Pinto da Costa: uma facada com prestígio (análise da entrevista ao El País)

Imbicto leitor,

Li há pouco a entrevista que Pinto da Costa deu ao jornal El País, um generalista espanhol com repercussão de leitura global, nomeadamente no mercado ibero-americano. Aos poucos, o FC Porto vai aproveitando o embalo Casillas para se projectar além-fronteiras, numa perspectiva ainda mais mediática do que aquela a que o estatuto do clube conquistou nos últimos trinta anos, com o precioso contributo da liderança “férrea” de Pinto da Costa (NGP/PdC).

Entre outros destaques, a caracterização do nosso cube é feita segundo o chavão propalado dos aspectos badalados do mercado e da conquista, não tendo, ainda assim a entrevista, servido para revelar mais do que uma tentativa de fazer uso dos meios para mandar recados e dar facaditas – mas com prestígio e alcances globais, de pressão inevitável para o nosso “futebolzeco” dos poderzinhos.

Aconselho-vos a leitura da entrevista antes de lerem o artigo, uma vez que o mesmo pressupõe essa eventualidade, sem querer ser mais uma simples reflexão recalcada do copy/paste conveniente. Vamos lá então ao essencial, tentando dar-vos a minha perspectiva que não será, certamente, a tua. Perdoar-me-ás por isso, estou certo!


O statement de poder

PdC é perito na manobra mediática. Tradicionalmente, utiliza o veneno dos meios de comunicação (anti)social nacionais para fazer reverter feitiços contra quem os envia em primeiro intento. Pode até ser por já estar a borrifar-se para isto tudo e para o que pensam dele; afinal de contas, o presidente do FC Porto já conquistou meritoriamente o seu lugar na história do futebol, não só pelo record que detém, ao ser o mais antigo presidente de um clube de futebol em actividade, mas por deter ainda a preciosa marca do dirigente que mais conquistou, nesses mesmos anos. Afinal de contas, quer queiramos, quer não, o sucesso do FC Porto cruza-se com a liderança do NGP.

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Falo essencialmente da forma. O vídeo em que intervém PdC é interessantíssimo, do ponto de vista gráfico, simbólico e cénico. Uma estrela azul sob fundo negro envolve a atenção que se dá ao protaginista, numa espécie de insinuação da mística e conquista daquele sujeito que fala um “portonhol” (sim… sotaque espanholado com tripeiro) duvidoso, ao estilo de sotaque portuense (uma das suas variantes) carregado de Siza Vieira. E isto, de tão castiço que é, incomoda-me. E incomoda porque o idioma é, desde sempre, um statement de poder que não foi aproveitado e que teria sido minimizado se o NGP tivesse tido a noção de que isso é sempre importante – coisa estranha vinda dele, um homem que tantas vezes mistura e aproveita (e mal) o seu posto para fazer declarações políticas. É distractivo. E chega a ser quase ridícula esta maneira de ser aportuguesada de agradar a todos, relegando a nossa posição de força para uma certa “subalternidade” latente. Ainda que não seja o caso, não gostei de ver misturado um “castelhano” de “sótáquê” com léxico italiano, num mau exemplo do que é a “tabela dos falsos amigos” usada entre idiomas, prontamente traduzido pelo jornal. E isto é patético.

Mais valia que PdC tivesse feito uso do seu português, que ainda por cima é cultivado. É que, desde sempre, no modo de convivência, negociação e entrevista, a língua é um elemento fundamental na afirmação da cultura e do homem.


Casillas e as transferências “caras”

A entrevista começa a aprofundar-se com a contratação de Casillas. Como seria de esperar, PdC não dá ponto sem nó e acredito que não esteja a ser inocente toda esta abordagem “melosa” à contratação do guardião espanhol. Creio que existe uma dupla intenção nas palavras do presidente e que vão de encontro, tanto à sua dimensão como presidente em relação aos demais pares, quanto à dimensão desportiva e de pressão intrínseca que coloca sobre Casillas e a obrigatoriedade de fazer o que sabe sem relaxar, depois de todo o apoio que tem sentido. Pinto da Costa aproveita ainda o embalo do desbocado agente do guardião que começa a perder a graça de tanto nas vistas que começa a querer dar com o processo madrileno do seu agenciado. Casillas começa a formar-se como o exemplo daquilo que se projecta como incontornável capitão do FC Porto a curto prazo, colocando nos ombros dele a incumbência de “pagar” todo o apoio e estabilidade que o clube e a cidade trarão na recuperação do melhor guarda-redes do mundo.

Mas não fica por aqui. PdC aproveita subtilmente para evidenciar as qualidades do FC Porto como clube formador de homens e profissionais, mais do que um simples empurrão de passagem para quem quer fazer o transfer de um mundo desportivo pouco competitivo para o topo mundial. Os exemplos que dá de James e, essencialmente, de Pepe, evidenciam essa intenção, nomeadamente quando se relativiza com mestria o factor investimento/ aproveitamento desportivo. Só é pena que tenhamos um caso interno que demonstra o contrário, mesmo que ainda não se tenha pago um cêntimo da tal metade do passe de que tanto se especula e aproveita para lançar areia aos olhos do gado – até ver…

Um jogador caro é, de facto, o que não rende. O NGP esteve exímio neste capítulo.

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Entrevista de Pinto da Costa, in El País


O estatuto do treinador do FC Porto

Não raras vezes, lembro-me de uma entrevista que Pinto da Costa deu a Fátima Campos Ferreira, após a segunda época, com números impressionantes, de Vítor Pereira como treinador principal, onde foi questionado com a seguinte pergunta: “No FC Porto, qualquer treinador arrisca-se a ser campeão?”, numa clara alusão à tal mítica estrutura e aos mecanismos de automatismo da mesma em projecto coeso e ganhador. A verdade é que, a partir desse momento, uma espécie de maldição tomou conta do clube desmentindo isso mesmo, principalmente a coesão daquela e o modelo desportivo do FC Porto.

Este foi o ponto que mais me desiludiu na entrevista. Confesso que não gostei da forma como PdC insinuou o demérito de Villas-Boas, ou até de Jesualdo, numa equipa que, aparentemente, só tem sucesso dispensável de treinador com grandes nomes. Mas de facto dá que pensar, esta observação… Seria outra facada ao Real? Ou seria. simplesmente, uma facada a Villas Boas, um futuro “presidenciável” contra Antero?

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Pinto da Costa sobre os deméritos dos treinadores, in El País


É, de maneira curiosa, uma forma de demonstrar a dimensão do FC Porto como um clube global e que merece jogadores de primeira linha. É um clube onde passaram grandes referências em todas as dimensões – desde o dirigismo, passando pelos corpos técnicos e terminando nos jogadores. Estamos perante a afirmação do ego de PdC, com toda a propriedade, responsável pela metamorfose de Mourinho, pelo culto de Robson, pelas conquistas de Villas Boas e Artur Jorge e pela projecção por provar de Lopetegui.

Aliás, Lopetegui é tratado de uma forma quase endeusada. O actual treinador do FCP é alvo dos mais distintos e implícitos elogios numa espécie de regresso ao passado, onde a estrutura sustenta e apoia incondicionalmente o seu homem do leme táctico.

Creio que se dá uma afirmação clara de que este FC Porto é uma distinção que se deve fazer dos Ajaxes, Marselhas Anderlechtes dessa Europa. É um clube que o presidente tenta colocar a par dos de primeira água por variadíssimos e pertinentes factores, onde o risco não o é em si, mas sim numa aposta inteligente e pensada sobre o rendimento e aproveitamento desportivos traduzidos em conquistas nacionais e internacionais. É um modelo único, com as suas questões dúbias, mas ao qual não se pode atribuir factores menores.


Do homem à circunstância

PdC não teve medo de referir os processos de que foi alvo. Assumiu, demonstrou que foi julgado e inocentado, em primeira e última instâncias judiciais. O facto é que aconteceu, ao contrário do que tem vindo a suceder na impunidade descarada em relação a situações à vista de todos. E, uma vez mais, PdC esteve muito bem ao cruzar durante a entrevista esse facto com o insucesso do FC Porto e de Lopetegui, na época passada.

Alguém acha, que depois disto e da chegada de Casillas, continuará a haver o mesmo “modus operandi” por parte dos do costume, com todos os olhos cá postos?

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Pinto da Costa e as “externalidades”, in El País


Messi vs. Ronaldo

Mais estratégia. Real, Barça e Fernando Santos na mesma boca. Para Pinto da Costa, “Messi é de outro planeta”, enquanto Ronaldo é o melhor do mundo. Puxem lá pela cabeça e vejam onde quer chegar, para lá de jogar em dois tabuleiros, estrategicamente, em Espanha e nas relações em relação aos dois clubes…

Resumindo, uma entrevista interessante, a capitalizar o destaque que Casillas trouxe e que é comparável a uma grande conquista desportiva. Muito interesse, mais observância e mais mérito a um clube que depois de tanto lutar para conquistar um lugar mais que regional no panorama português, começa a trilhar a mesma luta, mas catapultando o nome do FC Porto como mais do que um simples underdog no panorama global.

Imbicto abraço!

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8 thoughts on “Pinto da Costa: uma facada com prestígio (análise da entrevista ao El País)

  1. Uma entrevista interessante ,mas com algumas tiradas ao lado,nomeadamente o ataque aos ex-treinadores, sobretudo AVB.
    Percebo a sua intenção de defender e elogiar Lopetegui, é isso mesmo que um presidente deve fazer,mas ao usar ex treinadores vitoriosos do Porto,faz um fraco serviço a Lopetegui.
    Faz igualmente uma critica a equipa, e consequentemente á estrutura que escolheu a equipa e que já não tem capacidade para escolher jogadores como Hulk, James, Moutinho. Uma declaração ao lado, na linha da de Maxi ser jogador á Porto, Jackson vai para o Milan ou só os burros falam de árbitros e que estes eram uns heróis, viu-se o ano passado.

    Quanto ao resto, concordo e gostei da entrevista e da forma como se aproveitou a vinda de Casillas para se aumentar o destaque em Espanha.

    PS-O Porto neste século esteve sempre um patamar a cima dos Ajax,Marselhas, Anderlech . Leio algumas vezes pessoas a afirmar que agora o Porto vai ser grande na Europa, que vamos ter destaque, que a chegada aos 1/4 da LC foi um marco, etc ..Por vezes ao ler isso até me esqueço que somo bi campeões europeus e mundiais, o clube com mais titulos neste Século, Se agora é que vai ser, agora é que vamos ser grandes, então espero ver muitas finais europeias do Porto na próxima década.

    Abraço

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    1. Imbicto Pedro,

      De acordo. Uma entrevista interessante e pertinente, mas com tiradas dispensáveis…
      Não sei o que será deste “novo” FC Porto, mas espero que não importe grande parte dos erros e tiques das grandes potências europeias – factor que
      descaracteriza a cultura de vitória e de estabilidade, nomeadamente em relação ao conceito de identidade.

      Imbicto abraço!

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    1. Imbicto LAeB,

      Não estás a ser injusto, meu caro! É um facto e foi propositado.
      Enquanto vejo um presidente com os seus méritos a catapultar um clube num órgão de comunicação de alcance global com o embalo de Casillas, ao mesmo tempo que o vejo a mandar cacetadas a quem fez o que pode, com o maior profissionalismo e é desacreditado por questões pessoais, ou por falta de discernimento, claro que tenho de me sentir dividido.
      Resumidamente, faço uma divisão entre a utilidade de clube e de uso do mesmo para “politicar”. E isso sempre foi o que mais de desagradou em Pinto da Costa. Nunca separou a sua opinião e ataques das suas funções. E isso é um grande defeito e motivo de incómodo – pelo menos da minha parte, ou da parte daqueles que não concordem com as tendências partidárias, ideológicas, políticas, ou relacionais, de PdC.

      Espero ter esclarecido o “cravo e a ferradura” onde dei simultâneamente, de forma voluntária!

      Imbicto abraço!

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  2. Serei até ao fim da vida um ” pintocostista” porque o pai e a mãe ensinaram-me que a gratidão é um sentimento nobre, altruísta e de gente bem formada. No entanto nada me impedirá de apontar erros, desconsiderações e faltas de respeito que foram as atitudes, por mim detetadas, na entrevista concedida pelo NGP aquele órgão de comunicação. Vítor Pereira não merecia, já Villas Boas teve o merecido. De resto, normal, ou seja, saber cavalgar o momento.

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    1. Imbicto Ega,

      Mesmo no caso de Villas Boas, pese embora o facto de ter saído da forma como saiu, tal facto não apagará o que fez à frente da equipa. Creio que são dimensões diferentes. E, neste caso, Pinto da Costa foi concreto ao insinuar mais ou menos competência dependente da equipa.

      Não esqueçamos ainda que todos esses nomes não eram ainda os vultos que são hoje. Alguém moldou e poliu o talento – caso contrário, teriam tido outro destino, antes de pisarem solo nacional…

      Imbicto abraço!

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  3. Gostei da entrevista e acho que foi bem conseguida, um pouco talvez exagerada na parte de endeusar Lopetegui, mas como é espanhol.. Entende se. A parte que não entendi qual a lógica foi quando falou em ter tido 10 processos e ter sido ilibado em todos. É verdade que o foi, mas porquê falar em 10 processos quando os processos a que o entrevistador se referia foram apenas 2? Referiu também os processos causados por Carolina com as calúnias de agressões coisas do género, achando eu que não seria necessário.

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