Superliga Europeia | O impulso do Barcelona

Imbicto leitor,

Se dúvidas houvesse acerca da relação causa-efeito entre a política-sociedade-futebol, o caso particular do Barcelona é paradigmático disso mesmo.

As eleições catalãs estão aí e uma possível cisão por parte dos impulsos independentistas da província (ainda) espanhola é sempre uma hipótese. Não fosse o poder da constituição onde se refugia o centralismo e a unicidade dos países, nestes casos particulares, e Barcelona seria há muito parte descolada e isolada do território espanhol.

É tudo, pois, uma questão de raízes, História e até de ironia, pois quem conhece de forma razoável a História Ibérica sabe que Portugal poderia bem estar no lugar da Catalunha, neste momento – ou vice-versa. Se bem que a nossa matriz, a manter-se a de sempre, não nos levaria, sequer, a sair do jugo, ou da “mama” que convém – aliás, como sempre foi nossa característica bem particular de povo e de nação de “chulos”.

Seguindo e reforçando a crítica já por mim feita em circunstâncias anteriores às posições de individualidades mais ou menos ignorantes, que encobrem essa particularidade refugiada de status quo privilegiado (ou notório) e tidos como exemplos a seguir – seja lá o que isso for – é factual que o poder de autodeterminação do povo catalão tem força e tem razão. É assim que os povos se constituem, tornam independentes, ou reivindicam identidades diferenciadas dos demais, ao formarem formas de governação autónomas e libertas. Há, no entanto, o problema do “contágio”, que apercebido não só no problemático e terrível imbróglio espanhol vindo do séc XVI, com outras regiões com sede de independência (Galiza e País Basco), faz propagar e cavalgar a onda da sub-divisão em lugares como a Escócia (agora mais apaziguada), a Alemanha, a Córsega, as repúblicas pós-soviéticas dos Balcãs, algumas zonas do leste ucraniano e, obviamente, a difícil questão cipriota. E como se isto suficiente não fosse, quem ainda não pensou nisso, começa a pensar. E assim se recria e transforma o “mapa de Viena”, que até a nós, portugueses, nos deixa inquietos com aquele pedaço de guerrilha tipicamente e “lusamente” pacífica em Olivença – ou até pior, se tivermos em conta as Ilhas Selvagens madeirenses.

Mas o que é que isto tudo tem que ver com bola? Simples: tudo.

A “bola” é uma extensão cultural daquilo que se passa na sociedade. O futebol é exemplar naquilo que concerne à demonstração de momentos históricos, regimes e liberdades. Repare-se na forma como o futebol surgiu, na génese dos clubes de bairro, nos clubes de colectividades e de agremiações de trabalhadores (nomeadamente na URSS e na Grã Bretanha); veja-se como o totalitarismo fez de alguns clubes a arma perfeita para tentar unir povos em torno de uma causa, aniquilando a diversidade – história tão conhecida, estudada e reconhecida em países como a Alemanha, Itália ou Portugal; clubes de esquerda e de direita – situação típica em Itália; clubes de católicos e clubes de protestantes; clubes “proletários” e clubes “burgueses”, como nos lembra o exemplo escocês.

O caso particular do Barcelona

Em causa, neste momento, está um clube conotado com um statement político nunca escondido e sobejamente propalado e referenciado na afirmação do idioma, das cores da bandeira e da colagem política pública em prol da independência, por parte de alguns dos mais destacados elementos do Barcelona. Por muito que a insistência de atribuir estatuto privado como reserva da manutenção do Barcelona na La Liga, a verdade é que estamos, neste ponto, perante uma discussão legal e não social.

Há, neste momento, um receio em Espanha, de que o maior e mais representativo clube da Catalunha possa vir a sair de forma compulsiva de uma das maiores ligas do mundo. E isto não agrada a ninguém, nem aos adversários, até porque o ambiente espanhol em termos de estratégia competitiva consertada é manifestamente diferente do nosso, onde o desaparecimento de um Porto, de um Benfica ou de um Sporting é o maior desejo dos espíritos menos lúcidos, nessa condição tão pequenina de pensar à TUGA. Em Espanha os clubes sentam-se à mesa e discutem o importante em prol de um bem comum. E talvez isso ajude a explicar em pequena parte o porquê do nosso futebol ser tão residual em termos de importância e criação de receita.

O Sr. Tebas (curioso nome), presidente da Liga Espanhola, afirmou a inevitabilidade da saída do Barcelona da competição nacional por falta de enquadramento jurídico, permitindo-se apenas a Andorra um estatuto especial.

Ora, como é óbvio, acredito que tudo não passará de um bluff, até porque não é preciso ser especialista em Canotilho, ou em Habermas para saber que as leis não são estáticas e obedecem a um princípio formal de adaptação à condição material; ou porque ninguém se arriscaria a perder um dos dois clubes mais impactantes na economia desportiva mundial, deixando o campeonato espanhol órfão, não só de competitividade, mas da respectiva subtracção de receita directa e indirecta. Porém, é certo e sabido que existe uma relação de inevitável causa-efeito entre os votantes e a posição do clube. Foi, aliás, o próprio clube que ajudou a agravar, de certo modo, o impulso independentista.

E agora?

Vamos colocar uma hipótese: o Barcelona sai da La Liga por imposição regulamentar. Automaticamente, entra num processo de gestão de risco condenada à morte por falta de receitas e de competição. A solução encontrada seria qual?

Não é preciso muito tempo para pensar até entender que a solução estaria em três opções: reintegração do clube através da reformulação legal; inclusão do clube num outro campeonato com estatuto especial – o que necessitaria também de revisão formal regulamentar e não me admiraria nadinha que Putin voltasse a provocar de forma inconsequente; ou competir de forma isolada numa competição criada em específico para não deixar que um clube com a dimensão universal do Barcelona morra.

Ora, tendo em conta a última opção, há três vias hipotéticas: surgir uma competição mundial (altamente improvável devido ao factor logístico, desportivo e financeiro), sob forma de liga, que garantisse regularidade; surgir uma competição europeia, onde clubes aceitassem formar uma competição isolada; surgir uma competição “independentista”, com clubes com tais ímpetos, ou respectivamente implicados – como o caso do esquecido e importante Español – ao arrepio da identidade europeia e das organizações responsáveis pelo enquadramento competitivo europeu.

Das três hipóteses, é fácil chegar à conclusão que apenas a segunda seria viável. A ideia não é nova e ganharia força. E com isto, clubes de campeonatos modestos, mas com projecção internacional, poderiam, finalmente, ter o argumento perfeito para reformular o conceito de futebol.

Há, no entanto, um grave entrave que surge: a matriz social europeia. Como todos sabem, a composição europeia não é federal, mas comunitária, o que significa que o relacionamento inter partes dá-se através dos tratados de adesão que contêm cláusulas de admissibilidade mista, onde, partindo de uma série de pressupostos técnicos relacionados com índices de desenvolvimento, de dívida, de matriz ideológica e religiosa não fundamentalista e de conjuntura económica, permita incorporar as normas europeias no Direito interino dos Estados-Membros. Sabemos que, por estes dias, a noção de coesão europeia é cada vez mais uma miragem e a divergência parece ser o caminho dos estados onde, neste caso particular, se incluiria a certa exclusão da Catalunha da UE (com potencial reintegração através dos tratados reformulados), mas não necessariamente da Zona Euro (complexidades técnicas que outros explicarão melhor que eu).

O lobby europeu pode bem boicotar esta hipótese. Porém, quem adopta determinadas posições, deve ter noção das suas consequências e, logo, entender que não podemos ficar com o melhor de cada situação. Há escolhas; toda a escolha tem consequência boa e má – e isto, claramente, não é explicado às populações e aos adeptos de clubes envolvidos em situações complexas como a do Barcelona e que se deixam embalar pelos tais “exemplos” que estão sempre ao serviço de uma “causa maior”.

Há, portanto, com esta situação curiosa, uma luz ao fundo do túnel para equipas de países como: Portugal, Holanda, Bélgica, Suíça, Grécia, Ucrânia e alguns países nórdicos. Porém, os actos, não sendo isolados, requerem uma percepção da conjuntura.

Uma Superliga/ Campeonato europeu de clubes pode ser a saída para o Barcelona e para os países sem dimensão competitiva com mecanismos de redistribuição através dos seus participantes, por exemplo. Mas nada disto será mais do que fumo pois é impensável acreditar que alguma vez a Liga Espanhola prescindiria de tal clube e dimensão competitiva e notória para lá da pressão centralista que tenta, a todo o custo, impedir a autodeterminação de um povo – concorde-se, ou não, com tal opção. E o mesmo se aplicaria aos restantes países, nunca isentos de tal pressão para admitirem competir com um clube hipoteticamente fora das esferas de poder, independentemente de haver já clubes integrados na divisão europeia (UEFA), sem serem parte da UE ou, sequer, da geografia territorial do Velho Continente. Realpolitik, p´tanto, meus amigos…

Tudo não passa de especulação, mas vale a pena pensar nas saídas; em todas as saídas e na forma como todos poderiam beneficiar com tal circunstância – a começar pelo FC Porto.

Mergulhando na maionese da Superliga e possíveis integrantes

Estatuto especial: Barcelona, Español e Mónaco

Primeiros três classificados das ligas: Portuguesa, Holandesa, Belga (há muito que ambas as ligas procuram uma competição comum), Ucraniana e Grega

Apenas um jogo entre competidores em campo neutro, permitindo aos clubes competirem nas ligas nacionais e reservando-se o Barcelona e o Espanhol a jogos particulares durante o calendário.

Sim, é rebuscado, mas possível. Porém, nada disto será realidade – e ainda bem para o Barcelona e Español; ainda mal para os restantes…

Imbicto abraço!

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2 thoughts on “Superliga Europeia | O impulso do Barcelona

  1. A reflexão faz sentido, naturalmente. Se me permite, deixo 3 apontamentos:

    1) Há características geográficas que nos diferenciam da Catalunha. Sim, isso mesmo, estamos encostados a este canto. E isso contribuiu para a nossa afirmação enquanto Reino independente. Que Nação também a Catalunha é. E o País Basco. E a Galiza. E, e, e…

    2) O Barcelona, e os seus jogadores presentes e futuros, não terão nenhum interesse em disputar um campeonato diferente do atual. Nesse aspeto, os interesses serão comuns: La Liga não quer perder o Barça; o Barça não quer perder La Liga.

    3) É tão verdade a relação que sublinha entre social e bola, que creio mesmo que a possibilidade de afastamento do Barça do campeonato Espanhol poderia ser um argumento de grande peso contra a causa independentista. Não creio estar a exagerar…

    Desculpe lá o testamento 🙂

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    1. Imbicto Silva,

      Muito obrigado pela partilha pertinente das observações! Aqui gostamos de discussão profunda, portanto, venha de lá a palavra longa! A minha resposta é que pode demorar, como está agora a perceber 😉 E as minhas desculpas por isso!

      A dimensão geográfica e independentista de Portugal e da Catalunha tem raízes bem identificadas na História. Espanha teve de decidir as suas prioridades em função do poder e dos laços históricos. Mas é essa mesma História que nos diz que, num determinado momento, os independentes (formais) seriam os catalães e não nós. Mas isso é tem muito enredo e nem vale a pena estar cá a falar nisso.
      Obviamente que, havendo falta de competitividade, o Barcelona que hoje conhecemos seria outro. Ninguém, para lá da “cantera”, aceitaria jogar por lá. Mesmo assim e só com a formação, teriam uma equipa de topo, tal como já o demonstraram, não raras vezes.
      E sim, o social e a bola anda interligados. Mas hoje em dia, o que não anda?

      Imbicto abraço!

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