Afinal, o que é isso de “mística”?

Imbicto leitor,

Muito tem sido escrito e falado pelos lados da Bluegosfera. Aparentemente, há uma espécie de confusão terminológica na caracterização do sentimento Portista que tem feito escorrer tinta e pixeis por este maravilhoso mundo azul-e-branco. E não só…

Só por si, não augura nada de bom. Em primeiro lugar, o facto de não haver concordância diz-nos que o entendimento do “Ser Porto” é objecto das mais extraordinárias subjectividades. E para apurar o que de facto significa isso: “Ser Porto”, há que aprofundar o debate e entender o que está na origem desta expressão como verbalização do intangível, uno e Imbicto modus vivendi.

Sem entrar por grande pormenorização científica, gostaria de adiantar alguns dados que me parecem indispensáveis numa discussão que se exige entre portistas, a partir de princípios bem simples, e que se quer conclusiva, sem espartilhos e sem superficialidade “carneirista”.

Concepção generalista

O ser humano comporta-se de forma curiosa. Sem aprofundar pela ciência sociológica e antropológica, sabemos que nos regemos por identificação; por pertença – seja a um lugar, ou a um espírito. Essa necessidade de pertença é o que nos define como entidade não isolada e integrada socialmente – como ser social. E por que raio estamos a ir por este caminho? Porque o somos parte de um todo inserido numa cultura. Somo-lo, mesmo que não tenhamos noção disso, numa espécie de cultura grupal.

Génese

No nosso caso específico, “Ser Porto” é o espelho de uma cultura particular, de um pensamento pré-determinado pelo circunstancialismo socio-económico e pela cultura intrínseca, espelhada nos mais breves e simbólicos actos como: o vernáculo, o ostracismo político, ou a mutação histórica advinda de raízes muito vincadas dos povos do Noroeste Peninsular, acompanhados pelos nossos meios-irmão de Vigo, por exemplo.

Assim sendo, “Somos Porto” como resultado desta soma de particularidades, confluídas num epicentro de poder que reivindica tratamento igualitário em nome do Norte. O FC Porto é, portanto, uma das expressões culturais desse mesmo princípio genético identitário.

Lopetegui pode dizer que “É Porto”?

O exemplo do País Basco é sintomático disso mesmo. Uma subcultura que digeriu mal a unificação espanhola medieval e a definição fronteiriça com França. Não será por acaso que se mantém a tentativa de prevalência do Basco como língua oficial das regiões de Navarra e do próprio País Basco. E tal como cá, o Atlethic é a face cultural de uma identidade própria, levada a um expoente que não terá, necessariamente, de ser o nosso, mas que tem como origem as mesmas premissas.

Lopetegui, como todos sabem, e natural de Asteasu, no País Basco. Tal como todos os bascos não “amadrilenados”, mantém vínculo com as suas raízes, à semelhança dos portuenses, ou nortenhos, não “alisbonados”. Entende a essência daquilo que é “Ser Porto” como ninguém, mas não pode dizer que o é. Ainda assim, como autor primário, como agente, da transmissão da mensagem, tem legitimidade para tal e compreende do que se trata. Portanto, não poderá ser ofensivo ouvi-lo dizer: “Somos Porto” com propriedade.

Lopetegui não “É Porto”, formalmente, mas sabe bem o que isso significa, materialmente – talvez melhor do que muitos de nós… -, numa percepção de forasteiro integrado e vinculado a um espírito. É sua propriedade transmiti-lo, não como pessoa educada com os nossos valores, mas como pessoa educada com valores semelhantes, num contexto semelhante e adaptado àquilo em que o FC Porto se transformou. É, assim, um agente privilegiado no casamento entre a origem e a meta – no objectivo de cativar quem vem de fora e não entende o que significa tal abstracção.

Portanto, antes de acharem que o sujeito não sabe o que é “mística”, ou “Ser Porto”, pensem das vezes e entendam contextos e perspectivas sem preconceitos básicos que se prendem com geografias, ou tempos.

Um FC Porto “aburguesado”?

Mas afinal, que raio é isso?

Este é um dos preconceitos que mais me irrita nos críticos do FC Porto (internos): dizer que o clube se “aburguesou”. Meus senhores, se tiverem um pouco de paciência e liberdade de espírito, será com algum choque que constatarão que o sentimento de “Ser Porto” vem muito dessa tão “maldita” burguesia…

Talvez Marx tenha tido uma influência demasiadamente dogmática no léxico nacional, nomeadamente no pós-25 de Abril. Caracteriza-se tudo o que reflecte tiques de grandeza e de ostentação como “burguês”. De facto, é verdade, mas não serão os sujeitos responsáveis por essa acusação, adeptos do FC Porto, “aburguesados”, eles próprios, por, à mínima adversidade, quererem desvincular-se da raiz, tendo como referência única o sucesso? Não estarão os “homens do apito” a confundir a ponta do dedo com o corpo?

Vejamos… Como se não bastasse, o presidente que tanto veneram, Jorge Nuno de Lima Pinto da Costa, tem origens burguesas. E foi com esses “tiques” de burguês” que procurou provocar os princípios pré-estabelecidos, a partir da resiliência e de um orgulho ostensivo daquilo que foi conquistando, com todo o mérito.

Historicamente, a matriz revolucionária e inquieta desse mesmo Porto que se quer reflectido no espírito do clube, é burguesa. Foi a burguesia a responsável pela expansão da cidade para Norte e para a Foz, assim como foi essa mesma burguesia insatisfeita da era mercantilista e pós-mercantilista, que se tornou republicana e “anti-establishment”.

Meus senhores, antes de cairmos em chavões políticos, de palavras que parecem ter adquirido um lugar que não o seu, tentemos entender o que está a montante!

Não pretendo, obviamente, tecer considerandos políticos, até porque os quero fora daqui, na sua vertente partidária. Portanto, não se ofendam, pois não estou a dar um mau uso aos pensamentos marxistas. Cada um com a sua convicção!

Cultura de vitória

Chegamos, neste pequeno texto, que procura atiçar a vossa consciência e mea culpa,  o ponto em que se quer saber o que é, então, isso de “Mística”(?)…

Instalou-se, factualmente e unanimemente, uma cultura de sucessos, de conquistas. Essa cultura só foi possível com união das gentes. Não será por acaso que o discurso de Pinto da Costa, o da bomba, tenha sido o reflexo de toda esta simbologia do: “contra tudo, contra todos e contra os tolos”. Não será também por acaso que a nossa era dourada tenha sido conquistada de forma hostil, contra um mecanismo centralista óbvio, vindo desde os tempos medievais e da instalação da corte e da aristocracia (se é que alguma vez a houve, no seu pleno alcance) posterior, em Lisboa.

O lugar do Norte, onde gente nascida em Paredes, no eixo Póvoa-Vila do Conde, ou em Viseu, se revê no “espírito Porto”, não é acaso. Miúdos sacrificam-se e sacrificam os pais em nome de uma identidade, de um querer que supera a mera superação da condição de vida e que é apreendido nas escolinhas Dragon Force. Há uma mentalidade instalada que procura agentes, onde a mística não pode, nem deve ser exclusiva, como no Bilbao, mas que deve ser doseada, na modernidade, com o lugar competitivo conquistado a pulso por agentes do passado. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra, portanto…

Há, portanto, um lugar a preencher: o do núcleo duro; do alicerce. O ornamento futebolístico trará a qualidade que falta. E esse núcleo, não é só dado por três, ou quatro líderes de balneário cá nascidos e criados. Faz-se a partir de uma ambiência: a ambiência do 12º jogador – de ti, Imbicto!

Assim sendo, reflictamos! Saibamos qual é o nosso lugar. Saibamos ainda qual é o lugar que, através de nós, terá o Porto no futuro difícil, competitivo e global.

Porque nenhum de nós que ser menos do que é hoje, cabe a cada um de nós construir e fazer prevalecer um espírito que não morre e que pode ter alguém que nos entende – que saiba falar a nossa língua – à sua frente.

Assim, sim. Seremos Porto! Sem preconceitos, mantendo raízes e entendendo contextos. Não nos deixemos mergulhar no imediatismo, ou teremos, os poucos que restarem, de contar aos nossos filhos o que foi, um dia, o FC Porto que não mais é. Quereremos isso?

Imbicto abraço!


Imagem de capa: Google

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3 thoughts on “Afinal, o que é isso de “mística”?

  1. concordo plenamente com tudo o que tão bem explanaste neste texto com imensa ‘mística’.
    mesmo assim, permite-me só um pequeno reparo, citando um dos nossos, vulgo o “Mestre”:


    Pertence a José Maria Pedroto a famosa frase que coloca o adepto à frente da equipa. “A massa associativa do FC Porto não é o 12.º jogador, como se diz por aí. É o 1.º jogador, porque sem ela o futebol não tinha razão de existir”, disse, em Abril de 1979.

    abr@ço forte
    Miguel Lima | Tomo III

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