O colinho, o jogo jogado e os comentadores

Imbicto leitor,

Este artigo pretende tocar numa questão que não vejo abordada em praticamente lado algum. Ainda que haja muitas acusações de verificação comprovada acerca da forma tendenciosa com que muitos pseudo-comentadores analisam os jogos, há também um outro lado – o lado fiável e decente dessa “classe” -, que se dilui injustamente na corrente maioritária.

Ontem foi dia de jogo de um grande. Depois dos antecedentes e dos sinais de miséria futebolística que não se confinam ao relativismo das pré-épocas, era essencial perceber o que iria suceder. E foi curioso…

A receita estava lançada, por entre desesperos, SMS´s, declarações de força de um líder (Vitória) que pensa que sê-lo é irritar-se e afirmar constantemente que faz o que quer quando quer, numa insegurança transparecida dos pés à cabeça. O árbitro era, também ele, promissor; nada mais do que Tiago Martins (AKA “O internacional meteórico 1.0”). Cinquenta mil, ao jeito do major e jogo em casa.

Tudo, portanto, para que se adivinhasse o pior – fosse qual fosse o sentido da coisa…

Ora, quem viu o jogo percebeu, desde cedo, que está tudo na mesma (até a inércia da nossa estrutura). Se a coisa estiver enrascada, há erros humanos; há critérios; há paragens e cartões fora de lógica. Enfim… Há pressão. Pressão do jogo. Do ambiente. Há repetições a ver que, os do costume, nem com as imagens à frente admitem.

Já para quem não viu o jogo há o problema de sempre, neste país medíocre, e percebemos apenas que o clube “encarnado” ganhou confortavelmente nas circunstâncias verbalizadas da praxe, nos “quinze minutos à Benfica” e no ir de braços desesperado a Rui Vitória. Aqui, ninguém viu circunstâncias, desenvolvimentos, táctica, psicologia, desespero estampado em caras de jogadores antes da meia-hora – levantando compulsivamente adversários lesionados, enquanto os próprios se lançavam ao chão nessa tradicional “insustentável leveza do corpo”. Ninguém viu a lição do que não fazer aos setenta e qualquer coisa minutos, por parte do treinador do Estoril que, tacticamente e factualmente, perdeu ali o jogo, no tal “jogo jogado”.

É aqui que se abre um mundo novo: o do comentador. O problema é que há dois tipos de comentador. Tal como na política, ou no comentário económico, há os ex-qualquer coisa, que têm as maiores audiências ao fazerem de conta que não são tendenciosos, sabendo toda a gente de onde vêm e para onde vão; e há os “académicos”, gente da qual ninguém sabe coisa alguma de tendência, mesmo tendo-a, porque são Homens. E nesta última categorização há ainda uma subdivisão: os que se aproveitam desse estatuto para enviesar academicamente a questão e os profundamente honestos que, mesmo roendo a consciência continuam nessa tentativa hercúlea de ver através de um prisma distanciado.

Todos eles são alvo de acusação. Mas principalmente os últimos. Insinua-se tendência, porque tem de estar lá! Já nos outros, todos depositam o olhar e a atenção. Todos lhes querem ler lábios e micro-expressões. Todos dão o sinal errado a quem estuda audiência, investindo e reinvestindo no convite a essa estranha forma de comentar, tendenciosa.

Ontem, foi o dia em que um daqueles que considero dos mais honestos intelectualmente (mesmo tendo sido parte da direcção de um jornal que pouco o é para com o FC Porto), se insurgiu contra essa circunstância. Tudo porque António Tadeia cometeu o erro – se é que se pode dizer tal coisa – de tocar no tema Arbitragem, relativamente ao jogo do Sporting, quebrado o “critério” da igualdade de tratamento em relação ao jogo acima referido. Se, por um lado, há uma certa razão, pois ou se toca, mas faz-se de igual forma em todos os jogos (pelo menos dessa jornada); ou não se mexe no assunto, engolindo sapos e ficando-se no “jogo jogado”.

tadeia no facebook

Tadeia colocou-se numa posição ingrata. Ainda que os eventos sucedidos no jogo de ontem, na Luz, não tivessem tido a evidência escandalosa, não carente de repetição, dos de Aveiro (Tondela vs. Sporting), o objecto analítico era o mesmo. E nestas coisas, o povinho não perdoa.

Freitas Lobo segue um princípio semelhante. Só me recordo de tê-lo visto falar em arbitragens para se referir ao facto que não querer falar sobre elas, deixando a dica de Tadeia, nomeadamente em relação às novas tecnologias e à protecção do juíz da partida, que deve estar livre de pressão, pois, se erra nos jogos, ingenuamente (ou de forma politicamente correcta), alega o erro inevitável, por parte dos árbitros.


E aqui é que se cruzam todas as realidades: a arbitragem, o comentário desportivo e a incidência táctica – no tal “jogo jogado”.

É o “jogo jogado” que os mais sérios dizem querer analisar. Pois, há um problema de fundo: não é possível analisar o jogo jogado sem tocar no evento arbitral por uma simples razão, a da inevitabilidade de ignorar o princípio da continuidade, da proporcionalidade e da inter-dependência do eventos e circunstâncias.

Os eventos não são causas, ou actos isolados. Cada pontapé para um local específico no campo desencadeia acções, sentimentos, reacções, raciocínio, emoção, psique, memórias, mecânica e física. Não podemos isolar o acto polémico numa espécie de “Utilitarismo de Mill” convertido para o futebol, com a finalidade de promover o bem-estar geral. Este “julgamento moral” discricionário é nobre, mas traz consigo consequências envoltas na incoerência do reflexo a posteriori de acções promovidas a priori. É como querer romper com a lógica do silogismo, fazendo com que a conclusão do mesmo seja impossível. Trata-se, quase, de querer reinventar as bases clássicas da Filosofia.

Entendo o exercício feito. Mais do que falar do “jogo jogado”, os comentadores sérios tentam preservar a sua integridade intelectual ao não tocar no fracturante e na potencial filiação clubística, alegando que o futebol só tem a ganhar com isso, reconhecendo, curiosamente, que a interdependência dos eventos e das acções num jogo existe sempre que, por exemplo, alguém falha um penalti, ou se apercebe em directo que o mesmo existia de forma clara, mas, quiçá, em algumas circunstâncias, de difícil análise sem repetições, devido à localização dos árbitros, ou à sobreposição de silhuetas, dizendo que não sabemos como seria o jogo se essa grande penalidade tivesse sido convertida, ou marcada, pois o jogo seria diferente a todos os níveis.

A verdade é que, depois de um lançamento mal assinalado, depois de uma simulação assinalada, depois de um penalti inexistente, depois de um livre marcado alguns metros fora da acção provocada que dá golo, depois de um cartão que deveria ter sido mostrado, ou depois de um cartão que se mostrou mal, o jogo jogado não faz sentido ser comentado com esse distanciamento. Tudo porque uma causa leva a uma consequência. E seja ela séria, manhosa, propositada, ou inocente, o futebol e a consequência dessas acções, não mais serão os mesmos. Especialmente quando o objecto de apreciação e os sujeitos são sempre os mesmos…

Agradeço a honestidade, mas “de boas intenções está o inferno cheio”. Principalmente o da Luz… E assim, em nome da protecção do futebol e da paz social, defende-se inconscientemente as causas que levam a que esse “jogo jogado” seja o que outro deveria ter sido, pois só analisam a consequência, sem querer. Mas uma consequência que todos vêem; por ser real, dando como efectivo contabilisticamente somas de golos, ou pontos que não correspondem formalmente à materialidade dos eventos.

Não se trata de acto persecutório. Ignoremos as circunstâncias isoladas, então! Não olvidemos é a incontornável evidência da dualidade criterial, sempre onde e quando sabemos que acontecerá…

Que venham essas tecnologias de forma a minimizar o impacto subjectivo do ser humano, dando a dignidade da máquina que um Homem não a sabe ter, quando faz mal o seu trabalho, de apito na boca.

Imbicto abraço!

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4 thoughts on “O colinho, o jogo jogado e os comentadores

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