Portugalidade ou formação?

Imbicto leitor,

Rodrigo de Almeida Martins, no bluegosférico Bibó Porto Carago, escreveu um artigo onde toca num ponto pertinente e delicado: a qualidade de ser jogador português vs. a qualidade efectiva como jogador numa dimensão global, na qual o FC Porto se move. E o argumentário utilizado pelo próprio é incontestável. Houve um desinvestimento claro na formação, num projecto delineado no tempo pela estrutura portista que foi um fracasso (Visão 611), tapado por dois tipos essenciais de prioridade: o retorno do investimento proporcionado pelo ´gatilho´pós-2004 e endividamento crescente no sentido de manter a equipa competitiva, recorrendo a jogadores externos, na falta de produção de qualidade das ´canteras´ nacionais.

Ora, o pós-2004 trouxe uma certa mistificação e transfiguração do FC Porto. Um clube que se reafirmava improvavelmente no panorama europeu e mundial, num acréscimo de competitividade quase inultrapassável, via-se obrigado a vender as suas pérolas, revolucionando o plantel, a filosofia de clube e a filosofia negocial. Novos talentos foram chegando num misto de provas dadas com irreverência promissora e à medida da valorização, o retorno começaria a ser uma prioridade que nos últimos tempos, na minha modesta opinião, tem cegado, ou desviado do caminho a direcção, mais numa lógica de maximização natural que, por sua vez, traria, mais cedo ou mais tarde, sucesso desportivo.

E bem sabemos como isto tem tornado tremido o percurso portista. Não estou a confundir as coisas, imbicto leitor! Uma coisa é autismo negocial envolvendo fundos e ´lobbies´ (chamem-lhes contrapartidas, pronto…); outra coisa é a necessidade de fazer cumprir compromissos assumidos com a banca e com patrocinadores. E o que me preocupa, como imaginarás, é essa primeira dimensão. E terá sido essa primeira dimensão, aliada a um certo desleixo e excesso de confiança auto-regenerativa de piloto-automático, que terá levado a uma realidade que ignora o jogador português (ou será antes a formação?).

De facto, houve uma certa tendência para mistificar… “O jogador português é bom, mas é caro”; “o jogador português custa muitos recursos e leva demasiado tempo a vingar”; “o jogador português não tem qualidade para rivalizar com outros”… Tudo isto ia sendo dito, numa “lógica pouco lógica” e pleonásmica… A verdade é que a vontade de investir na formação foi faltando, ora por falta de recursos devido à concentração de meios no primeiro escalão por motivação da crise bancária e empresarial, nos clubes mais pequenos (Vitória, Varzim, Setúbal, Boavista – clubes tradicionalmente formadores de qualidade superior); ora por pressão de representantes e necessidade de fazer render num curto espaço de tempo (3 anos) um investimento. E assim se foi descaracterizando o futebol nacional, que pouco tem que ver com a qualidade do jogador português, mas antes com desinvestimento e falta de oportunidade real em primeiras equipas, pouco dadas a experimentalismo – nem que fosse pontual.

meireles

Esta bolha alimentou os clubes durante cerca de dez anos. Um excesso de confiança num sistema que estoirou e que alguns agentes desportivos continuam a enfrentar em fase de negação, ou em subterfúgio lógico, defendendo a ausência de fundos, mas recorrendo à mesma figura mas com outro nome que, em abono da verdade, será o que virá a acontecer daqui para a frente, na figura de investidores individuais ou de empréstimos bancários assumidos de forma promiscua, potenciando uma nova explosão da bolha especulativa.

Ressurge, assim, o caminho da portugalidade. Clubes como o Sporting viram-se obrigados a reinvestir na academia por imposição circunstancial financeira e não por repetição exaustiva do chavão de sempre, numa lógica em tudo semelhante à do Vitória SC, mas de diferente natureza. A impossibilidade dos clubes portugueses lutarem por competições europeias para lá dos oitavos é crescentemente uma evidência e há quem assuma isso com a maior naturalidade sem renovar – como fez Jesus e o seu aparente antigo clube – e há ainda quem entenda que há condições de aproveitar três dimensões para fazê-lo com sanidade, como é o caso do FC Porto.

As três dimensões a que me refiro são simples: a busca da mística supostamente perdida, a dificuldade financeira que obriga a reestruturar ou comprar no futebol de formação interno e externo aproveitando a difícil competitividade internacional com menos meios e ainda a oportunidade de contar com o treinador certo, no lugar certo, no tempo certo: Lopetegui.

Assim surgem, há dois anos, as contratações de Josué e de Licá, numa espécie de tentativa de equilíbrio sustentável aproveitando um “piloto-automático” que não existe e neste ano, com Lopetegui a servir como ponto de mediação entre o interesse do clube em se reestruturar e a competitividade bem pensada baseada em pilares de formação, independentemente da nacionalidade, polvilhando com alguma experiência.

Estamos num momento de renovação. Os preconceitos esbatem-se e a realidade obriga a que se reinvista no produto nacional. Respondendo à pergunta que motiva o texto, ambos são precisos, sempre contra uma certa tendência a exagerar no factor discriminatório por parte do adepto, sempre que vê alguém de fora assumir-se no Porto. E este adepto tem duas saídas: entender a realidade, observando e informando-se; ou relegar-se ao seu lugar, numa realidade só sua, que ignora a circunstância e a qualidade com que o processo está a ser conduzido.

André André

Relevo, terminando, a forma como o FC Porto parece estar a gerir as situações com base naquilo que fazia bem, no passado. A contratação ainda por oficializar de André André, a ser verdade, é sinal inequívoco disso. Sinal esse que se vai dando nas modalidades para lá do futebol. André Silva demonstra qual é a sua prioridade e Ivo relembra que está ali, apesar da forma estranha com que foi gerido o seu processo de empréstimo. Mais nomes estão em lista de espera e será bom que todos possamos vê-los nos relvados do campeonato nacional – seja na equipa principal do Porto, seja numa lógica de transição e crescimento em outros clubes, o que só prestigiaria o campeonato português. Rafa, Leandro, Gudiño, Lichnovsky, Ruíz. Todos estes precisam de uma oportunidade que não pode voltar a ser tapada por experimentalismo de investimento, numa lógica quase de casino. De preferência com a ajuda de um treinador de B que os lance para uma outra dimensão, com todo o respeito pelas qualidades humanas e dedicação do mister Castro.

Assim sendo, a prioridade deve ser a formação e não a portugalidade. Se for nacional, melhor, mas não creio que esse mito seja o mais acertado para servir de pão para alimentar uma Selecção Nacional muitas vezes ingrata para com o FC Porto. A prioridade terá de ser o FC Porto e não o preconceito de se ter a especificidade de uma espécie de casta que não se fabrica – antes, trabalha-se, desenvolve-se e é-se.

Imbicto abraço!

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4 thoughts on “Portugalidade ou formação?

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