Os emigrantes

Imbicto leitor,

Hoje e ontem fui quase surpreendido pelas declarações de dois jogadores do FC Porto na capa d´O Jogo, em plano secundário. E nem de propósito que calha todo este rebuliço pelos meses de verão, altura em que a palavra emigrante é uma das mais utilizadas no léxico nacional.

capa o jogo 25.06.2015 capa o jogo 26.06.2015

Na cidade da Póvoa de Varzim existe um monumento curioso, ao emigrante, onde podemos reparar no indivíduo que vai e que vem. Vai mal vestido, de aspecto descuidado, cabisbaixo e cheio de sonhos; vem cuidado, de pastinha na mão, endinheirado e aperaltado.

Por estas alturas, dois tipos de emigrante chegam ao nosso rectangular e pobre pedaço: os que vêm, temporariamente, e os que vão, temporariamente. Os primeiros serão, portanto, os jogadores da bola. Já os segundos, os responsáveis por uma parte interessante de receitas do segundo semestre do ano, nomeadamente em merchandising e em bilhetes. É curioso, portanto que, neste país, seja o emigrante a permitir, em parte, que outro emigrante se torne bem sucedido, em benefício dos locais.

Há, no entanto, dois pontos que distinguem ambos: o sentimento de pertença. Tudo porque o emigrante só o é fora do seu espaço de origem e será, por isso mesmo, natural que quem chega temporariamente, como profissional do futebol, não tenha em mente mais do que uma mala cheia de sonhos, prontinhos a serem substituídos – legitimamente – por tijolinhos de euros. Depois já se sabe e, comparando, uma vez mais, as remessas dos nossos emigrantes servirão para ajudar a pagar quotas, bilhetes e mercadoria a favor do clube que, por sua vez, na lógica de gestão financeira devidamente legitimada nos orçamentos anuais, é redistribuída pelos profissionais, reconvertendo-se em outras remessas para as respectivas famílias de quem vem cá vender serviços e alugar talento.

Não tenhamos ilusões! É isto que acontece, de forma superficialmente e tendenciosamente explicada. E tudo isto vem a propósito de uma discussão que tem diferentes pontos de vista e que tem motivado um incontável número de artigos na Bluegosfera acerca dos reflexos daqueles que não são “dos nossos” na consciência colectiva portista. Este artigo será o último sobre isso, até porque não me alongarei muito mais sobre aquilo que já todos sabem que penso. E se não souberdes, recuperai a memória ou pesquisai, aqui no modesto e Imbicto espaço!

Directamente a exemplos práticos, serve esta reflexão para enquadrar as declarações e a evolução histórica das mesmas, nomeadamente aquelas que foram proferidas por Herrera e Alex Sandro. Estamos perante dois casos curiosos, em sentidos opostos. Nenhum deles é ilegítimo. Ambos são paradigmáticos.


Isto era Herrera em 2013, meses antes de se transferir para o FC Porto:

“Primeiro quero fazer as coisas bem no FC Porto e depois até posso emigrar para outra Liga, como a espanhola ou a inglesa. Para uma equipa com mais nome. Claro que gostaria de jogar no Real Madrid ou no Barcelona. No Manchester também. Para já, conheço pouco do futebol português, mas agora que vou para lá há que aprender um pouco mais dessa Liga“, assume o jogador mexicano que estará acompanhado no Dragão por Reyes. “Fico também um pouco mais contente por saber que não vou sozinho. Vou com um companheiro com quem convivi bastante e tenho uma boa relação”, defende, satisfeito. in RR

Isto é Herrera em 2015, dois anos depois de ter assinado pelo FC Porto:

“Estou tranquilo e não penso em coisas diferentes das que estou a viver. O FC Porto é uma instituição incrível, é nele que estou concentrado. É um clube grande e não penso noutras coisas que não as atuais. E a última coisa que sei é que vou continuar no clube”, in O Jogo

Isto era Alex Sandro em 2011, quando assinou pelo FC Porto:

“Estou muito feliz por ter assinado com o Porto. Esta é uma nova fase da minha carreira e sempre sonhei em jogar na Europa. É um clube com muita tradição, com mais de cem anos de vida. Tem uma excelente estrutura, um estádio sensacional e, pelo que tenho recebido de mensagens, uma torcida especial. É a realização de um sonho”, in RR

Sobre Alex Sandro já todos sabem o que se passa. Tinha um contrato, quer sair. Ao contrário de outros, não faz declarações parvas antes do tempo e está a gerir, cumprindo o combinado, a sua carreira, tendo aspirações legítimas que só ele saberá quais são.

Estamos perante dois trajectos distintos e ainda perante uma espécie de decalque inversamente proporcional. E isto tem que ver com a tal circunstância e realidade de que tanto tenho falado em posts anteriores.

É incontornável o culto do emigrante, assim como é incontornável que nos tenhamos tornado numa espécie de escala semelhante àquela que o Portugal ocupa nas aspirações dos emigrantes ilegais, ou com necessidade de naturalização e cidadania europeia. Somos uma porta de entrada que, não raras vezes, aproveita a mão-de-obra relativamente mais barata do que a nacional (ainda que hoje em dia as coisas tenham mudado) e que não reclama muito. O problema é quando as aspirações do país chocam com as dos emigrantes, com vontade própria, nomeadamente a de obter os papeis para facilitar transferências no espaço comunitário, ou rendimentos certinhos (ordenado ou subsídio), se não conseguirem o ponto anterior. Isto é a globalização e não tem mal nenhum, uma vez que ninguém está a violar regras que não as estipuladas pelas instituições europeias e dos respectivos países, obrigados a acolher e integrar as mesmas nos seus ordenamentos jurídicos nacionais. O problema está, sim, na colisão de aspirações.

Estamos, portanto, num ponto de difícil retorno, ou viragem. E deixo esta sugestão em jeito de intróito, a ter em séria atenção, por parte do Imbicto Miguel Lourenço Pereira, um dos autores do Reflexão Portista, na revista Kaiser:

En 2004, el Oporto se convirtió en campeón de Europa. Fue todo un hito entonces. Pero más si lo miramos hoy, en perspectiva. Desde 1995, cuando el Ajax de la era pre-Bosman levantó su cuarta “orejona”, ningún equipo fuera de las cuatro grandes ligas logró tal éxito. Desde entonces, el Oporto fue un modelo de gestión para muchos pero, ¿es ese modelo sostenible en el fútbol actual?, in Kaiser Magazine

Mística, realidade, ambas, ou nada?

A questão está aí, com mais, ou menos dor para os nossos espíritos. E aqui, não há emigrante que fuja à dura e inultrapassável dureza dos números. Mais emigrante, ou menos emigrante; com mais ou menos ingratidão, estas são evidências que, infelizmente, sem as quais não vive a nossa paixão: o FC Porto.

Imbicto abraço!

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