Ciclismo | A Volta e o papel do FC Porto – Parte I

Imbicto leitor,

Bom, confesso que este artigo me dará um gozo particular…

Todos já devem ter calculado que sou um adepto doente do FC Porto – ou não fosse o tempo que levo a escrever-vos justificação para tal. Mas mais do que adepto do FCP, o que me faz ser adepto do Imbicto clube é mais do que o futebol em si. Há duas razões essenciais pelas quais me devoto ao Porto: o meu gosto pelo desporto e o facto do clube ser uma arma de afirmação identitária (pelas razões tantas vezes aqui invocadas) e que, para quem está nos locais mais confortáveis dos desvios de poder e de fundos, soa a vitimização e a “complexo”. Pois, venham para cá morar um ano que seja! Estão convidados…

Muitos já não se lembrarão, mas não foi só o basquetebol que acabou no clube, ainda que retomado com outra designação colectiva, nos últimos anos. O ciclismo fez parte da nossa história riquíssima, desde a pista do Lima às pistas iniciadas pelo acrónimo “EN”. Somos o clube de maior sucesso no panorama nacional neste desporto, no que à Volta a Portugal concerne, tendo, inclusivamente, pouco tempo depois da fundação da modalidade pela nossa casa, terminado a tal prova com cinco marmanjos nos cinco primeiros lugares.

fcp lima

Ciclistas do FC Porto acolhidos no Estádio do Lima, depois da conquista da Volta


Não podemos dizer que o ciclismo era, apesar do sucesso e dos nomes de vulto que teve (Chagas, Zeferino, etc), por cá, o nosso “core” e que ocupasse a semiótica dos logótipos, como noutros exemplos mais a sul; não podemos, tampouco,  dizer que é constante, até porque começámos bem depois dos outros, quando a imposição centralista já tinha habituado o “gado” a escolher um dos da capital, terminando nos idos dos anos oitenta. Afinal de contas, as sementes que hoje vemos sob a forma de galho, foram bem lançadinhas… Foram cerca de quarenta anos saudosos. Foram. E seria bom que voltassem a ser…

E por quê, hoje, este artigo? Bom… Como sabem (ou não), a Volta a Portugal terminou ontem. Sim, é verdade. Terminou onde se impõe – pois claro e nada contra isso, sem cinismo. E terminou sem glória.

No meio do barulho e da poeira levantados pelos responsáveis da Volta a Portugal, nomeadamente pelo director da prova, o ex-ciclista (e dos bons), Joaquim Gomes, bem ajudado pelas equipas, mas mal divulgado pelos media, saltam à vista declarações em tom de certa gravidade, na mesma proporção da mesma certa razão. Não é grave de todo, assim como, Gomes, não tem razão, pelo todo. E passo a explicar, através de algumas das declarações que fui lendo e ouvindo, um pouco por todo o lado, sem me lembrar da maioria dos responsáveis, até porque, ou não os conheço, ou foram repisadas por muitos, até pelo povo em alvoroço…


“Grande Volta a Portugal esta, lá no Norte e Centro…”

Bem, começar assim até faz buraco. Tudo o que inicie uma caracterização ou opinião pela expressão: “lá no…“, tem pejorativo no meio. E pejorativo da discriminação ao mais alto grau. E quem caracteriza assim a Volta, também o faz com o Rali de Portugal.

A Volta não vai para baixo – ou melhor, “saiu de baixo” – por inúmeras questões essenciais. Em primeiro lugar, uma questão de competitividade. Quem percebe o mínimo de ciclismo sabe que contagens de primeira categoria não são o mais indicado do Montejunto-Estrela para baixo – mesmo tendo em conta Monchique e Caldeirão. E ainda que seja apologista de uma Volta no seu sentido mais literal, a verdade é que teríamos uma de duas opções: ou fazer deslocar meios e pessoas através de transporte alternativo, para etapas alternadas a centenas de km de distância, ou prolongar a duração da Volta. Qualquer um destes cenários acarreta custos (e que custos), como poderão compreender, para além de retirar a prova do calendário aconselhável para a sua realização. É que não estamos nisto sozinhos. Lá fora também há provas e é assim que se gere direito televisivo com participação e orçamento das equipas, hoje em dia, com graves dificuldades para participarem em provas secundárias – ou terciárias, como a nossa.

mapa relevo

Mapa com o relevo nacional, para quem já se esqueceu do que se dá na Primária…


A geografia é, portanto, um elemento essencial na preparação de uma competição deste género, garantindo mais competitividade, mais imprevisibilidade, cenários menos monótonos do que um chaparro e 100km de erva seca por cada 5 de verdura onde anda o público – por muito respeito e por muita fama e mérito que as terras algarvias têm direito.

Portanto, há escolhas a fazer. E quando temos a prestigiadíssima – mais do que a própria “prova rainha” – Volta ao Algarve, não há dúvidas, até porque a sul há já um grande evento onde participam grandes nomes do panorama velocipédico mundial, como forma de preparar as grande voltas. E isto tudo tem que ver com timing, com o clima, com logística e com o perfil das etapas e duração das mesmas.

Portanto, deixem “os gajos lá do norte” com o “brinquedinho”, ou nem a isso temos direito? Já nos tiraram quase tudo; deixem-nos o quase, pelo menos, ou é preferível olhar com outros olhos para a Galiza, retribuindo-lhes o carinho que nos merecem a mais?


“Fico indignado com as primeiras páginas dos desportivos recheadas de azeiteiros”

Este é outro argumento válido, mas sem conteúdo – o das capas, não o dos azeiteiros. Embora Joaquim Gomes tenha razão – na questão dos azeiteiros, não nas capas -, há-os em todo o lado, seja no futebol, no andebol, no ciclismo e até no ténis e na vela; em todo o lado há um azeiteiro, nomeadamente na Europa meridional, ou, pelo menos, azeiteiros aspirantes a virgem-extra, ou a premium. A questão não está nem deve estar na azeitice e nas castas que, subjectivamente, caracterizamos como “imerecedores” do louro em cabeça escorregadia; a questão está na pertinência e no valor real da Volta.

joaquim gomes e a azeitice

Joaquim Gomes e a azeitice que chateia todos, mesmo os que não percebem que eles próprios o são (não, não estou a falar de ti, Joaquim…), in Mais Futebol (clicar na foto para ler a notícia)


Independentemente da ideologia, a não ser a das bacocas que ainda não perceberam que estamos num mundo a sério e não numa praxis de verborreia dogmática à esquerda e à direita (e até ao centro…), um produto tem valor e gera retorno quando: é escasso, é de qualidade, é viral, ou alcança públicos determinados que dependem do tipo de pessoas que vêem a prova – ou seja, quando traz de volta em ganho mais do que se perdeu. Ora, é difícil pensar ao contrário e achar que a Economia é uma ciência moldável ao estado de espírito ou à conveniência que controlamos com a nossa vontade. É que se queremos isso, estamos no espaço e tempo errados, num problema anacrónico e comum a todos os sectores sociais, ou modalidades – já que falamos nisso…

Não é, portanto, protesto no mesmo grau e com a mesma pertinência daquele que nós, portistas, exigimos aos jornalistas generalistas e, principalmente, desportivos. Aqui, ainda que se aceite maior predominância de alguns por razões maiores (literalmente), é mesquinho que se abafe, ou “esqueça”, conquistas, ou factos.

A Volta a Portugal coincide com a Volta à Polónia e à Dinamarca e com mais alguns “Criterium” e provas de dias que tapam a possibilidade, tanto de ver grandes nomes por cá, quanto de ter retorno televisivo internacional, já que o nosso mercado é ridículo e não se pode basear, apenas, na quantidade crescente de praticantes de ciclismo que se andam a armar em híbridos por essas estradas e passeios, em grupinhos e com fatiotas francamente parcas para o tamanho do que ali em cima vai. Pior! O Tour acabou há pouco e o que se pretende agora é recuperar forças para a Vuelta, mantendo o ritmo competitivo, mas numa escala transitória. Ainda que a Volta à Suíça e os “Criterium” intercalares entre o Tour e o Giro sirvam para isso, de nada nos vale aspirar a fazer o mesmo relativamente à Vuelta, devido a factores como: o clima demasiadamente castigador, o calendário demasiadamente apertado, a periferia geográfica e os prémios de prova anedóticos, por não haver patrocinadores que financiem grandes nomes para lá do cachê da vinda.(a corredores ou equipas). Ora, sendo isto uma “pescadinha de rabo na boca”, o retorno só se dá com nomes e os nomes só chegam quando há pertinência, ou massa a valer – veja-se o exemplo futebolístico e o contraste entre a presença de FCP e SLB na Champions Cup, com as respectivas implicações a posteriori

Voltando ao assunto e à razão da indignação que não pode sair da frustração de Joaquim Gomes, infelizmente, é por tudo isto que a prova não aparece em lado algum. Mais ainda, por ser patrocinada exaustivamente como prova histórica da televisão pública, onde até o hino oficial diz RTP na letra – e nenhum outro canal quer, ou deve, fazer esse tipo de publicidade gratuita, assim como não o faz ao Festival da Canção, comparando modelos semelhantes de uma mentalidade um pouco “à antiga senhora”. A Volta a França (Tour), é um bom “case study” da ligação umbilical entre meios de comunicação (L´Equipe) e a prova, com a distribuição de direitos da mesma.

Resumindo, não há condições para exigir mais do que aquilo que o mercado – ou seja, as pessoas que se comportam de forma agregada e não isolada, na soma das suas acções, informação, decisões e necessidades – pode dar, por muito que nos custe, ou estaríamos a fazer uma mera apologia de um desígnio promotor do que se considera mais importante ou pertinente a bem da sociedade, que fez (e ainda faz…) escola nos regimes totalitários (ou incompetentemente aspirantes a isso). Só assim, ou comprando espaço em jornais através de financiamentos privados – o que compromete altamente códigos éticos, deontológicos e democráticos de acesso à informação – é que seria possível ignorar que o Zé, o António, o Duarte, ou o Albuquerque – azeiteiros, ou gajos do caviar -, compram mais se falarem sobre o futebol do seu clube, do que de qualquer outra modalidade (sendo elas do seu clube, ou não).

E não, nada disto tem que ver com indivíduos apanhados com coisas estranhas na urina. Não há desinteresse por isso, nem a causalidade é proporcional à quantidade de pessoas que, simplesmente, não querem saber da Volta a Portugal para nada, a não ser nas subidas à Assunção, à Torre, ou à Srª da Graça, ou quando passam à porta de casa… Tem, simplesmente, que ver com “prioridades” das que vendem mais, ou das que não permitam fazer publicidade gratuita a quem não pagou para tal.

Perdoemos Joaquim Gomes, pois o desespero que tem em mim uma certa fraternidade (não concordância), fá-lo dizer coisas que querem romper com o mais óbvio dos pensamentos por parte de quem tem o poder de compra e, logo, de valorizar, ou não, uma marca.

Não há nada a fazer, a não ser repensar a sério todo o modelo, sem complexos, ou preconceitos. É que, afinal, tudo isto é uma questão de competitividade – seja ela financeira, ou desportiva.

Imbicto abraço!


P.S.: Fica a faltar uma segunda parte relativa ao FC Porto e ao seu papel, ou potencial papel, no ressurgimento do ciclismo como modalidade que gira competitividade e interesse, bem como da vantagem que seria esquecer o instinto primário e repensar o modelo da Volta, ou incluindo-o na Volta a Espanha, à semelhança do Tour, com os exemplos da Holanda, Bélgica, ou Reino Unido.

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