Manuel José, o catedrático da ética

Imbicto leitor,

Resolvi, ontem, dar uma espreitadela a um programa que já não via há bastante tempo, cansado que fiquei de ver o FC Porto ser relegado, emissão após emissão, a uma espécie de “10 minutos da praxe”. Falo, pois, do Grande Área, na RTP Informação. Não que desta vez estivesse à espera de um minuto, ou referência, sequer, mas a presença de Mano Menezes aguçou a minha curiosidade para entender uma perspectiva de fora com tudo o que se passa – curiosidade essa prontamente desfeita com um aborrecido e militante “politicamente correcto”.

O painel não mudou muito desde que deixei de ver aquele espaço, onde apenas Vítor Pereira e Bruno Prata iam justificando a prolongação do masoquismo militante da minha pessoa, de cada vez que perdia hora e meia de vida por semana. E lá continua a palpitar o homem de sempre. Uma espécie de senador futebolístico por quem não tenho nenhuma consideração da persona pública, ainda que, pessoalmente, possa ser a mais fofa das criaturas…

A entidade a que me refiro dá pelo nome de Manuel José, um indivíduo seco, agreste, que espirra cada palavra com um fel e uma superioridade comum a muitos pares, mas incomum no espaço público. E por isso, merece um chapeau. É directo, prático, culto… E mereceria um sombrero se fosse portista, porque falar no resguardo da maioria e do aceno de cabeça facilita sempre a coisa…

Que fique sempre claro: o meu comentário vai sempre de encontro aoreflexo público de quem se predispõe a mostrar a sua opinião, estando sujeito à subjectividade – tantas vezes mais objectiva do que a pseudo-objectividade comentarista – das apreciações dos espectadores e dos opinadores. Não se trata de colocar em causa o carácter pessoal, mesmo que o mesmo seja reflectido nas posições que se exterioriza, quer queiramos, quer não.

E por isso é que aproveito este momento para apontar um dedo bem grande ao personagem em questão. Na parte final do programa, durante o qual foi alfinetando e fazendo prever o que diria aqui, abriu a boca para falar em… ética.

Ora, Manuel José sente-se ainda recalcado com o episódio Mourinho, num estímulo activado pelas circunstâncias da transferência de Jesus, de um lado da estrada para o outro. Viu falta de ética no processo e reconheceu que as coisas não se fazem dessa forma. E prosseguiu, no final do programa, com a temática que lhe é tão cara e com a qual tem uma espécie de relação amor/ódio, fazendo dela uso subjectivo dependendo da circunstância.

O “Lado B”, espaço do programa onde os comentadores fazem uso da palavra para fazer uma espécie de post scriptum, serviu para Manuel José retomar o belo tema da ética…”ou de falta dela”, como reafirmou, após sugestão de Hugo Gilberto. E foi aqui que o homem disparou em todas as direcções.

Desde a reprovação à atitude de Jesus e do Sporting em relação ao processo de saída de Marco Silva, passando por Bruno de Carvalho e pela sua atitude “ou contra, ou a favor”, terminando com o Braga, onde toda a situação entre o presidente Salvador e Conceição se resolveria com uma conversa, em nome da ética. E a palavra foi usada e abusada. A palavra foi violada e subjectivada. A palavra foi desacreditada.

Peço desculpa, caro Manuel José, mas assim como passa a vida a dizer que “não reconhece a ninguém” determinadas atitudes, numa postura um bocadinho para o superior a isto tudo, também eu não lhe reconheço, como cidadão portista e, subjectivando-me, minimamente decente e conhecedor do alcance da palavra, que utilize de forma tão ligeira a palavra ética.

Ética será o quê?

Dizer que “este Lopetegui quando chegou falava dois idiomas: falava basco e falava espanhol. Agora fala portunhol, também, e a voz do dono“?

Dizer que “José Eduardo não presta para nada, é um anormal“?

Dizer que Mourinho é um “tarzan“?

Dizer que vai “dar palmadas no rabo” de um “puto” chamado Pedro Pinto?

Caro Manuel José, acredito que tudo o que diz sobre este processo seja um caso que envolve uma falta de ética tremenda de muitas das partes. Mas ética não é só isso. Ética é isto, segundo a Priberam:

é·ti·ca
(latim ethica, -ae)

substantivo feminino

1. Parte da Filosofia que estuda os fundamentos da moral.

2. Conjunto de regras de conduta.


Como pode verificar, ética não é apenas “fundamento moral”, que usa como base para o que diz sobre o Sporting. Ética é também a segunda parte da definição. E isso, tal como se vê acima, não é bem o seu forte…

Como portista, é insultuoso vê-lo usar esta palavra desta forma quando a ética o obrigaria a não ter proferido as palavras que proferiu acerca de Lopetegui. Assim como é insultuoso vê-lo proferir muitos outros autênticos impropérios a sujeitos que não achem concordância com o seu modo de pensar – como deverá estar a fazer à minha pessoa, neste momento.

Portanto, para bem do futebol nacional e para a inviolabilidade dos conceitos, sejamos precisos e tenhamos cuidado sempre que fazemos uso de algo que não preenche requisitos, ou cujo alcance verdadeiro é corrompido pelos nossos próprios actos.

E não será, com toda a certeza, o número de vezes ostensivo com que repetimos, eu e o caro Manuel José, a palavra ética, que fará de nós donos dela…

Imbicto abraço!


Fonte:
“ética”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/%C3%A9tica [consultado em 10-06-2015].
Imagem de capa: RTP I
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