Quando a política se mete com o futebol

Imbicto leitor,

Antes de mais, permite-me que avance, desde já, as minhas desculpas! Mereces mais que isto, mas a minha falta de disponibilidade tem sido por demais evidente, como se pode imaginar. Mas se não reparaste, esquece! Chega que eu repare e faça o devido “reparo” para aqueles que me estendem a sua paciência e benevolência temporal.

Hoje gostaria de regressar aos temas sérios. O Imbicto tem-se destacado mais naquelas vezes em que o sério é dito a brincar. Desta vez, e como há muito não o faço, quero tocar num tema sensível: a política no futebol.

Como é imaginável, há imensos casos que merecem a nossa atenção, mas este não é um blogue de futebol generalista. É, antes, um blogue portista. E por assim ser, deixarei considerandos sobre Blatter, Pinto da Costa, ou João Vieira Pinto para outra ocasião. Aqui, hoje, agora, o que importa é Brahimi e possíveis comparações.

Como sabeis, uma polémica estoirou forte acerca da deslocação do FC Porto ao reduto do Tel-Aviv. Tudo porque Brahimi, assumidamente muçulmano praticante, foi o alvo de todas as atenções. E porquê? Não, não é de resposta assim tão simples do tipo: ele é árabe e os árabes não se dão bem com os muçulmanos; logo não deve ir a “campo inimigo”. A resposta deveria ser outra e carece de uma atenção mais profunda, para lá da espuma das palavras e dos rebanhos comedores de jornais cínicos com opinião “tendenciosamente irrevelável”, mas moldadora de mentes.

Primeiro ponto: qual é a diferença entre ser muçulmano e apoiar a “causa islâmica”?

As cabecinhas deste mundo têm um problema: são preguiçosas. E como são preguiçosas, não farei aqui qualquer explicação histórica do surgimento do estado de Israel e do estado Palestiniano. Vão pesquisar, até porque compreenderão melhor o que está a acontecer – mesmo que não percebam patavina da forma como tanto uns quanto outros se atacam da maneira como o fazem. Não tomarei, sequer, posição, embora a tenha, não sendo extremada como os meios de comunicação social querem que a tenha, numa espécie de “ou estás comigo, ou contra mim”, não na lógica histórica, religiosa, ou sociológica do espaço geográfico e do intangível, mas antes na lógica pró, ou anti-americana, como se aquela gente toda fosse apenas uma prolongação disso mesmo, em jeito de claque. E, pior, de outros que fazem de cada crente em Ala uma bomba com olhos. E porquê tocar nesta questão? Pois nela reside o fundamento do mal-entendido e das repercussões vistas.

Um outro blogger da Bluegosfera. o Miguel Lourenço Pereira, tem uma posição bastante clara acerca da intervenção política por parte das pessoas ligadas ao desporto: podem e devem intervir e tomar posição sem complexo, com todo o direito que lhes assiste de exercer a cidadania. E, realce-se, que estou a transportar a sua opinião por minha inteira responsabilidade para este assunto a título de exemplo, embora o Miguel o tenha feito num outro contexto: o da intervenção política de Guardiola a favor de um movimento independentista formalizado, tornando-se parte activa do mesmo. Gostaria de saber o que é que o MLP acharia se Guardiola apoiasse a “causa de Israel”, por exemplo – e por causa de Israel, não quero dizer que o homem tenha de virar judeu, mas antes declarar apoio ao fundamento e modus operandi intervencionista e político da zona e dos seus agentes activos (políticos). E se se declarasse pró-palestiniano? Seria menos problemático? Ou mais? O Brahimi é pró-palestiniano… e é muçulmano. Mas poderia ser muçulmano e não ser pró, ou anti, fosse o que fosse. Poderia ser uma espécie de Aboubakar, por exemplo…

Afinal, qual é o problema? O problema é o mesmo. O problema é que, num acto de busca de popularidade, ajuda, intervenção social – ou o que quiserem chamar -, figuras públicas colam-se a estereótipos previamente interpretados pelas massas que detêm o real poder de escolha – a tal maioria, não raras vezes acéfala, numa espécie de ineptocracia militante. E são esses ineptos que despoletam os ódios ou os amores concertados; os ódios e os amores que tendem a criar facciosismo, totalitarismo e seguidismo, através da palavra de alguém que pretendeu que assim fosse.

Ainda se lembram disto (clicar na imagem para ler a notícia do Mais Futebol):

dani alves coiso

Pois é… Este é o problema.

Uma iniciativa por parte de quem quer ser popular ou estar na moda, nesta espécie de egocentrismo pós-moderno, obrigou Dani Alves a dar o dito por não dito. É um “charlienismo” cool que, nuns casos é sincero e, noutros, é hipócrita ou bronco.

Repare-se! Não está aqui em causa a posição, o momento, ou a causa, mas antes a instrumentalização e o objecto. Enquanto que no contexto que envolve Guardiola estou um pouco dividido – apesar de estar tendencialmente contra a acção do técnico catalão pelo vazio das motivações e por manipular o sentido da nobreza do exercício político, ao não ter intenções em efectivar uma hipotética eleição -, no contexto que envolve Brahimi estou claramente contra todos aqueles que exponham posições políticas tão delicadas, fazendo uso da sua imagem para comandar rebanhos, alimentando assim e, ainda mais, posições potencialmente radicais e pouco conscientes, a reboque dessa inconsciência do dano a poteriori, como está prestes a acontecer, na deslocação do argelino a Israel.

Portanto, uma questão pertinente urge ser respondida: Faz sentido tomar posições fracturantes no futebol? Ou até outra: Se, por exemplo, um jogador judeu defendesse o contrário, teria a mesma defesa, ou a mesma compreensão?

Resumindo, há um dilema circunstancial que vem de uma certa hipocrisia sociológica, onde se apoiam causas em falsas motivações, sem, não raras vezes, se saber o que se está a defender – seja por culpa dos clubes, dos agentes, ou da moda dos social media e das maiorias; ou por se saber, conscientemente, sem ter a consciência de que a sua posição pode tocara  terceiros, prejudicando-os, quando estes estejam directamente relacionados consigo. Brahimi é um profissional, é certo, mas fará sentido colocar em risco a vida desse profissional num terreno onde existem claques – como em todas – onde o activismo político extremista de direita, ou de esquerda é militante e efectivo?

Fica à vossa consideração…

Imbicto abraço

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