Quaresma vs. Casillas

Imbicto leitor,

Há dois casos paradigmáticos de três, tipo; o dos jogadores que saem e: ficam recalcados com o clube cheios de si mesmos; o os jogadores sem capacidade para impedir uma mudança, felizes por terem representado um emblema; bem como daqueles que são, tipo “meh“… assim, assim.

Ora, nos últimos dias, dois casos paradigmáticos, p´tanto, abriram-se ao mundo. Ou melhor, reabriram-se. Falo, pois, de Casillas e de Quaresma.

Já todos sabem os contornos que envolveram as saídas de ambos os jogadores dos respectivos clubes, estando um com marcha de saída e outro de chegada. Curiosamente – ou não -, ambos os casos assemelham-se. Ora vejamos:

  • ambos os jogadores diziam amar incondicionalmente o clube;
  • ambos os jogadores saíram, aparentemente, à revelia da sua vontade emocional, mas não voluntária;
  • ambos os jogadores eram símbolos dos respectivos clubes, se bem que numa dimensão incomparavelmente diferente;
  • ambos os jogadores eram polémicos;
  • ambos os jogadores semeavam o sentimento extremo nos adeptos, ora de ódio, ora de admiração profunda, quase catártica;
  • ambos os jogadores regiram à saída;
  • ambos os jogadores foram questionados, antes da saída;
  • ambos os jogadores oscilavam, em termos exibicionais, entre o sofrível e o genial;
  • ambos estão ligados ao FC Porto;
  • ambos estão em curva descendente na carreira;
  • ambos são ídolos dos mais novos, o que faz deles um exemplo carismático.

No meio de tanta semelhança, há a distinção da nobreza dos factos, das declarações, das vontades. Enquanto um sai de um clube onde “nasceu” para lutar pela sua sobrevivência futebolística e estatutária, o outro sai de um clube onde não “nasceu” para lutar pela sua sobrevivência egoica; enquanto um se humilda com o estatuto que, de facto, tem, conquistou e é reconhecido por todos – até pelos que mais o odeiam -, o outro torna-se arrogante com um estatuto que julga ter mas que nunca teve, ou provou fazer por merecer; enquanto um é líder e joga pelo colectivo, numa inteligência emocional e prática incomuns para um jogador da bola, o outro quer ser líder por decreto, pensa em si e transporta a dimensão do clube para si, devolvendo-a ao adepto como fonte de todas as coisas.

casillas e a retrete

Casillas numa das passagens da sua fantástica e exemplar entrevista, à Papel, El Mundo (clica na imagem para ler)


Não haja dúvidas! Quaresma é um jogador extraordinário e parece ser um indivíduo muito porreiro para passar umas boas horas a curtir a vida e a esquecer tudo o resto – sem ser, necessariamente, de forma irresponsável. É um talento nato que se deixou sugar no buraco negro que é ele mesmo, absorvendo toda a luz que o rodeia. Quaresma é o que poderia ter sido mas nunca foi. Já Casillas, é o oposto disso.

Duas, foram as entrevistas-chave no meio de toda esta comparação: uma ao El Mundo, por parte de Casillas e outra à TSF, por parte de Quaresma. E enquanto um parece querer diluir o problema na circunstância e no tempo, o outro parece querer puxá-lo sempre que a circunstância e o tempo fogem.

É isto que distingue os grandes, os mitos e as referências: o saber estar para lá do futebol, onde a personalidade vinca a palavra. E é óbvio quem mais fica a ganhar e quem mais fica a perder, num mar de mediatismo que só os hábeis e os inimitáveis sabem fazer.

Quaresma, não queiras fazer prevalecer a tua memória a todo o custo, por muito injustiçado que te sintas! Eu, como teu grande admirador desportivo digo-te, meu caro, que enquanto perdes tempo em substituir a boa memória pela frustração compreensível, fica, cada vez mais, a memória do presente frustrado do que a memória de glorioso passado. Por isso, aprende com Casillas! Pois fere mais o que fica por dizer do que o que se acha que os outros de nós querem ouvir…

Imbicto abraço!


P.S.: por falar em peixeiradas

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7 thoughts on “Quaresma vs. Casillas

  1. Eu acho, sinceramente, que o “terceiro ou quarto lugar” de que ele fala, não seria desportivo, mas antes em importância, e acho que muita da azia do segundo tem a ver com o primeiro.

    Curiosamente, havia Helton, mas que eu até entendo: teria medo de perder o estatuto que conquistou – merecidamente! – durante uma década de serviço ao Clube, mas que Casillas soube respeitar.

    O balneário está unido, feliz e a equipa sólida, e quem ignora isso, ou o faz de má fé ou de ignorância.

    Gostava muito das trivelas e dos rasgos de Quaresma. Mas ele faz mostrar, a cada dia, que estas teriam um preço muito mais do que o salário de San Iker.

    E, já agora, não acho nada que San Iker esteja na curva descendente. Acho que está a acomodar-se, a encontrar o seu espaço e, pelo que vejo de si e da sua mulher, um conforto e uma paz que não tinham em nenhuma rua de Madrid.

    Dir-me-ás que são coisas simples, que nós, nortenhos, conhecemos bem: o passeio pela marginal à noite, o banco do jardim ao fim da tarde, mas aqueles festejos não são cena: são felicidade genuína. E isso traz entrega com ela. Porque talento tem-no ele de sobra.

    Aposto que Iker Casillas irá prolongar o contrato. Eu fico feliz. Estou com ele desde a primeira hora.

    Abraço Azul e Branco,

    Jorge Vassalo | Porto Universal

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    1. Imbicto amigo,

      Aparentemente, é verdade. O balneário respira uma saúde incomum. Esperemos que se mantenha, principalmente nos próximos meses, em que haverá jogadores cujo ego poderá não aguentar tanta contenção por falta de jogo.
      Concordo com tudo o que dizes!

      Imbicto abraço!

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  2. Ora boas meu Imbicto amigo….

    Bem eu neste assunto nem quero me alongar muito… Quaresma fez muito de bom pelo Porto mas também muito de mau…Para mim ele passa a valer 0 quando começa a ver que o seu suposto clube do coração começa a ficar dividido (adeptos por ele e outros adeptos pelo treinador), e não fecha a matraca… Ele era bom jogador mas não era mais que ninguém no nosso clube….

    Engraçado que ele saiu e dá-me a sensação que a partir de ai o Porto fica muito mais unido em todos os aspectos…

    Maior parte dos jogadores do Porto não tinham as hipoteces que ele teve… E mais por muito que quisesse falar esqueceu se de respeitar quem o resgatou de um sitio sem dinâmica de futebol…

    Odeio gente que não é capaz de ser humilde e fala “mal” de quem lhe deu a mão…

    Abraço grande Imbicto amigo

    Assinatura:Dragão

    http://dragaoeaguia.blogspot.pt/

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