At the limit: Os amigos, as tempestades e os copos d´água

Imbicto leitor,

Ricardo Quaresma tem sido a cara mais reconhecida das últimas 24h, por entre portistas – o que deixa ainda perceber, nestas alturas, de que é que é feito um lagarto invertebrado, que assobia o jogador de cada vez que toca na bola… A verdade é que estamos em “silly season” e que a reacção dos adeptos, dos jogadores e da imprensa espelha bem essa convulsão sem sentido que se faz sentir, não raras vezes, impulsionada por quem quer ganhar com a instabilidade dos outros.

Os últimos dias têm sido ricos em episódios curiosos e sintomáticos. Uma série de reportagens, documentários e capas sobre o clube rubro da segunda circular têm criado a ilusão do unanimismo e da cultura do pensamento único. É uma espécie de regresso às origens daquilo que tornou esse mesmo clube numa referência e numa religião dogmática e cega. Fosse por ilusão cultivada, obrigatoriedade de regime, ou bajulação bacoca, a verdade é que os povos comem palha e a falta de tempo, o objecto de identificação necessário para viver e não se sentir isolado, bem como a estupidez básica do Homem levam a que, neste momento, não seja chocante aceitar que mais de metade do povinho nacional goste de andar em rebanho e gritar: “meh!”.

No meio de tudo isto, há três destaques a fazer. O primeiro, em jeito de prenúncio, escrevi-o há dois dias e engloba as outras duas dimensões criadas a partir deste. O segundo, dispensa mais escrita quando um elemento destacado da Bluegosfera o faz de forma única e com a qual estou inteiramente de acordo. O terceiro é recorrente: Quaresma.


O internacional português deu uma entrevista curiosa e naquilo que se costuma apelidar de “limite“. A questão é: extravasou-se, ou não, o limite? O que é o limite? Para quem é o limite? 

O FC Porto é um clube com uma personalidade vincadíssima. Ontem, no IV Encontro da Bluegosfera, um conjunto de temáticas foi abordado, onde se incluía a cara mística, ou o curioso ADN. Não tenho bem a noção daquilo que se abordou à tarde, pois não tive, infelizmente, a oportunidade de confirmar a minha presença, mas acredito que Bernardino Barros tenha ajudado a decifrar o enigma, ou, pelo menos, a contribuir para uma noção bastante subjectiva, mas comum aos portistas de gema que não terão de ser, necessariamente, portuenses.

Ora, essa diversidade apoiada numa personalidade forte tende a dividir o clube. Cada vez mais. Cada vez mais nos seus adeptos. Isto porque esta espécie de “cisma do portismo” radicaliza as posições e leva a um extremar opinativo e interpretativo.

quaresma zerozero

A entrevista de Quaresma merece-me poucos comentários. Tenho o meu ponto de vista que se define como neutro. Não entendo que tenha sido excessivo, ou que também não tenha dito nada de mal. 

Não estarei a fazer uma análise exaustiva de tudo. Pegarei apenas nos pontos essenciais, pois os mesmos são parte mínima de uma entrevista típica dele: confusa, descontraída, desconcertante e sempre, mas mesmo sempre, ambígua. 

Não sei se é um problema de assessoria, mas RQ7 fala sempre na pior altura, mas serve quase sempre como mote para esclarecer pontos de situação. É estranho. É difícil de caracterizar, assim como o é a própria entrevista, pois em toda ela vi implícita uma profunda admiração e respeito pelo FC Porto e uma má utilização de palavras.

Sabemos que Quaresma é uma espécie de Marco Paulo dos tempos modernos. Fala com uma certa leveza de palavras fortes como o “amor” a um clube. Mas não duvido que ame, mesmo, o FC Porto. Mas isso é Quaresma! Um depósito e reflexo do que por ele sentem. É um reflexo da dicotomia amor/ódio. Sempre será. E por isso que é um ídolo.

Não pretendo defendê-lo. A assessoria deveria saber medir o alcance daquilo que deve, ou não, ser dito. A interpretação de factos polémicos é delicada, nomeadamente com os anticorpos existentes entre portistas e “encarnadistas“. Quaresma não percebe que o amor e o “fair play” tem de ser reflectidos “contextualizadamente”. Ele não o sabe fazer; não tem consciência disso.

Quaresma talvez tenha abusado nos termos, quando se colocou em foco na determinação daquilo que é a referência do “portismo”. Mas não creio que o tenha feito intencionalmente! Não creio que tenha querido dizer aquilo. Foi, com toda a certeza, um reflexo do ego que escolheu mal as palavras e que passou uma ideia de gravitas falsa. Mas a verdade é que as palavras têm valor. Aquilo que disse, legitimamente interpretado por que pensa de forma diferente, passa a ideia de falta de respeito e de que quem chega, ao ler aquelas palavras, sente-se colocado de lado. Mas também é para isso que tem empresário (ainda por cima sendo quem é…) e é por isso que já não há aquela ideia de forma de estar e de falar estandardizada por parte das referências do FC Porto. Há aqui muito a melhorar. E não é só para Quaresma, né, Hélton!? Né, FC Porto e respectiva Comunicação?

O Portismo é um pouco como a palavra “Democracia”. Há por aí uma espécie de donos. Uma espécie de guardiões de um segredo que só deve ou pode ser interpretado de uma determinada maneira: deles. E isso é o nosso mal. O mal da minha concepção e da concepção do outros. Todos estamos errados, simplesmente porque não queremos perceber que só estaremos certos quando juntarmos a nossa concepção à do portista que se senta à nossa beira mas tem a sua interpretação própria do conceito. Sempre, desde que não desrespeite o clube, seguindo princípios básicos e lógicos que todos sabemos quais são.

Quaresma não sai, com toda a certeza. Disse umas verdades dele que não entende não serem as dos que amam o que ele ama. Fez mal, como sempre. Mas não quis agir mal. Foi ainda alvo da fome e do desejo de destruição dos media, nomeadamente de um DN que parece querer comportar-se como uma “pita” adolescente aos saltinhos, contra o próprio O Jogo, do mesmo grupo, a Global Media. Como se não bastasse a “prisão preventiva” antecipada, agora souberam pelo além que RQ7 seria “dispensado” e não estaria amanhã no Olival. De facto, não estará, mas por outras razões

Quaresma é isto. Tem os seus “amigos”, provoca tempestades e é, invariavelmente, a última gota de qualquer copo. Está no sangue do homem… E por isso mesmo é que, com a sua mística que não é a de todos, nunca mais poderá vir a ser capitão do FC Porto, mas pode e deve ser parte integrante dele.

Imbicto abraço!


Imagens: Zero Zero

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10 thoughts on “At the limit: Os amigos, as tempestades e os copos d´água

  1. O Quaresma tem mas é que começar a comportar-se como um homem! Eu gosto dele, acredita que gosto. Aliás, gosto tanto dele que quando fica amuado nas substituições apetece-me fazer-lhe o mesmo que faço ao meu sobrinho que tem 9 anos! O problema é que Quaresma não tem 9 anos, e se for melhor para o FCPorto a dispensa de Quaresma, eu dispenso-o sem pestanejar!!

    Quanto ao paleio das misticas e ADN e essas coisas todas, o povo é sempre igual, ganhamos – somos os maiores; perdemos – está tudo mal! Até parece que em 2011 tinhamos jogadores com muitos anos de FCPorto! Ou até parece que em 87 ganhamos o campeonato e a taça!!!
    Abraço!

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    1. Imbicto Marco,

      Não posso deixar de concordar com grande parte daquilo que diz. Para mim, não há, no entanto, relação entre o gosto que cada um tem pelo clube com o comportamento. Quaresma não é referência para ninguém. E é essa a única observação que tenho a fazer quanto ao discurso dele.

      Imbicto abraço!

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  2. Subscrevendo Marco Silva, uma pergunta, meu imbicto amigo.

    Imagina que tens uma empresa em que um empregado teu vem a público dizer que ele é que sabe o que é a empresa e que os outros não percebem nada daquilo. Não fazes nada?

    Qual é a imagem pública que ele dá da empresa?

    Uma coisa é estares na tasca a beber umas mines e a dizer que os gajos não sabem nada daquilo. Outra coisa é uma entrevista onde dizes exactamente a mesma coisa.

    Verborreia assassina e comidinha para os adversários…

    Abraço Azul e Branco,

    Jorge Vassalo | Porto Universal

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    1. Imbicto Jorge,

      Toda a razão quanto à forma como se diz. No entanto, não creio que se possa comparar uma empresa , lato sensu, com a natureza organizacional do FC Porto. Uma coisa é o Caldeira dizer isso na SAD, outra é o Quaresma dizer isso no clube, que tem uma dimensão mais intangível e diversa. Poderíamos, eventualmente, comparar o FCP a uma organização de outra natureza… Se é que me faço entender. E nessa perspectiva, o que disse é apenas mais uma opinião no meio de muitas, com a propriedade dos anos ou da antiguidade, mas sem a credibilidade do comportamento e do exemplo. E digo isto, pois já tive a oportunidade de estar à frente de ambas as entidades de diferente natureza que refiro e também eu já tive de lidar com uma visão diferenciada no meio de muitas, com tiques de soberba. E, nesses casos, o caminho é sempre óbvio: desvalorizar e esvaziar-lhe o poder/ influência.

      Ainda assim, entendo a tua perspectiva, Jorge!

      Imbicto abraço!

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  3. Desculpem que diga mas…anda toda a gente louca? Nao sei se foram todas as conquistas e os dois ultimos anos e meio a seco, mas existe agora uma nova linha de portistas ou criticos de conveniencia que se anda a passar.
    Isto do Quaresma já vem desde a capa da revista que andou aí um bando de puritanos a dizer que um jogador nao pode ou nao deve apresentar se assim. Ridiculo! O FCP nao tem nada que andar a mete se nas participacoes cor- de-rosa dos jogadores.
    Quanto a esta entrevista, so pode mesmo de ser a silly season. Quaresma comparou Mourinho a Jesus, e nao Jesus e Lopetegui. Ponto final, nao me lixem com teorias da conspiracao. Se ele tem em Jesus um amigo isso é la com ele, o nosso Presidente tambem tem amizade com JJ e nao vejo ninguém muito chocado com isso.
    Ponto seguinte, a parte do portismo. Fora de merdas da equipa do ano passado quais foram os que se portaram como portistas ao longo da época? Danilo, Helton(depois daquele Instagram) Ruben Neves e Paciencia(nao tem outro remédio) e quem mais? Aqui concordo totalmente com a ideia de que a muita gente se acha os Paladinos da Verdade do que é a mística ou do que é o ADN portista.
    A mim existe uma coisa apenas que é ser portista e ser portista é, entre outras coisas, como disse Quaresma ficar aziado tres ou quatro dias depois de perder com o Benfica. Isso é portismo. E ponto final.
    Deixem se de teorias da conspiracao e de perder tempo a buscar inimigos dentro da equipa, já temos tanta gente contra nós.

    Cumprimentos e fico contente deste ser dos poucos blue-blogs que nao embarcou na estupidez da silly season.

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    1. Imbicto Vudu,

      Antes de mais, obrigado pela opinião!
      De facto, é muito complicado lidar com situações desta natureza. É necessário entender esta mesma condicionante, com adeptos bastante aguerridos mas que pensam de forma diferente – cada um com uma concepção própria da mística, já que a identidade do clube é una e vive dessa mesma diversidade.

      Repare que eu próprio acredito que Quaresma não esteve bem, pois, tal como diz o João Gonçalves, abaixo, dará origem a uma instabilidade dispensável. Mesmo assim, não creio que a resposta passe pela expulsão do plantel, mas antes por um esvaziamento de “poder” e de influência, já que, como exemplo, Quaresma deve ter a noção do que dizer e quando dizer, bem como da forma como o faz.

      Creio que as correntes que defendem a expulsão do jogador estão a reagir mais por estarem saturadas de um conjunto de comportamentos, mesmo gostando dele, do que, propriamente, por este – daí o título do artigo.

      Imbicto abraço!

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  4. Caro Imbicto,

    Antes de mais foi um prazer comentar ao vivo ctg no Sábado, no canal de streaming, pela manhã.

    Depois e relacionado com isto, Quaresma ultrapassou a linha e não o pode fazer… é motivo para ser despachado? Para o bem do grupo sim, mas não obrigatoriamente.

    Quaresma pode gostar tanto do Porto como qualquer um de nós, mas Quaresma não é qualquer um de nós e tem responsabilidade institucionais e acima de tudo de defesa e protecção do grupo… o que ele fez foi exactamente o oposto… fez um ataque ao grupo de dentro e isto chama-se sabotagem.

    Se fosse a estrutura já tinha levado uma multa a preceito (e o Helton igual) e avaliaria que não seria melhor o despachar mesmo, ainda para mais tendo em conta que não é um jogador de influência vincada e que podemos ir ao mercado buscar alguém para a posição de forma imediata (caso seja a avaliação da equipa técnica).

    Para exemplificar o quão mal esteve Quaresma, basta ver a entrevista hoje de Maicon (que por acaso é dos elementos mais velhos no plantel e foi completamente ignorado pelo Quaresma) para perceber o desconforto que o RQ7 já está a provocar nos colegas.

    E também Helton deve leva e aprender pois com 37 anos ainda não sabe nada da vida…

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    1. Imbicto João!

      Bem-vindo! É bem verdade! Estivemos à conversa em breve temporalidade, infelizmente… Para o ano vêmo-nos no encontro, com toda a certeza!

      Quanto a Quaresma… Um pouco de tudo foi já dito. Estou ali no meio pois é característica nossa tomar sempre um dos caminhos quando se atinge um certo exagero naquilo que se diz. Melhor! Na forma como se diz – sem pensar…
      Não creio que expulsar o jogador seja o caminho. Não se trata de defendê-lo, mas de tentar entender que, mesmo expulsando, o acto poderá ter efeitos mais nefastos no restante plantel.

      Maicon esteve muito bem, mas espero que estas declarações não continuem em jeito de “exemplo”, uma vez que é nestas coisinhas que se perde uma equipa. Quaresma terá, com toda a certeza, a hipótese de se desculpar, redimir e apurar, tal como o fez este ano.

      Há homens e homens. E uns estão mais nos extremos do que outros. Para o bem e para o mal.

      Imbicto abraço!

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      1. Completamente de acordo.

        Contudo, Quaresma é um “desbocado” e já lhe valeu a perda da braçadeira o ano passado… será que terá perdão outra vez este ano?

        A ver vamos…

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      2. Imbicto João,

        Mais notícias a dar conta da sua saída, nas últimas horas. Incongruência total por parte da SAD, a confirmar-se, pois relega alguém que teve um comportamento que, para mim, é menos gravoso do que o do que fica. E isso só confirma o que Quaresma diz. Para o bem ou para o mal – da forma mais, ou menos correcta e admissível.

        Imbicto abraço!

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