A gata paspalha

Bernardino, Bernardino…

Já te disse qual é o destino.

 

Escorre tinta no jornal

Num qualquer acto estouvado.

Escorrem mentiras em vendaval

Intenso, fitas, discurso bordado.

 

Bernardino, Bernardino…

Já te disse qual é o destino.

 

De paspalho em paspalho,

Segue a fila coordenada.

Não há carneirinho que veja condenada

A gata do borralho.

 

Bernardino, Bernardino…

Já te disse qual é o destino.

 

Essa gata há quem a conheça,

Recebendo a benesse que desejara.

Com ela segue o tinteiro

Que a acompanha pela farra.

 

Bernardino, Bernardino…

Já te disse qual é o destino.

 

De braço dado vai a gata,

Com quem linhas e notas escreva.

Tortas, soltas, mentirosas,

Qu´a desmenti-las ninguém se atreva!

 

Bernardino, Bernardino…

Já te disse qual é o destino.

 

Na sopa vai molhando o bigode,

Debaixo do braço leva pagode.

Se a mim não me ajudas,

Tinteiro,

Judas

Não acode.

 

Bernardino, Bernardino…

Já te disse qual é o destino.

 

Dizem que leva promessa, o bicho.

Dizem que morde a mão ao dono.

Não há abono

Que mascare

O lixo,

Na verdade em dias de Outono.

 

Bernardino, Bernardino…

Já te disse qual é o destino.

 

Com faixa, berro, desencanto…

Fica pranto.

No canto do olho já roxo,

De Bruno que quer que de santo

Fique o manto.

 

Bernardino, Bernardino…

Já te disse qual é o destino.

 

Acabou-se o tinteiro.

A mão já vai cansada.

Usa a voz como companheiro,

Enquanto a troca-tinta é restaurada.

 

Bernardino, Bernardino…

Já te disse qual é o destino.

 

E quando duvidares, Bernardino,

Atrás ao tempo recua!

Não há lua

Que encubra

A penumbra do bardino.

 

Bernardino, Bernardino…

Já te disse qual é o destino.

 

Estou cego.

Não mais vejo.

Mas ainda me cabe o ensejo

De na mentira pregar prego.

 

Bernardino, Bernardino…

Já te disse qual é o destino.

 

Deixa que mintam!

Com lata,

A tinta não mata

Aqueles que com engenho fintam!

 

Bernardino, Bernardino…

Já te disse qual é o destino.

 

É meia-noite.

Novo dia, eis que revela a parda.

Já não tarda;

Chega a gata postrada.

 

Bernardino, Bernardino…

Já te disse qual é o destino.

 

E jaz a gata na sétima vida.

Ía longa, perdida.

Errante, ou vagabunda,

Só com outros é que a verdade secunda

Com a acendalha.

Era uma vez a gata paspalha…

Da gamela não leva medalha.

 

Bernardino, Bernardino…

Já te disse qual é o destino.

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