Mea culpa | Porque é que não fiquei contente com a derrota do Benfica?

Imbicto leitor,

É sentimento muito nosso, ter como dia ganho duas horas perdidas pelos “encarnados”. O facto é que, ontem, pela primeira vez em muitos anos, foi-me quase indiferente…

O clube mais amado pelos portugueses que insistem em confundir “biggest” com “greatest” confirmou, ontem, o estado de mediocridade em que se encontra e que todos insistiram em branquear após esse belo jogo com o Estoril, nomeadamente os responsáveis pela mensagem optimismo reflexo. O Arouca, vendo-se a ganhar desde cedo e com um treinador bastante interessante para aquilo que é a consideração nacional para com os clubes que não os grandes, fez o seu trabalho: engonhou. Fez, de resto, o que o Marítimo nos fez, mas de forma diferente e menos defensiva (pelo menos no estilo “merdoso” tão bem usado pelo Imbicto Jorge, do Porta 19). Uma dúvida para os distraídos: assinalada a grande-penalidade, com respectivo golo no início do jogo anterior, que resultado teria sido o 4-0?

É condição essencial. Ganhar pontos aos grandes é uma festa. Mas há, no entanto, uma novidade de há dois anos a esta parte: os clubes ditos pequenos começam, em alguns jogos, a acreditar ser possível algo mais do que confirmar-se como medíocres – mas temporariamente. Neste momento, principalmente nos inícios de época, há uma espécie de retorno aos anos 90, em que uma certa competitividade desportiva permitia olhar os três grandes olhos nos olhos, fingindo não terem medo de defrontá.los. E isto é óptimo! Tudo porque é bom para o espectáculo, para a incerteza no resultado e para a visibilidade do futebol nacional. O grande problema é que, nos últimos tempos, esta forma de jogar deve-se, essencialmente, a duas condicionantes: inícios de campeonato instáveis por parte dos grandes e competência efectiva por parte do treinador português. Mas não é, de todo, acto permanente para toda a época; nem sequer para todo um único jogo.

Ontem ouvi Ribeiro Cristóvão, na SIC, dizer que foi propositadamente criado um calendário mais acessível no início para os três grandes, a propósito do jogo do benfica, no “after-match” e que nem assim há aproveitamento. Bom… ainda que não me admirem tais afirmações, julguei que o sorteio seria feito por máquinas. Curiosamente, esse sorteio com máquinas fez-nos calhar logo o Vitória e o Marítimo, nas primeiras duas jornadas – a tal facilidade para todos, de carácter propositado, para o senhor, portanto…

Noutro programa, os primeiros minutos que vi mostraram-me um Rui Santos incomodado pelo facto de equipas como o Arouca, ou os recém-promovidos, em nome da (adivinhem!?) “verdade desportiva”, não deveriam ser aceites na Liga NOS, pelo facto de não terem condições logísticas para tal (os estádio, p´tanto). Portanto, um clube que, durante um ano, tem de levar com mais jornadas do que na primeira liga, em jogos muito mais competitivos e quezilentos e ainda por cima termina nos dois primeiros lugares, não deveria ter direito a fazê-lo? Bem, por esse critério, o Beira-Mar continuaria bem por cá. E, já agora, o Varzim e o Famalicão, que metem mais gente em jogos de segundo e terceiro escalões do que os do primeiro…

Para lá destes comentários (pouco) expectáveis (tosse), a verdade é que há a realidade. E eu não estou aos pulos porque vi a minha equipa a penar para fazer uma jogada decente, onde só havia pés e tronco, mas onde a cabeça estaria em paradeiro desconhecido.

Acabámos por desperdiçar, uma vez mais, dois pontos, relegando para três, a diferença para o clube “mais-melhor-bom”. É um filme já visto e julguei não mais ver. E isto nada tem que ver com o resultado! Tem que ver, sim, com uma forma de estar estranha, imitadora de jogos como o de Belém, fechando o campeonato passado. Tem que ver com desleixe, falta de garra. E, de repente, retomo as leituras estranhas de quem se queixa não haver mística. Porra! Mística o alho! Pois mística, para muitos, é meter à pressão jogadores que nem jogam ou são convocados como símbolo do que não é mais o mesmo. Não há, portanto, justificação para a desculpa vinda da adaptação e da táctica, já que a equipa joga da mesma forma (relativamente mais vertical, pensando eu, até ao jogo da Madeira) e sem garra.

Creio que estamos todos a confundir a mística com o jogador. É quase como o caso infeliz do terrorista que foi impedido de matar toda a gente numa carruagem do TGV (mesmo que para alguns jornais não pareça ter sucedido nada), onde o herói é americano. Mas… Esperem lá! Americano radicado nas Lages – logo português!? Logo deixa puxar a brasa e ir no comboio… É fazer do agente com relação directa ou indirecta, transporte imediato de algo que se sente em permanência. E nem sequer estou a falar de André André, por exemplo! O problema não é a mística! Nada tem que ver com isso…

A mística é uma treta quando não se sabe dela ser apologia. Nós temos um problema: transformámo-nos. E isso é algo indubitável e irremediável. Podemos dizer que a culpa é do treinador, dos jogadores que não sentem (quando o Maxi ia salvando a honra e tudo…), da estrutura que anda a gerir mal o dinheiro que entra, ou dos adeptos “assobiativos”… A culpa é de todos nós. Algo rompeu-se. E enquanto a sintonia não for una e total, sem querer culpados e colocando como único um objectivo comum, dificilmente sairemos de um comportamento do campo sem garra.

Sim, desta vez o treinador teve culpa. Sim, há jogadores que acabam de chegar que erraram. Mas por favor, expliquem-me o que é que há de errado em mim para que uma vitória do meu maior rival me caia indiferente…? Acho que perdi uma pequena parte da minha fé cedo demais. Não apenas por rever filmes recentes, mas porque o FC Porto mudou. E mudou, principalmente, nas suas gentes – as que levam a equipa para um estado mais elevado que não o que vimos na Madeira, nesse recuo anacrónico de “ares” ao passar a ponte.

O treinador pode ter errado, os jogadores podem ter errado, mas há um erro maior: o nosso; o meu. O de nos deixarmos contagiar em parte por um certo desespero que leva ao descrédito, de quem não está habituado a perder tantas vezes seguidas (duas!!!)…

O que se passou na Madeira accionou apenas um gatilho daquilo que se passou no ano passado. E isso tem de mudar na minha cabeça. Na minha e na vossa, portistas!

Porto a sério

Finalíssima da Taça de Portugal, 93-94 (clicar na imagem para ver o vídeo surreal)

Mea culpa! Mais do que deles, que nos representam… Porque isto anda tudo ligado…

Imbicto abraço!

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8 thoughts on “Mea culpa | Porque é que não fiquei contente com a derrota do Benfica?

  1. Caro Imbicto,

    Dois comentários ao teu post:

    1) Completamente de acordo com o Rui Santos… quem não tem condições para jogar em casa que fique na segunda liga ou senão que mude permanentemente de casa da 1ª Liga, pois jogar em campo Neutro contra alguns e não contra todos é completamente contra a verdade desportiva.

    2) A Madeira é o nosso ex.libris… Não é de Lopetegui, nem de Paulo Fonseca, nem e Vítor Pereira… seja porque razão for, aquela Ilha dá-nos cabo da cabeça e das pernas aos nossos jogadores.

    Portanto é mais que trauma… Mas também não deixa de ser curioso (no mínimo) que essa Ilha tenha 3 equipas actualmente na 1ª Divisão… Leva-me a questionar seriamente que será que tem a haver com algum tipo de micro-clima que dificulta a acção dos adversário e que beneficia as equipas da Madeira, por estarem habituados ao clima em si?

    Eu acho que deveríamos começar era a fazer os nossos estágios de pré-temporada por lá…

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    1. Imbicto João,

      Assumir o pressuposto de Rui Santos, seria isolar a circunstância e a competitividade desportiva efectiva de uma equipa. Entendo, sim, que há um circunstancialismo que deveria ser abordado de maneira mais construtiva, nomeadamente em relação aos estádios.
      Repare-se, quando um clube como o Paços (caso mais recente), de primeira liga – embora sem grande massa adepta e afiliada – efectuou obras no seu reduto, foi “obrigado” a fazer uso de outras instalações, como o Estádio Municipal de Braga, ou o Dragão (jogo com o Zenit para a pré da UCL). Estamos perante a mesma consequência, advinda de causa diferenciada.
      Com tudo isso, é minha convicção que o “campo neutro” será sempre favorável a visitantes com maiores massas adeptas, seja onde for, inclusivamente no seu próprio estádio, a estar em condições, como é o caso do Tondela e do Arouca. Mais ainda, Aveiro é, de facto, um estádio que precisa de uso e que, por razões óbvias que se prendem com a utilização própria dos clubes mais a norte, para a Liga NOS, é opção privilegiada. Estamos a falar de um espaço de última geração convertido em “elefante branco” por megalomania estatal (explica um pouco a desgraça em que estamos, por reflexo), desenhado por um dos rostos mais conhecidos da Arquitectura nacional, o Arq. Taveira (ainda que por motivos que não o das obras) e que garante receitas aos clubes mais pequenos que jamais sonhariam vir a ter.
      A verdade desportiva é um conceito muito relativo, nomeadamente para Rui Santos. Aliás, tive, durante bastante tempo, respeito intelectual por ele até à forma dual com que nos caracterizou no ano passado, especialmente ao comparar “os últimos trinta anos” ao ano passado, de forma hábil. Para mim, com todo o respeito, caro João, não há deturpação de verdade desportiva alguma, tão somente porque o clube privado do uso das suas instalações lucra ainda mais com isso, prejudicando apenas não a si, mas àqueles que, longe estando, não podem deslocar-se para ver a sua equipa.

      Quanto à Madeira, estamos de acordo! Talvez uns estágios possam ajudar a ultrapassar aquela desgraça, desde que o nosso campo de treinos não seja o de clube algum de primeira liga nacional (imitando o comportamento inverso do Marítimo que treinou, no passado ano, no campo de treinos do benfica…). Isto sim, é verdade desportiva! 😀

      Obrigado pelo comentário, imbicto João!

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      1. Caro Imbicto.

        Eu não tenho qualquer respeito intelectual pelo Rui Santos (pois ele não o merece) mas neste caso ele está completamente correcto!

        O caso que referes acima é completamente diferente pois a mudança de Estádio de um Paços dentro de Portugal, não vai nunca beneficiar uma equipa de um país terceiro, pois a nível de deslocação é exactamente igual à massa adepta visitante.

        Ao fazer isso dentro de Portugal, está a beneficiar efectivamente a equipa adversária, pois além de estar a jogar num campo de dimensões diferentes daquele que treina ainda cede os adeptos ao adversário.

        Tal e qual como disse acima, se joga um jogo nessas condições então tem de jogar TODOS os jogos na mesma situação, caso contrário não em condições para atuar na Liga.

        Para mais, o caso do Arouca ainda é mais paradigmático, pois o Arouca foi jogar em Aveiro para ganhar mais dinheiro e nada mais… O Estádio Municipal do Arouca não está a sofrr quais-queres obras de reabilitação.

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      2. Imbicto João,

        Temos opiniões diferentes, a este respeito. Insisto que não vejo qualquer deturpação da verdade desportiva, pois os grandes terão todos o mesmo tratamento, mesmo tendo em conta que, contra outros clubes, o Tondela possa jogar em sua casa. Se assim não o for com o Porto, cá estarei para vir aqui e dar-lhe toda a razão, tendo-me equivocado.

        Quanto ao Paços, deixei bem claro que são causas diferentes.

        Imbicto abraço!

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      3. Caro Imbicto,

        As informações que eu tenho não são nesse sentido…

        As Informações que eu tenho são que jogar em Aveiro foi só contra o Benfica, mas cá estaremos para ver isso.

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