Um banho de realismo

Imbicto leitor,

Ontem, escrevi no Twitter:

tweet monaco

Como podem imaginar, estava a referir-me à confirmação da contratação de Guido Carrillo pelo AS Monaco, jogador comprovadamente objecto de desejo do FC Porto.

O Tweet não foi inocente, claro. E não sendo inocente, também foi irónico.

Esta ironia não é mais do que um banho de realismo. Independentemente do nosso desejo, mais ou menos secreto, de ver retornar a tradição de jogadores de formação na equipa principal, a verdade é que uma equipa do FC Porto não pode tornar-se num plano exclusivo que ignora a competitividade, por muito bons que sejam os nossos talentos.

Aqui, há sempre duas variáveis a considerar: a falta de recursos em determinadas posições, ou o receio/ cepticismo na aposta de aparentes certezas, sob o vulto de jogadores que partem. E Jackson traz esse custo, o custo do risco que eu aprovo, apostando em alternativas aparentemente fiáveis e seguras, como são Àbombakar, Bueno e Gonçalo, mas sempre com a sensação de que falta ali qualquer coisa…

O nosso lugar no panorama internacional exige que não se arrisque a pele da direcção, ou do treinador. Exige que algumas certezas do futebol internacional ocupem o papel de Jackson, ou estaremos, provavelmente, numa espécie de Kléber 2.0, após a saída de Falcão. E isso é penoso. Penoso para os jogadores que não conseguem lidar com a pressão – ainda para mais jovens – e penoso para quem neles arrisca.

A verdade é que podemos questionar-nos acerca do seguinte: Seria Carrillo a alternativa? Um miúdo que não provou nada mais do que marcar muito num futebol que nada tem que ver com o nosso? A história recente diz que sim, com Jackson e Falcão. Mas também diz que não, com exemplos que nem me atrevo a referir e dos quais todos se lembram.

Assim sendo, continuamos na mesma. Tudo será um risco e sobra-nos apenas a dispensa de algum vulto de um topo europeu, seguindo tal lógica. Mas aí vem a segunda e penosa lógica: a massa.

carrillo fc porto

Sejamos realistas! O dinheiro que, hipoteticamente, não chegou para convencer, para lá do clube, os intervenientes com comissão e o próprio Carrillo, que ainda não passa de um miúdo que precisa de tudo para provar-se como portento na velha Europa, é o mesmo dinheiro que não há para pagar precisamente aos mesmos intervenientes de um empréstimo, de maneira a convencer uma segunda escolha de um gigante europeu. Não se trata, portanto, sequer, de discutir valores de passes, até porque se sabe que o FC Porto estaria a oferecer valores semelhantes àqueles que permitiram a realização do negócio com o Estudiantes. Ou seja, alinhavado o negócio, passa-se a dois tipos de vertente: a desportiva/ evolutiva de interesse do jogador e a financeira. E já nem falo em estatuto de clubes, porque é claro que isso, hoje, vale zero.

A realidade começa a gritar demasiadamente alto. Iniciamos um novo ciclo, onde os fundos deixam, declaradamente, de desempenhar o seu papel na ajuda da competitividade das equipas médias-altas da Europa em troca de retorno em futuras transacções, numa lógica da treta em favor dos amigos do “…ini“(migos). Não há nada a fazer a não ser encontrar investidores e apostar na prata da casa. Fundos declarados e empréstimos junto da banca, já era… Resta-nos, infelizmente, começar a pensar na dura realidade com a qual estou em negação, que é a de abdicar de nomes exclusivos de edifícios como o estádio, ou de fatias da SAD a favor de um louco novo-rico, para nos mantermos à tona do futebol de topo. Mais do que isso, engolir sapos gigantes como patrocinadores com lugar de destaque na camisola (para quando???) – porque isto não é uma questão de ficar bem, como a querida Revigrés… E se formos a pensar na lógica da origem do dinheiro, não há nada limpinho em lado algum, assim como não havia nos fundos de que tanto gostavam…

Não quero acreditar em tudo isto, mas parece-me mais real do que nunca. Não é uma catástrofe, mas é catastrófico pensar que haverá muitos portistas que não entenderão aquilo pelo que vamos passar nos próximos tempos – especialmente vendo outros clubes a, irresponsavelmente, tomarem decisões suicidas.

A ver vamos… Com calma, que ainda falta algum tempo, mas sem relaxar. Com toda a certeza que lutaremos por mais do que “descer de divisão”, ok!?

Imbicto abraço!

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3 thoughts on “Um banho de realismo

  1. «não quero acreditar em tudo isto, mas parece-me mais real do que nunca»

    e cada vez mais.
    nã0 faltam exemplos, nesta pré-época. o Carrillo é só mais um… mas também há “em nosso favor”, por assim escrever: o Lucas Lima (pelos vistos, a Doyen pressionou o Santos para lhes vender a parte que ainda possuíam, para forçar a sua venda). e o tal júnior do barça (Ayoub). e etc. e tal…

    abr@ço
    Miguel | Tomo III

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    1. É verdade, Imbicto Miguel…

      Uma nova realidade que está ainda a procurar o seu lugar para encaixar.
      Tem-se falado de muitos casos. Agora parece que até vem um goleiro do Atlético (belas relações, estas…).
      O Ayoub é uma grande promessa e parece ser essa a lógica para o sucesso, já que todos perceberam que se o FC Porto gosta, é porque é bom.

      Veremos…

      Imbicto abraço!

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