O enforcado “por Gil Vicente”

Imbicto leitor,

Impertinência pertinente esta, a minha, de te encher com estórias de paralelismo assustadoramente perfeito, como esta, de Midas, que tudo transforma em ouro.

Depois da Antiguidade, bem dos idos da Idade Média, Gil Vicente escrevera o conto pelo qual passaria Maxi, em alegoria de um misticismo que é estranhamente paradoxal em nós, portistas, ao recebermos o indivíduo.

Pois bem… O Auto da Barca do Inferno é curioso. Por entre personagens e vontades, o exemplo aqui vem da cena XI (“curioso número” 1 e 1 são 2…). Eis o “enforcado”: ladrão condenado à forca pela Justiça, de fios ainda pendentes ao pescoço e que se convence de um destino celeste ao mudar de ares. Embarco, ou não embarco? – pensou ele, sugerido pelo Diabo e persuadido por Garcia Moniz, Mestre da Balança da Moeda de Lisboa, de que teria um bom fim, após anos de purificação. Porém, não havia nada a fazer. Reconhecido, entregou-se à evidência de que estaria perdido e sem perdão possível por tudo o que fez e disse…

Curiosamente, uma peça escrita por Gil Vicente, o clube que evidenciou o lado mais impune e inverificável por cá, no #colinho dos foras-de-jogo.

maxi pereira enforcado


Eis o texto original, in Auto da Barca do Inferno – Cena XI, O Enforcado:

Vem um homem que morreo enforcado, e, chegando ao batel dos mal-aventurados, disse o Arrais, tanto que chegou:

DIABO
Venhais embora, enforcado!
Que diz lá Garcia Moniz?
ENFORCADO
Eu te direi que ele diz:
que fui bem-aventurado
em morrer dependurado
como o tordo na buiz,
e diz que os feitos que eu fiz
me fazem canonizado.
DIABO
Entra cá, governarás
atá as portas do Inferno.
ENFORCADO
Nom é’ssa a nau que eu governo.
DIABO
Mando-t’eu que aqui irás.
ENFORCADO
Oh! nom praza a Barrabás!
Se Garcia Moniz diz
que os que morrem como eu fiz
são livres de Satanás…
E disse que a Deos prouvera
que fora ele o enforcado;
e que fosse Deos louvado
que em bo’hora eu cá nacera;
e que o Senhor m’escolhera;
e por bem vi beleguins.
E com isto mil latins,
mui lindos, feitos de cera.
E, no passo derradeiro,
me disse nos meus ouvidos
que o lugar dos escolhidos
era a forca e o Limoeiro;
nem guardião do moesteiro
nom tinha tão santa gente
como Afonso Valente,
que é agora carcereiro.
DIABO
Dava-te consolação
isso, ou algum esforço?
ENFORCADO
Com o baraço no pescoço
mui mal presta a pregação…

ele leva a devação
que há-de tornar a jentar…
Mas quem há-de estar no ar
avorrece-lh’o o sermão.
DIABO
Entra, entra no batel,
que ao Inferno hás-de ir!
ENFORCADO
O Moniz há-de mentir?
Disse-me que com São Miguel

jentaria pão e mel
tanto que fosse enforcado.
Ora, já passei meu fado,
e já feito é o burel.
Agora não sei que é isso.
Não me falou em ribeira,
nem barqueiro, nem barqueira,
senão – logo ò Paraíso.
Isto muito em seu siso.
E era santo o meu baraço…
Eu não sei que aqui faço:
que é desta glória emproviso?
DIABO
Falou-te no Purgatório?
ENFORCADO
Disse que era o Limoeiro,
e ora por ele o salteiro,
e o pregão vitatório;
e que era mui notório
que aqueles deciprinados
eram horas dos finados
e missas de São Gregório.
DIABO
Quero-te desenganar:
se o que disse tomaras,
certo é que te salvaras.
Não o quiseste tomar…
– Alto! Todos a tirar,
que está em seco o batel!
– Saí vós, Frei Babriel!
Ajudai ali a botar!


Imbicto abraço!

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One thought on “O enforcado “por Gil Vicente”

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