Midas: quando a realidade se cruza com a mitologia

Imbicto leitor,

Sabes que sou um gajo descontraído. Um pouco em demasia, até. Portanto, não esperes que seja muito severo ao estabelecer paralelismos curiosos entre o verdadeiro e o aspirante. A minha memória do conto também já não será a melhor e, por isso, meu caro, perdoa-me qualquer exagero ou imprecisão que não será, com toda a certeza, assim tão grande.

A verdade é que a coisa dá-se lá para os lados da Turquia actual, mais precisamente na Anatólia – parte asiática -, onde uma circunscrição geográfica designada de Frígia metia nojo a muitos, desde Gregos a Assírios e que disputaria a hegemonia territorial durante anos e anos, levando-os, inclusivamente, a meterem-se em guerras que não as deles, como a de Tróia. E não falo dessa Tróia portuguesa, onde a guerra imobiliária faria bem mais sentido no contexto. Falo mesmo da Grécia Antiga, onde a porrada era constante, numa espécie de Liga de Clubes dos tempos da Antiguidade Clássica, onde aliados e traidores iam conquistando poder, votos e posições estratégicas. Enfim… Não muito diferente da Grécia actual, se virmos bem as coisas, sem contar com as limitações geográficas, políticas e culturais, está tudo na mesma; tudo dividido em terra de razão em que a falta de pão a ninguém traz razão.

Bá… Seguindo, o facto é que lá para os lados da Frígia havia um gajo com a p*** da mania que sabia tudo, que tinha tudo, que era o maior, a quem nada lhe chegava e que cortava cabeças melhor do que uns sarrafeiros que andam para aqueles lados, mas mais a sudeste.. Era um tal de Midas. Era rei. Dominava tudo e todos. Transformava, segundo conta a lenda meio inspirada no Aladino (ou terá sido o contrário?), tudo o que mexia em ouro.

Isto aconteceu depois de um parolo e bon vivant chamado Dionísio ter dado lá um saltinho – sim, as coincidências são mesmo assustadoras – e de ter ficado tão agradado com a simpatia do rei ao ter dado abrigo a alguém muito querido para ele, que lhe concedeu o poder que quisesse. Pá, era só pedir… Devia-lhe um favor…

Claro! Como o Midas era um gajo a quem nada lhe chegava, aquele tipo de pessoa que passava os dias a contar a massa que tinha e que não tinha e cuja ambição era de tal forma desmedida que lhe levou a pedir que pudesse transformar em ouro tudo aquilo em que tocasse… O deus do “forrobodó” disse: “é pra já!” e tumba!

Diz-se que Midas acordou todo maluco, no dia seguinte. “Bá, vamos lá ver se esta merda é mesmo verdade e se eu não estava a imaginar coisas”, pensou… Começa a tocar nas coisas que estão à volta e “pumba!”: ouro; toca na fruta e mais ouro; toca nas plantas e mais oirinho… Comida – “tau!”: oiro; nem escorregava na garganta quando comia… Pá, mas aqui é que a coisa começa a assustá-lo… Só podia cheirar ao longe as flores. Caso contrário, a flor tornava-se em ouro e não havia nem cheiro… Depois, claro, entram as crias pelo quarto adentro e… “Eh pá… Que esta merda começa a não ter piada nenhuma… Isto de transformar tudo em ouro ainda me vai tramar. E ainda por cima, tá a dar um estrilho do alho!”.

No meio da aflição e daquela ilusão de ter mais do que precisava (afinal tinha mais do que devia e podia), chamou de volta o deus da “suruba” que lhe concedera tal excesso de benevolência e agradecimento, e pediu-lhe para voltar a ser um gajo “normal”. OK. “Vai lavar as mãozinhas” ali abaixo e já tá! E com jeitinho, se conseguires lavar o resto das coisas que transformaste em ouro com a mesma água, talvez te safes e tenhas a paz de volta”.

E estava mesmo, segundo se diz. A estória acaba com o felizes para sempre e com a metáfora socialista da redistribuição, como sempre, embora nem todos partilhem com unanimidade o final.


Esta é a estória de Midas. Qualquer semelhança com a realidade é uma atroz coincidência. Reis, presidentes; deuses que concedem desejos, empresários; riqueza que não existe, empréstimo.

Não sei como vai acabar, mas acaba sempre da mesma maneira: mal. Pois já diz o povo: “Não há mal que tanto dure nem bem que nunca acabe…”.

A verdade é que Midas nunca deixou de ser assim: ambicioso. Demasiadamente e indecentemente. Nunca mudou verdadeiramente de natureza sem que fosse castigado. Curiosamente, ou não, há um outro episódio simbólico – juro que não estou a inventar! – em que essa mesma condição lhe custou umas valentes orelhas de burro. Uma coisa ridícula, mas é sempre nas coisas ridículas que ninguém pensa ou reflecte. Castigo, diz-se… E como não quero que me acuses de nada, porque não conheces isto devido ao “abafamento” característico, passo a citar uma parte de um artigo de um site onde encontrei uma boa descrição:

O rei Midas é também protagonista de outro episódio mítico muito conhecido. Havia uma disputa entre Pã e Apolo sobre quem produzia a música mais bela, se a flauta de Pã, se a lira de Apolo. Dos juízes chamados a escolher o vencedor, só Midas declarou que Pã era o melhor músico, pelo que Apolo, enfurecido, fez com que nascessem ao rei umas orelhas de burro. A partir daí, Midas procurava, de todas as maneiras possíveis, esconder os seus novos apêndices auriculares, ocultando-os sob diademas e coroas. Só o escravo encarregado de o pentear conhecia o seu segredo, mas estava, sob ameaça de morte, proibido de o revelar. O segredo era, todavia, muito pesado e difícil de guardar. Por isso, o pobre homem foi para um sítio isolado, fez um buraco na Terra, para dentro do qual sussurrou que o rei Midas tinha umas enormes e medonhas orelhas de burro. Depois tapou o buraco e foi-se embora. Dentro em pouco, nasceram uns caniços, nos quais o vento batia, produzindo som. E eles puseram-se a repetir o segredo – o rei Midas tem orelhas de burro – espalhando-o pelos quatro cantos do mundo. in olimpvs.net

Confirma-se, portanto, que nada nesta vida acontece por acaso. E que a História se repete, nunca muda…

Imbicto abraço

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2 thoughts on “Midas: quando a realidade se cruza com a mitologia

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