O empréstimo da promessa

Imbicto leitor,

É um tema que pouco vejo referenciado, pela Bluegosfera, a não ser em relação aos relatórios da situação em que se encontra.

Ontem, a Académica levou quatro secos do Setúbal. Quatro secos, onde até Suk parece um génio. E por que raio estarei eu a falar deste jogo? Porque uma das nossas maiores promessas joga no clube de Coimbra. Ontem jogou. Mas foi como se não tivesse jogado.

Gonçalo Paciência já trabalhou com o plantel principal do FC Porto. Tal como Ivo Rodrigues, Tiago Rodrigues, Otávio, Tozé, Quiñones, ou Kayembé (e nem falo noutros casos evidentes onde a intenção não era a de retornar), foram, ou são emprestados a clubes de primeiro escalão. Depois de cumprida a escalada dentro da hierarquia portista, como a maior parte, em qualquer clube de topo, chegam à primeira equipa os melhores. Mal chegam à equipa B, há uma selecção daqueles que oferecem maiores possibilidades de integrar a equipa A, transitando entre ambas, nos treinos e nas convocatórias. Chega então o momento da escolha: ou permanecem na A, ou vão rodar para ganharem ritmo competitivo e conhecimento das “manhas” dos clubes de primeira liga.

Este ano, depois do sinal da pré-temporada dado a alguns por Lopetegui – tal como no ano passado, em que se perdeu Mikel para ganhar Rúben Neves – estão nesse processo, principalidade, André Silva e Gudiño, podendo outros seguir-lhes as pisadas. E está, no outro processo, o de adaptação transitória de empréstimo, Gonçalo Paciência. Foquêmo-nos aqui, para já!

gonçalo academica

Gonçalo Paciência é um jogador tremendo, uma das poucas promessas para uma posição de rara aposta e proveito, a nível nacional. E é portista – de clube e de coração. Mas onde é que se quer chegar ao emprestar um jogador com as suas características a um clube de “marcha-atrás”, como a Académica (com todo o respeito que me merecem)? Onde é que há benefício em colocar um jogador como Gonçalo a jogar em contra-ataque, sem posse, sem marcação fechada? Não haveria uma solução melhor?

Em Portugal, poucas equipas jogam num conceito que seja de ascendente. De entre todas, destacam-se – excluindo os grandes -, por exemplo: o Braga, o Vitória, o Belenenses e o Marítimo; possivelmente, o Rio Ave. De todas estas, apenas o Braga é hipótese comparável, mesmo que faça uso de mais vertigem do que da posse continuada.

Gonçalo, ou outros jogadores, têm vindo a ser prejudicados por uma espécie de política que, colocando relações de poder à frente do potencial desportivo, relegam para o acaso talentos puros, numa efemeridade da não aposta, ou da má gestão. Este talento jamais deveria estar em clubes como a Académica que, por muito que lutem, têm estilos de jogo que em nada se assemelham ao do FC Porto. A táctica é usada de forma diferente, o ataque é diferente, a marcação é completamente distante e, pior, não existe um patamar competitivo que se assemelhe na pressão. Neste aspecto, a segunda liga consegue ser muito mais proveitosa, pois é mais competitiva e as equipas B dos grandes são respeitadas no mesmo grau relativo do da primeira liga, fazendo uso de processos de preparação (que poderiam ser melhores com outro treinador) semelhantes aos da primeira equipa. E o jogador? Quer ficar na segunda equipa?

É essencial rever a política de empréstimos! Gonçalo encaixaria perfeitamente no Braga. Se para lá não foi, por vontade dos bracarenses não terá sido, com toda a certeza, até porque é um dos sectores onde apresenta mais carências.

O ano que passou mostrou-nos outra evidência: para quê emprestar quando não há garantia de competição nas pernas? Ivo Rodrigues não cabia naquele Vitória? E Tozé, o que se passou desde que marcou vinte golos na segunda liga pelo Porto B? Mais política, ou frustração pelo jogo com o Estoril devido ao comportamento inqualificável do moço? Onde páram as exigências contratuais que beneficiam financeiramente os clubes a quem se empresta consoante o número de jogos em que entram como opção?

Este capítulo é muito delicado, especialmente quando vamos mais a fundo e percebemos que Kélvin está onde está e que Quintero está parado. Isto é grave, pois se para Kélvin, infelizmente, a intenção é clara (ao estilo Walter), para Quintero há um prejuízo efectivo para lá dos dez milhões, ainda por cima estando nós carentes nessa posição 10…

Felizmente, há também boas opções, como é o caso de Reyes que, claramente, tenta maximizar o ingresso em Espanha, tal como Ghilas (outro negócio incompreensível). E infelizmente, há outros que fazem prever o pior, como o caso de Lichnovsky, a confirmar-se a chegada de outro central; de Ricardo Pereira, que se pode perder na teimosia do treinador em arredá-lo para a lateral e necessitando nós – pelo que se diz – de outro extremo (como o é ele e de excelência). Como Kayembé, praticamente na mesma situação ingrata vinda da teimosia de retirá-lo da sua posição e onde no Arouca jogou fora daquilo que se pretendia que fizesse para ganhar as rotinas.

Estamos, portanto, perante um grande problema. Aliás, dois: a utilidade do empréstimo e a política do empréstimo. Estamos ainda mais que isso, perante uma constatação grave, semelhante ao do adepto que quer aposta na formação e mística, mas que, quando a tem, acha que o clube vai descer de divisão… Esta noção afecta também o local onde se decide, não tenhamos ilusões, mas sem o dramatismo do “pipoqueiro”!

Não creio que, no global e neste momento, a forma como o FC Porto gere a maturação das suas promessas seja má. Creio apenas que, na “hora H”, todo esse trabalho, promessa e aposta, acabe num eterno fracasso devido a factores que vão desde o critério do clube receptor mais conveniente (e não o mais útil ao jogador), à competitividade efectiva de quem tem “calo” e provas dadas, relegando a promessa para uma fila de espera, ou para a estupefacção inesperada de vendê-lo a um clube de segunda linha europeia onde explode. E aí, também explode o arrependimento, como o clube da Luz o faz, deitando fora uma fornada de talento inquestionável que dá provas em clubes de grande dimensão europeia.

Gostaria de saber a vossa opinião. É um tema delicado. Há bom trabalho, mas esse trabalho de nada serve quando é mal rematado na hora da verdade. Fica mal o jogador-promessa e fica mal o clube… E assim, não há mística ou formação que aguente.

Imbicto abraço!


Fonte da imagem: O Jogo

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5 thoughts on “O empréstimo da promessa

  1. lamento nao ajudar na discussao, mas estou absolutamente de acordo com a visao sobre o empréstimo do Goncalo.
    achei, inicialmente, que seria benéfico para ele este emprestimo, já que é demasiado talentoso para estar tapado por Aboubakar e para andar a fazer biscates na B, mas nao pude ficar contente quando soube que ia para Coimbra (e a AAC até é a minha segunda equipa!) porque nao tem lá nada para aprender.
    teria necessidade de ficar em portugal? terao os jogadores a nocao de que se forem para a bélgica ou um campeonato “menor”, ninguem no clube os observa?
    percebo tao bem esta escolha como a falta de “entrosamento” entre modelos/dinamicas de jogo entre equipas A e B (mais outro assunto diferente, perdao…).

    Penso que sim, que devia haver o cuidado de encaixar os jogadores em dinamicas semelhantes ás nossas – nesta fase muito avancada da evolucao/desenvolvimento dos jogadores-, senao vamos continuar a tentar ensinar peixes a trepar a árvores.

    e de novo, a questao do aproveitamento… quintero, rolando, opare, josué, goncalo, ghilas, podiam ou nao ser solucoes para as vagas que se ora querem ocupar? Lord Licá nos valha e nos guie 🙂

    nao é um problema novo no NGC, que sempre primou por um número gigante de activos emprestados, mas seria conveniente que esses mesmos empréstimos fossem mais criteriosos para a evolucao dos mesmos.

    obrigado pelo óptimo post num tema tao premente!

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    1. Obrigado eu, Imbicto Michael!

      De facto, há casos tremendos de evolução, precisamente nos campeonatos da Bélgica e na Eradivisie. O grande problema prende-se com a componente táctica e com a intensidade. É certo e sabido que na Holanda para a frente é que é caminho; depois é o que se sabe, atrás…
      Seja como for, em termos de evolução, faz mais sentido do que muitos dos nossos clubes, ou clubes turcos, onde conseguimos fazer prevalecer a máxima de “entreposto” para revenda. É pena…

      O caso de Gonçalo é gritante! Como o dele, o de Tozé, que ainda conseguiu ser titular bastantes vezes, mas com um treinador pouco dado à coisa e com Ivo, que foi estragar-se e enferrujar por razões desconhecidas, a Guimarães.

      É como dizes, Lord Licá nos valha! 😉

      Imbicto abraço!

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