Profissionalismo, Globalização e Paixão

Imbicto leitor,

Estas alturas são sempre tramadas… É uma espécie de interregno que serve de desculpa para pensar na vida. Para pensar no passado e no futuro.

Não seremos, com toda a certeza, escravos do realismo, nem do platonismo, mas também não somos escravos da insensatez, quando a memória e a dedicação são o último degrau da condição de portista.

Hoje, mais que nunca, a realidade abre-se. A realidade abre-nos a consciência e molda-nos como sujeitos passivos de uma certa vulgaridade. Perdoem-me, mas somos, adeptos portistas, cada vez mais adeptos de um clube qualquer, nesse sentido lato do termo. Muitos de nós salivam com milhões em troca de um gajo qualquer, orgulhando-se mais por ganhar o campeonato nacional da transferência do que a liga. Gente bipolar que exige mística lusa, mas que não se satisfaz quando se cumpre esse objectivo, remetendo a contratação para uma espécie de presunção do fracasso com vista à “luta pela manutenção”.

Obviamente haverá excepções. Não serei eu a apontá-las. Não serei eu a ser juiz, ou advogado em causa própria. Deixo à consciência e ao mea culpa a função de indicar o lado para onde quererá apontar.

Há, no meio de tudo isto, no meio desta triste contestação, dois pólos que seguem de mãos dadas: o adepto e o jogador. Não quero indicar a estrutura clubística, pois parece-me ser apenas um ponto de união entre ambos.

Resumindo, estamos perante quatro realidades, duas das quais objectivas, prontamente influenciadas por outras duas de teor subjectivo: o adepto, o jogador; a realidade e o amor clubístico. Os dois primeiros guiam-se pelos segundos, oscilando entre ambos, fingindo serem o que não são em nome de um bem maior: o sucesso clubístico.


Chegamos então à análise.

Serão, ainda, os jogadores e os adeptos do FC Porto conscientes da sua aproximação à banalidade comum? Ao resultado inultrapassável das circunstâncias, da realidade e da globalização da economia e sociedade mundiais? Tu, que és português e ajudaste a desenvolver isto numa fase inicial, devias questionar o teu orgulho se achas que o FC Porto é criticável por essa mesma realidade que os teus antepassados ajudaram a criar há 500 anos naqueles barcos cheios de ratazana e de doença.

O futebol é cada vez mais global. O recurso aos fundos não tem sido mais do que uma tábua de salvação para manter clubes que, inseridos em realidades precárias, tentam respirar à tona, mantendo o estatuto outrora conquistado com variáveis bem diferentes, regionais, identitárias e místicas.

Os jogadores são cada vez mais o resultado disso mesmo: agentes passivos da globalização, desconhecedores de realidades para lá das do dinheiro, do sucesso e do reconhecimento egoísticos. Culpados? Nada disso! Vítimas. Vítimas conscientes de uma nova realidade que lhes permite, cada vez mais, virem de paragens onde há vinte anos atrás não seriam mais do que mais carne para canhão, para quem o futebol europeu estava apenas ao alcance do toque em cromos da Panini.

O FC Porto é um exemplo disso. Não podemos culpar um jogador que queira fazer do nosso clube um trampolim. Não terá sido assim que os convencemos a vir? Directa, ou indirectamente, através dos negócios do pós-2004, em que antes disso, apenas episódios “futrísticos” irrompiam na realidade, foi isso que aconteceu.

Declarações como as de Jackson, Brahimi, Herrera – que queria fazer do FC Porto uma plataforma para seguir para o United – ou outros, que acharam ser maiores do que o clube, caem mal. Mas são traços comuns de uma realidade à qual não podemos escapar: a da globalização e da competitividade que, baseada, naturalmente, no capitalismo, usa as expectativas conjugadas com a escassez para transformar os jogadores e os clubes em meras peças de um xadrez complexo e, não raras vezes, batoteiro.

Perdoa-me, amigo! Não estou a discutir ou a criticar os benefícios ou malefícios de teorias económicas, sejam elas libertárias, keynesianas, ou socialistas. Estou, simplesmente, a constatar factos.

O FC Porto nunca mais será o mesmo. Não depende de nós. O que depende de nós, é guardar o último reduto do portismo: a paixão. A sede de vitória que nos guia. Aos jogadores exija-se empenho e pudor no que dizem, já que é inaceitável admitir o choradinho de Jackson durante tanto tempo. Isto desequilibra e manipula o ambiente. Isto destrói a união e a estabilidade, tornando em insurrecto o espírito mais frágil e manipulável do balneário – nomeadamente aquele a quem alguém semeou expectativas infundadas.

Inaceitável seria ainda acreditar que jogadores como Jiménez têm lugar no FC Porto. Não se trata apenas de alternativa interna que possibilita manter esta matriz que se vai afundando e que urge recuperar. Trata-se de repugnar aqueles que não têm lugar não no nosso clube, mas na nossa forma de pensar que está para lá dessa realidade tão moldável.

Inacreditável seria Maxi no FC Porto. E não me alongo. Seria a facada final de uma descrença que depois de iniciada em relação à estrutura, veria o seu epílogo acontecer com este acto. E nenhum de nós acredita nisso, para lá dos jogos de bastidores, ou das pressões naturais entre rivais.

O FC Porto é muito mais que isso. É um clube influenciado pela circunstância. Mas não há circunstância que faça dobrar uma matriz só nossa, de adeptos que são aquilo o que o clube os ajuda a ser e a pensar.

Portanto, estou esperançado num futuro sustentável. Creio na formação como base do sucesso e da manutenção de um espírito que clama pela ressurreição. O espírito portista, de luta, resiliência, chama e orgulho. O espírito que não admite outra coisa que não a dedicação ao clube, na coerência das palavras com os actos.

Amando ou não, que se respeite o FC Porto! É o mínimo que se exige a um profissional num mundo globalizado. E isso só a estrutura o poderá fazer. Fazer alguém respeitar um contrato e a respeitar as pessoas que ajudam a pagar os rios de massa que se lhes paga, na esperança infundada de que venham a amar-nos, como se fôssemos um cliente rico que vai às prostitutas de luxo para se sentir vivo e desejado.

Só a estrutura conseguirá fazer dar a mão da realidade com o platonismo; do palpável com o intangível. E nós, eu, acreditamos, ainda, que Pinto da Costa e os seus braços sejam ainda capazes de fazer cumprir esse nosso tão sagrado e último desejo. Ou o FC Porto deixará de o ser. E com ele, nós.

Pá, vou parar por aqui… Não sei o que dizer mais. Fico com a sensação de que nada disse. Ou de que caiu em saco roto.

Estou um pouco confuso. Seguro apenas de que é necessário fazer regressar o paradigma identitário sem o qual o mundo das transferências não fará render nem paixão, nem resultados – e não será por acaso ver esses colossos cair na desgraça, por desrespeitarem a sua base identitária, o seu ADN.

Perdoa-me uma certa subjectividade e dispersão, mas são notas soltas. São libertações da mente escritas e que procuram na tua leitura compreensão e concordância. Talvez eu tenha razão, ou talvez tudo isto não tenha sido mais do que um disparate de um louco que ama o seu clube e que acredita que é possível conjugar a realidade com o sonho…

Imbicto abraço!

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3 thoughts on “Profissionalismo, Globalização e Paixão

  1. Não tenho a mesma visão que tu, meu caro.

    Vejo mais o copo meio cheio. Depende da identificação que tiverem com esta casa. Os últimos dois anos são atípicos – mais o primeiro – porque, com VP isso não se pôs. E muita da base era estrangeira. Assim sendo, calma.

    Eu acho que o Maxi é uma jogada e não uma intenção. Só aceitaria Jimenez com o Óliver atrás. E também, se marcar 30 golos, deixa tudo de pensar nisso.

    Tudo é uma circunstância. Tello também era horrível até ao hat-trick contra o zbordem. E por aí em diante.

    Se para o ano jogarmos bem, poucos se importarão com o trajecto evolutivo normal. Não podemos é voltar a vender as bases. Tem de ficar sempre alguém.

    Abraço Azul e Branco,

    Jorge Vassalo | Porto Universal

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    1. Imbicto Jorge,

      Apesar de também ver o copo meio cheio, sou um pouco mais pessimista.
      Continuo a ter toda a confiança na estrutura e na forma como aparenta estar a regressar a um modo de gestão mais aproximado do dos anos anteriores aos últimos dois.
      Também não tenho nada contra as aspirações dos jogadores e isso é claro no texto. Ainda assim, acredito que há declarações e atitudes que “queimam” irremediavelmente a oportunidade de se vir a ver, ou ver como se via, um jogador ligado contratualmente ao FC Porto como alguém que mereça grande respeito.

      Percebo o que dizes, mas, reafirmo, tenho algumas dúvidas quanto à eficiência na resolução de determinadas situações…

      Imbicto abraço e obrigado pelo teu comentário!

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