Marco

Imbicto leitor,

Nas últimas horas, para lá da confrangedora forma como o Porto Canal filmou a chegada de Casillas, fazendo lembrar os car spotters londrinos, num exercício ganho pela SIC N e pelas fontes de Nuno Luz, há um outro confrangimento que me tem tirado do sério: o comportamento de Marco Ferreira como ser humano; como homem de carne e osso.

A despedida de um homem despedido

Termina hoje a minha carreira de Árbitro, agradeço a todos as sentidas mensagens que recebi, foram muitos os amigos que quiseram deixar uma palavra de amizade, gente do futebol, da sociedade em geral desde a política até aos desconhecidos, a todos o meu muito obrigado… Dediquei 20 anos a esta nobre causa, sendo 9 deles no futebol profissional, abdiquei da minha profissão de 12 anos na Banca, dos meus amigos e até da minha família quando o dever chamava por mim, todas as minhas ausências eram compreendidas por quem gosta realmente de mim. Não me arrependo de nada, de nenhuma palavra que disse contra o “SISTEMA” enraízado. Saio neste momento não por deixar de gostar de arbitragem, muito pelo contrário, saio para poder ganhar a minha liberdade de expressão e acabar com as pessoas que destruiram e continuam a destruir anos e anos de conquistas que a arbitragem portuguesa alcançou. Tantas injustiças ao longo destes anos e não entendo como continuam a prestar vassalagem a incompetentes, todos se queixam mas infelizmente só o fazem no silêncio. O 25 Abril deu-nos liberdade, está na altura de perderem o medo, de levantar a cabeça e enfrentar as pessoas de frente, unidos venceremos e podem ter uma certeza, estarei na linha da frente como sempre estive nos momentos e nos sitios certos e se optarem uma vez mais em serem submissos façam-no de forma a que todos os dias consigam se olhar ao espelho e questionem, tenho orgulho em mim? Sou um bom exemplo para os meus filhos? Se a resposta for “sim” continuem que um dia os vossos filhos vão demonstar que estavam errados… Não saio por querer, levei um “cartão vermelho” por ter carácter, por ser sério e por não pactuar com injustiças, talvez estas infrações estejam este ano nas alterações às leis de jogo. Estudem bem para não seguirem o meu exemplo… bem hajam…“, Marco Ferreira


Estou sensibilizado. Confesso que estou. E de nada me adiantaria evidenciar e escrever a partir dos artigos dos Imbictos Jorge Vassalo e do LAeB se não tivesse uma grave discordância em relação a toda esta celeuma.

Vamos a umas questõezinhas prévias para desanuviar e aclarar o ambiente:

E se Marco Ferreira não tivesse sido despromovido?

E se Marco Ferreira não se tivesse já, há algum tempo, sentido apartado dos demais e da distinção da sua real competência?

E se Marco Ferreira fosse do “contenente”?

Marco Ferreira é um homem injustiçado à procura de razão e justiça, ou um homem frustrado à procura de vingança?


Vamos lá ver… Esta é a despedida de um homem sem solução, obrigado a isolar-se de um “sistema” onde, aposto, se não tivesse sido despromovido, não estaria a dar este tipo de demonstrações de impotência e raiva. Não soube de nada que este Sr. tenha feito para que as coisas mudassem. Não me recordo de posições públicas só iniciadas, de facto, quando se pressentia que algo iria acontecer quando deu esta entrevista à RTP Madeira, publicada no dia 27 de Maio deste ano. Mas isto foi muito tarde. Tarde demais.

E depois veio isto:

Depois disto


Marco Ferreira até pode ser o Gandhi dos árbitros. Até pode ser um gajo tremendamente justo e vertical. Até pode ter uma espinha dorsal mais forte do que a do Exterminador, mas a ideia que dá é que essa espinha só está em pé por causa de um colete ortopédico.

A resposta está nas perguntas que fiz e de nada adianta dar com a boca seja em que instrumento de sopro for quando não se sabe tocar. Pior, quando enquanto estava tudo em “banho-maria”, não houve a capacidade de questionar um “sistema” que tem anos e que já provou, por mais que uma vez, ser altamente adulterável através do mesmo argumento que, erroneamente e vergonhosamente, se utiliza para mudar as coisas: a da estabilidade emocional e protecção dos árbitros.

Todos sabem que isto dará em pouco mais que nada. Todos sabemos que haverá quem gostasse de ter a atitude do Marco. Muitos gostariam, presumivelmente, de fazê-lo antes do Marco. Muitos desejariam… Mas. Está tudo confortável. Está tudo bem, até o bem ir à vida.

Por tudo isto é que repito o que disse na caixa de comentários do Do Porto com Amor: “Não passa de uma mosca à espera que as 24H de vida acabem… Até lá, só chateia. É triste, mas é a realidade.”.

Isto é o estado natural das coisas. O estado em que a insurreição acontece quando o mecanismo da segurança e conforto próprio falham. O resto, já todos sabem e leram – seja nesta declaração, ou nos anais da História. E é pena, pois assim e sem que Marco Ferreira concretize mais e traga dados realmente relevantes, não passará de um homem perdido no meio do “sistema” do qual fez parte – consciente, inconsciente; voluntária, ou involuntariamente.

Perdoem-me, portistas e buscadores da verdade! Mas esta é a crua realidade que tanto me custa dizer… Este Marco, para mim, faz-me lembrar o Marco da RTP dos anos 70 e 80, onde a “mamã” é a carreira arbitral…

Marco Ferreira, vai em frente, alto e a bom som e prova-me que estou enganado, por favor! A “verdade desportiva” de que Rui Santos fala mas na qual não pensa, agradece. O futebol e a noção de justiça agradecem! Aí, sim, terás um artigo à altura do feito. Até lá, sem feito, nada feito. Serás mais um abafadinho engolido pela onda.

Imbicto abraço

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5 thoughts on “Marco

  1. É muito pertinente o grupo de questões que levantas, caro Imbicto.

    Quase de certeza que se não tivesse sido despromovido, não abriria a boca.

    Mas vendo as coisas ao contrário, e fazendo fé nas suas palavras, o motivo por que foi “escolhido” para descer de divisão foi o de não se calar… internamente. Ele diz peremptoriamente que nunca se coibiu de dar as suas opiniões a quem de direito, dentro do sector. Provavelmente foi-lhe fatal, a par com o “azar” de estar nas derrotas do slb e de ter tido de facto alguns jogos mal apitados.

    Nos outros árbitros, nota-se o incomodo pela má gestão do sector, mas nenhum quer arriscar a sua carreira. Uns são parceiros, outros coniventes pelo silêncio. É fácil compreender que só algum evento anormal poderia despoletar uma insurgência (estive a ver o filme hoje…). Veremos se terá força e coragem para dar seguimento, ou como prevês e o mais provável, desvanecerá sem deixar rasto.

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    1. Imbicto LAeB,

      Isso não sei… Não tenho acesso ao que fazem lá dentro. E, francamente, o que importa é que o diga cá fora – seja para efeitos efectivos de revelação, seja com pertinência jurídica.

      Repito: até pode ser bom homem e muito corajoso, mas nem foi no melhor tempo, nem é ainda o suficiente para me convencer…

      Imbicto abraço!

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