer às estatísticas…

Imbicto abraço!

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3 thoughts on “Rescaldo – Isto está a ficar complicado…

  1. A nossa diferença de opinião é só uma: a tolerância. Eu aceito que é discutível o penalty. O que não discuto é que Paulo Oliveira, Naldo, Ewerton, Luisão Jardel, já fizeram faltas muito, muito, muito piores do que as de Maicon e principalmente Indi, ou Marcano e passaram sem coisa nenhuma! É a mesma coisa que a expulsão do Maicon contra o Boavista: nunca mais se viu nenhuma sequer remotamente parecida, em 33 jornadas! Viu-se, inclusivamente, muito, muito pior!

    De resto, naturalmente subscrevo tudo o que dizes, sublinhando a tua avaliação aos jogadores e ao injustiçado Bueno. O Abou parece-me esgotado e o Maxi também.

    Abraço Azul e Branco,

    Jorge Vassalo | Porto Universal

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    1. Imbicto Jorge,

      A minha avaliação parte apenas do caso isolado deste jogo. Se tivermos em conta o que acabas de escrever, obviamente estamos perante um #colinho2.0
      Acrescente-se a isso a forma como o Conselho de Disciplina “ilibou” o xôr Naldo da justiça aplicável em conformidade.

      Resumindo: quem não chora, não mama.

      Imbicto abraço!

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